26 de fev. de 2013










Por ROBERTO VIEIRA



Ponderei profundamente antes de escrever sobre o assunto, pois existem milhares de exceções. Além do mais, quem está apaixonado deve desconsiderar estas palavras e viver intensamente sua paixão. A paixão é tudo que se leva dessa vida...


O amor foi feito para uso limitado e lembrança eterna. Amor que se tornou eterno quando o ser humano era breve. Um casal se conhecia aos quinze anos, casava aos vinte, procriava até os trinta e enviuvava aos quarenta. Normalmente sem direito a replay.

Quando um dos pombinhos partia para o outro lado, sobreviviam suas qualidades, seus acertos, sua essência cristalina. Porque quem deseja ser bom, ou morra ou vá pra longe. O cônjuge sobrevivente raras vezes tinha tempo para uma nova aventura amorosa, pois o sustento da casa e dos rebentos exauria sua energia física e mental. E era um tal de endeusar o antigo amor, até mesmo para servir de exemplo na educação dos mais jovens.

Até mesmo os defeitos insuportáveis se tornavam características folclóricas, rocambolescas, dignas de serem recordadas em nome dos bons tempos.

Tudo ia bem até que a medicina e a melhoria das condições de vida da população fizeram aumentar a expectativa de vida dos apaixonados. De quarenta pra cinqüenta, de cinqüenta pra sessenta, de sessenta pra oitenta e sabe-se mais lá o que. Repentinamente. Não se conseguia mais se ver livre daquele traste assistindo futebol ou falando sobre a novela das seis. A deterioração das conversações, a falência das carícias e intimidades, o apocalipse das brigas e desencontros veio à tona diante da sombra nefasta da longevidade.

Os casamentos começaram a naufragar um depois do outro. Titanics repletos de Romeus e Julietas sem bóias salva-vidas. Dando pena em ver tantos romances perfeitos descendo a escada do porão assim sem mais nem menos. Às tulhas. Homens e mulheres apaixonados buscando um beijo do ser amado e encontrando a frieza e palidez de um desconhecido (a).

Sobrevieram dor e a sensação de abandono. Não raro com a descoberta de uma outra paixão na vida de quem era o amor eterno e indissolúvel. Homens e mulheres deslumbrando-se com outros amores eternos no trabalho, nas escolas, nas ruas e bancas de revista. Homens e mulheres esquecidos em suas vidas aparentemente certinhas e com garantia de ‘até que a morte os separe’.

Mas danada da morte não veio.

Gostaria de estar errado e vibro entusiasticamente quando vejo um casal de mãos dadas passeando pelas ruas – ainda mais se for bem velhinho. Sou eterno apaixonado por grandes histórias de amor, por romances com final feliz, por passeios nas gôndolas de Veneza ao som de ‘Io che amo solo te’. Paris também serve nas manhãs de maio e outubro. E quando a gente está apaixonado qualquer ônibus lotado da Cidade Universitária tem o charme de uma noite andaluz.

Mas... a verdade nua e crua é que envelhecemos aos olhos de quem a gente ama. Nossos gestos mais ínfimos assumem a proporção de tragédias gregas. Nossas mãos enrugadas demonstram que o garoto (a) em nós já não existe. Os milhares de beijos dos primeiros anos desaparecem diante do beijo nenhum do fim de caso. A solidão do quarto em separado onde começamos a dormir desperta aquele desespero ancestral do ser humano nas cavernas diante do infinito desconhecido. Somos apenas nós mesmos frente a frente com o desconhecido futuro. Um futuro cada vez mais longo e perverso.

Ou será que não?

Será que a tal longevidade não nos permitirá uma última esperança, uma última paixão?

Pois é, m(inha)eu chapa!  

Tenho certeza que sim – e só por isso escrevi até aqui pensando em você.

Não fique triste e melancólico quando os seus defeitos são aparentemente tão imensos que afastaram seu grande amor. Não fique aí sentado, amargurado, imaginando onde ela/ele deve estar nesse momento. Não se aflija quando ele/ela atende ao telefone alegremente com todo mundo e faz cara feia pra você.

Muito melhor ser um cara chato vivo, que um ídolo excepcional morto. Simplesmente, porque você tem a oportunidade de virar o jogo. De amar e ser amado de novo.

Bote um sorriso nesse rosto triste. Toque um disco do Vinícius – qualquer um. Faça exercícios e exercite o bom humor e o alto astral. Se possível, perdoe seu antigo amor já que ninguém é culpado por desamar ninguém da mesma forma que ninguém é culpado por amar.

Não se pode ganhar todas nas pugnas do coração. O amor só é infinito enquanto dura. Não aceite o mais ou menos amargo de uma relação falida na qual você sempre dá sem nunca receber. É mais honesto pegar a carteira de identidade, bater o portão sem fazer alarde e com a leve impressão de que já vai tarde.

Porque lá fora repousa a vida. E a vida sempre terá uma bela surpresa pra quem deseja vive-la...

Boa sorte!


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