Por ROBERTO VIEIRA
Ponderei profundamente
antes de escrever sobre o assunto, pois existem milhares de exceções. Além do
mais, quem está apaixonado deve desconsiderar estas palavras e viver
intensamente sua paixão. A paixão é tudo que se leva dessa vida...
O amor foi feito para uso limitado e lembrança eterna. Amor
que se tornou eterno quando o ser humano era breve. Um casal se conhecia aos
quinze anos, casava aos vinte, procriava até os trinta e enviuvava aos
quarenta. Normalmente sem direito a replay.
Quando um dos pombinhos partia para o outro lado,
sobreviviam suas qualidades, seus acertos, sua essência cristalina. Porque quem
deseja ser bom, ou morra ou vá pra longe. O cônjuge sobrevivente raras vezes
tinha tempo para uma nova aventura amorosa, pois o sustento da casa e dos
rebentos exauria sua energia física e mental. E era um tal de endeusar o antigo
amor, até mesmo para servir de exemplo na educação dos mais jovens.
Até mesmo os defeitos insuportáveis se tornavam características
folclóricas, rocambolescas, dignas de serem recordadas em nome dos bons tempos.
Tudo ia bem até que a medicina e a melhoria das condições de
vida da população fizeram aumentar a expectativa de vida dos apaixonados. De
quarenta pra cinqüenta, de cinqüenta pra sessenta, de sessenta pra oitenta e
sabe-se mais lá o que. Repentinamente. Não se conseguia mais se ver livre daquele
traste assistindo futebol ou falando sobre a novela das seis. A deterioração
das conversações, a falência das carícias e intimidades, o apocalipse das
brigas e desencontros veio à tona diante da sombra nefasta da longevidade.
Os casamentos começaram a naufragar um depois do outro. Titanics
repletos de Romeus e Julietas sem bóias salva-vidas. Dando pena em ver tantos
romances perfeitos descendo a escada do porão assim sem mais nem menos. Às tulhas.
Homens e mulheres apaixonados buscando um beijo do ser amado e encontrando a
frieza e palidez de um desconhecido (a).
Sobrevieram dor e a sensação de abandono. Não raro com a
descoberta de uma outra paixão na vida de quem era o amor eterno e indissolúvel.
Homens e mulheres deslumbrando-se com outros amores eternos no trabalho, nas
escolas, nas ruas e bancas de revista. Homens e mulheres esquecidos em suas
vidas aparentemente certinhas e com garantia de ‘até que a morte os separe’.
Mas danada da morte não veio.
Gostaria de estar errado e vibro entusiasticamente quando
vejo um casal de mãos dadas passeando pelas ruas – ainda mais se for bem
velhinho. Sou eterno apaixonado por grandes histórias de amor, por romances com
final feliz, por passeios nas gôndolas de Veneza ao som de ‘Io che amo solo te’.
Paris também serve nas manhãs de maio e outubro. E quando a gente está
apaixonado qualquer ônibus lotado da Cidade Universitária tem o charme de uma
noite andaluz.
Mas... a verdade nua e crua é que envelhecemos aos olhos de
quem a gente ama. Nossos gestos mais ínfimos assumem a proporção de tragédias
gregas. Nossas mãos enrugadas demonstram que o garoto (a) em nós já não existe.
Os milhares de beijos dos primeiros anos desaparecem diante do beijo nenhum do
fim de caso. A solidão do quarto em separado onde começamos a dormir desperta
aquele desespero ancestral do ser humano nas cavernas diante do infinito
desconhecido. Somos apenas nós mesmos frente a frente com o desconhecido
futuro. Um futuro cada vez mais longo e perverso.
Ou será que não?
Será que a tal longevidade não nos permitirá uma última
esperança, uma última paixão?
Pois é, m(inha)eu chapa!
Tenho certeza que sim – e só por isso escrevi até aqui
pensando em você.
Não fique triste e melancólico quando os seus defeitos são aparentemente tão imensos que afastaram
seu grande amor. Não fique aí sentado, amargurado, imaginando onde ela/ele deve
estar nesse momento. Não se aflija quando ele/ela atende ao telefone alegremente
com todo mundo e faz cara feia pra você.
Muito melhor ser um cara chato vivo, que um ídolo excepcional
morto. Simplesmente, porque você tem a oportunidade de virar o jogo. De amar e
ser amado de novo.
Bote um sorriso nesse rosto triste. Toque um disco do Vinícius
– qualquer um. Faça exercícios e exercite o bom humor e o alto astral. Se possível,
perdoe seu antigo amor já que ninguém é culpado por desamar ninguém da mesma forma que ninguém é culpado por amar.
Não se pode ganhar todas nas pugnas do coração. O amor só é
infinito enquanto dura. Não aceite o mais ou menos amargo de uma relação falida
na qual você sempre dá sem nunca receber. É mais honesto pegar a carteira de
identidade, bater o portão sem fazer alarde e com a leve impressão de que já
vai tarde.
Porque lá fora repousa a vida. E a vida sempre terá uma bela
surpresa pra quem deseja vive-la...
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