Por ROBERTO VIEIRA
A casa estava vazia. Nenhum som de cachorros, brinquedos,
crianças. Todos haviam partido. Com o tempo, com os passatempos, com os amigos.
Com o destino que traça seu caminho nas encruzilhadas de nós mesmos.
Já não havia ninguém. Apenas alguns livros e alguns rabiscos
espalhados pela mesa. O homem velho já não sentia muito a passagem dos dias. O
amor era uma peça de antiguidade guardada no mais profundo de sua alma. Ninguém
acreditava que amasse alguém, mas todos sabiam que a única maneira de atingi-lo
era com o silencio. Este silencio de casa vazia. Nenhum som de
cachorros, brinquedos, crianças.
Ele não tinha certeza se já amara alguém. Pelo relato das
pessoas que imaginara ter amado, ele não amava ninguém. Era apenas um sonhador
debruçado sobre as possibilidades do sonho apaixonado. Parecia uma figura mitológica
simbolizando tudo aquilo que as pessoas mais desejavam longe de si. Um pai de
poucas lembranças, um avô frio e distante, um irmão insensível e frio.
Quem sabe, pensava ele naquela tarde sem ninguém em casa. Quem sabe? A
solidão estava escrita em sua carta genética e não havia possibilidade de
modificar o futuro ribossômico. Helicoidais traçadas na véspera do ´big bang’ vicejavam
por sua atmosfera.
A mão direita cansara dos jabs. O corpo cansara das firulas
e fugas dos ganchos. Era tarde demais para beijar a lona e tarde demais para
ganhar por pontos.
Ao longe, o som das vozes dos vizinhos durante a festa de
aniversário chegaram aos seus ouvidos. Como era bela a festa em família! Ele
gostava destes sons. Eram sons humanos e palpáveis, sinceros e indefesos. Sempre
lembrava que havia sido feliz um dia.
Suspirou por um beijo. Não havia bocas para beija-lo. Ou
melhor, havia. Caso decidisse ligar para a filha, ela viria ao seu encontro
para beija-lo, mas isso era crueldade nesse mês de janeiro. Deixar os filhos em
paz, aproveitando a vida que passa tão rápido. Os filhos eram o segredo que
trazia no coração. Sempre longe, sempre presentes. Caneta, papel, computador.
As palavras chegaram novamente. Aos borbotões. Escreveu na
pauta virtual mais um texto sobre si mesmo falando como se fosse de outra
pessoa. Besteira. Todos os textos são sobre nós mesmos. Ninguém sai de si para
escrever um texto. Ele sempre é a expressão mais sincera de nós mesmos, mesmo
quando ninguém percebe de tão inconsciente que o texto parece.
A casa estava vazia. Nenhum som de cachorros, brinquedos,
crianças. Todos haviam partido. Com o tempo, com os passatempos, com os amigos.
Com o destino que traça seu caminho nas encruzilhadas de nós mesmos.
A música de Paul Simon começa a tocar na velha radiola: ‘I
am a rock. I am an island...’
E uma pedra não sente dor.
Uma ilha nunca chora...
Belíssimo! E é isso mesmo !
ResponderExcluir