1 de dez. de 2012







Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM



Na noite de 22 de janeiro de 1964, na segunda partida da série melhor de três para saber quem era o campeão de 1963, vitória do Náutico por 4x2, jogo realizado nos Aflitos, estava sendo escrito oficialmente, com firma reconhecida no cartório da federação, o início da mais fantástica história do futebol pernambucano. Era o começo da jornada do Hexa. Muito já se disse, já se falou e já se escreveu sobre aquele jogo e a grande conquista de 1968. Melhor então contar uma história fantástica, também verdadeira, que tem um dos principais personagens do jogo e do Hexa como herói. Seu nome: Ivan Brondi de Carvalho, o capitão da jornada dos seis anos. 

Na tarde daquele dia, na concentração do Náutico, na Rua Santo Elias no Espinheiro, na cidade do Recife, o jovem paulista Ivan Brondi, de São Cruz do Rio Pardo, nascido em outubro de 1941, 22 anos incompletos, longe da família, procurou o treinador Alfredo Gonzáles, a quem devia obediência e com quem se aconselhava, para um pedido especial. Estudante secundarista, tinha uma prova de segunda época para fazer às 7 da noite no Colégio Padre Félix, onde estudava, no bairro da Boa Vista, bem perto do centro da cidade. As obrigações como profissional de futebol não lhe permitiam uma melhor atenção aos estudos. Por isso, o exame de segunda época com o professor Palhano, conhecido por sua seriedade e cobrança no trato com seus alunos.

O treinador González, compreensivo e de sentimentos humanistas pouco comum entre os seus, atendeu o pedido. Tempos outros. Não consultou dirigentes, nem foi pedir autorização ao presidente. Assumiu a responsabilidade. Sabia o que estava fazendo. Que Ivan pegasse um taxi, fizesse a sua prova, mas não se descuidasse. Antes das nove estivesse de volta para a preleção. Ivan cumpriu à risca a programação. Fez a prova, saiu do Padre Félix de bem com a vida. Tinha acertado a maioria das questões. Pegou um taxi na Conde da Boa Vista e falou para o motorista: – “Campo do Náutico, nos Aflitos!” Não dava mais para passar pela concentração. O tempo corria.

O motorista fez o possível, mas o trânsito não ajudava. Na entrada da Avenida Rosa e Silva, em frente ao clube Português, um engarrafamento monstro, próprio dos dias de clássicos nos Aflitos. Ontem e hoje, a mesma coisa. O motorista foi honesto: – Moço, não dá mais. Se o senhor quer pegar o jogo do começo, o melhor é saltar e ir a pé!”

Ivan pagou a corrida e se mandou diretamente para o vestiário. Concentração, nem pensar. A turma já devia estar toda no estádio, no vestiário. Na seção de massagens, no bate-bola com a parede, na conversa solta para fazer passar o tempo, esquecer  o que vem pela frente.

O jogo logo mais. Armando Marques, o melhor daquele tempo, no apito. O mesmo da primeira partida, no domingo, três dias antes, na Ilha do Retiro. O Náutico tinha vencido por 3x2. No Aflitos, na noite da prova de Português de Ivan, era o favorito. Jogava em casa sob o calor de sua torcida e, na Ilha, três dias atrás, tinha dado provas. Era mais time. Nado, Bita, China (ou Nino, tanto faz), Ivan e Rinaldo. Como discutir?

E o jogo do dia 23 de janeiro de 1964, vitória do Náutico por 4x2? Os jornais da época dizem melhor:

Manchetes da página esportiva do Jornal do Commercio:  “Náutico, Campeão de Ouro de 63 em Melhor de Duas”. “Os golaços marcados por Rinaldo acabaram com o Sport”. “Ivan, o Maior do Jogo”. Última Hora: “Rinaldo fez dois e é carregado por mil!” “Esporte caiu de vez (4x2) nos Aflitos”. Assim mesmo, Esporte, e sem o sinal de interjeição. Não precisava!

Mas, no corpo da notícia, na primeira página, a Última Hora registrava: “A torcida do Náutico festejou, ontem à noite, a conquista do campeonato pernambucano de futebol da temporada de 1963, com um carnaval espetacular, animado com uma charanga uniformizada com as cores do ‘leão da Ilha’, desfilando pelo estádio dos Aflitos em ritmo de frevo, após a vitória justa e merecida diante do quadro do Esporte (sic), pela contagem de 4x2. Coube a Rinaldo (2), Nino e Bita golearem na vitória alvirrubra, enquanto Djalma e Fescina marcaram os tentos do quadro rubro-negro”.  Charanga com as cores rubro-negras?  Gozação da torcida timbu ou fair play que hoje não se vê mais?

O time do Náutico na noite de 23 de janeiro de 1964: Lula, Gernan e Zequinha; Salomão, Gílson Costa e Clóvis; Nado, Bita, Nino, Ivan e Rinaldo. Treinador: Alfredo González. Com registram os jornais, Rinaldo, artilheiro do campeonato, foi o dono da festa. Mas Ivan, o secundarista do Colégio Padre Félix, o “pequenino Ivan”, como anotou o editor de esportes do Jornal do Commercio, “foi a maior figura do clássico de ontem à noite”. E, complementando: “Nunca um craque correu tanto, e proporcionou tantos lançamentos certos para os seus companheiros, como Ivan na noite passada, se constituindo como a grande figura do quadro vitorioso.”

Assim se conta mais uma vitória do Náutico que entrava para a história. A conquista do primeiro título de um rosário de seis. Um fato inédito na história do futebol de nossa terra. 



2 comentários:

  1. Vendo hoje Iniesta (hoje mesmo, à tarde, Barcelona 5x1 Atlethic de Bilbao), lembrei de Ivan. Ou seria o contrário? Lembrando o Hexa, é como se estivesse vendo Iniesta em campo com a camisa 10?

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  2. A letra 'I' do futebol e seus monstros sagrados...Índio, Inzaghi, Iribar, Iriarte, Ibrahimovic...

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Comentários