15 de nov. de 2012







Trigésimo aniversário do América. O dirigente Rubem Moreira olhou para os setenta e dois mil cruzeiros a sua frente. Há dezessete anos, o América não sabia o que era um título estadual. Rubem estava tenso. Ao seu lado estavam os irmãos Abreu e Lima, Benjamin Gonçalves, Augusto Gomes, João e José Moreira, Jaime Loio e Manoel Costa.

Cadê Capuco, c...?”

O pivô Capuco estava em Pirapora, Minas Gerais.

Desprezado pela Juventus de São Paulo, Capuco recebera dinheiro do América com ordens de retornar da capital paulista. Em vez de comprar a passagem, ele mandara toda a quantia para a esposa em Recife. Sem um tostão no bolso, Capuco dormia nas ruas de Pirapora pedindo mais grana ao América.

Nelsinho, ponta-direita do América-RJ havia sido oferecido. O arqueiro Gerin, revelação do norte do país também. Gerin viria para a tarefa inglória de ser reserva do mítico Leça, mas o América se encantou mesmo foi com Djalma, atacante do Dolaporte paraibano.

Mandem buscar o Capuco, p...!”

Capuco era craque e tinha uma legião de fãs em Recife. Do miolo mole dele os irmãos Moreira saberiam cuidar. Quem seria o técnico?

Sherlock, a gente está disposto a te pagar cinco mil de luvas e mil cruzeiros por mês!”

Mas Sherlock, apelido do antigo jogador do Santa Cruz, Argemiro Félix de Sena, preferia ser juiz de futebol. E indicou Álvaro Barbosa, técnico pouco conhecido, para dar o título que o América tanto sonhava. Cinco anos antes, Barbosa havia brilhado na zaga americana e o seu nome, identificado com as cores esmeraldinas serviram de passaporte para a aprovação de Rubem Moreira.

Deusdedith chegou pra compor a zaga impecável com Lucas; Leça era Leça - e quem tinha Julinho na equipe sempre podia almejar ao título. Porém, o Santa Cruz despacha o América na largada do Torneio Início, gols de Tico-Tico e Renato para os tricolores, Djalma descontando de pênalti para os esmeraldinos. O Náutico seria o campeão do Torneio Início, disposto a retomar o comando do futebol pernambucano.
Rubem Moreira ficou preocupado. Por pouco tempo. Pra quem acompanhava futebol com olhos de precisão, as primeiras partidas do certame deixaram boa impressão do América. O campeão do Centenário empata em 2 a 2 com o Santa Cruz. Uma semana depois, outro empate, desta vez em 1 a 1 com o Sport com o destaque da partida sendo o arqueiro Manuelzinho do Leão. Manuelzinho que executa meia dúzia de milagres.

Na equipe do América, Natal ocupou a vaga de Deusdedith no segundo jogo. O meio campo com Pedrinho, Capuco e Rubens jogou o fino. Mas era no ataque, com Elihimas ou Zezinho, Julinho, Djalma, Edgar e Oséas, que residia a força capaz de desequilibrar os jogos mais difíceis.

Como o 3 a 1 em cima do Náutico de Tará e Orlando Pingo de Ouro no dia 7 de maio de 1944. O América marcando 1 a 0 no primeiro tempo com Oséas, cabendo a Djalma ampliar aos 4 minutos da segunda fase. Quando Oséas decretou 3 a 0 aos 25 minutos, a torcida alvirrubra tomou o caminho de casa. Poucos viram Tará diminuir o escore no minuto final da peleja.

Mais três vitórias irrepreensíveis sobre Flamengo, Great Western e Portela e o América faturava o primeiro turno com ares de favorito ao título. Dois triunfos espetaculares na volta para o segundo turno: 4 a 1 sobre o Santa Cruz de Guaberinha e 3 a 1 no Sport de Pitota e parecida que a taça já tinha dono.

Foi quando veio o primeiro revés. Djalma deixou três vezes a bola no barbante do arqueiro alvirrubro Max. Entretanto, Orlando e Petrônio estavam impossíveis. No mais eletrizante jogo do campeonato, o Náutico bate o América por 5 x 4 nos Aflitos. Náutico que leva pra casa o segundo e o terceiro turno – vencendo no último dia de 1944, em pleno Réveillon, o América novamente por 2 a 0.

Rubem Moreira não dormiu durante o mês de janeiro de 1945. O regulamento apontava uma partida extra entre Náutico e América. O Diário da Noite, do Rio de Janeiro, anunciava o interesse do Fluminense por Orlando. Orlando que exigia 60 mil cruzeiros de luvas – uma pequena fortuna na época. O Fluminense desejava acabar com a alegria do Flamengo de Valido. O Náutico bota as mãos na cabeça. Sem Orlando, as coisas podiam se complicar. Neste clima, o primeiro Clássico da Amizade decisivo termina empatado em 1 a 1.

Djalma abriu o marcador aos 35 minutos do primeiro tempo. O América se fechou nas mãos de Leça. Edvaldo teve a chance de empatar em uma penalidade máxima. Mas a bola passou por cima do travessão. O Náutico insiste – Orlando iguala tudo aos trinta minutos da etapa final. A pressão aumenta. No instante final, Tará desvia de cabeça, o couro vence Leça, vai entrando, quando Lucas salva em cima da linha.
Outro jogo é marcado para a semana seguinte. E no dia 4 de fevereiro de 1945, a sorte muda de lado, enquanto o General Fulgêncio Batista, antigo ditador cubano, bate papo no Aeroporto dos Guararapes com Etelvino Lins.

O ponteiro Plínio, antigo craque da seleção pernambucana, abre o marcador para os alvirrubros aos 42 do primeiro tempo. No meio-campo, Saleitão substituía Rubens. O artilheiro do campeonato, Djalma, atua na direita no lugar de Zezinho com Valdeque no comando do ataque americano. E foi justamente Valdeque quem cavou um pênalti, dividindo a bola com Mário Ramos. Edgar bate e estufa as redes de Max.

É quando aparece o talento do craque que desequilibrou o certame. Julinho invade a área e vira o jogo: 2 a 1. A torcida nem tem tempo de comemorar. Tará empata novamente: 2 a 2. Novo empate? Não pra quem tem Dr. Julinho no time. Aos 40 minutos finais, Julinho deixa Célio Araraquara na saudade: América 3 a 2. 

O campeonato começa a mudar de endereço. Tem jornal que erra a manchete, informando que caiu o último invicto do torneio, esquecido que o Náutico não era mais invicto há muito tempo. Desde o primeiro turno.

América e Náutico seguem para a melhor-de-três. O Náutico perdera a vantagem inicial. O América segue embalado com promessa de um bicho milionário: mil cruzeiros pra cada jogador pelo título.

Jogo noturno nos Aflitos. 9 de fevereiro. Árbitro Belgrano dos Santos, carioca. Pela primeira vez um estadual é decidido com juiz de fora do estado. Djalma machucado – Valdeque segue resolvendo as partidas. Aos 32 minutos aproveita bobeada Timbu e abre o placar. Após o intervalo, Julinho encontra Oséas livre: 2 a 0. A cidade não acredita no que seus olhos testemunham.

No Distrito Federal, João Cabral de Melo Neto faz até promessa. Orlando está fora dos jogos finais. Djalma, artilheiro do estadual, também. Os irmãos Tará e Isaac se perdem na marcação de Lucas e Deusdedith. Oséas, Zezinho e Valdeque fazem a festa no dia 18 de fevereiro de 1945. Ilha do Retiro.

O dia em que Rubem Moreira se tornou o homem mais feliz deste mundo. 



Um comentário:

  1. FANTÁTICO!!!!

    Lendo este texto com toda esta riiqueza de detalhes me senti nas arquibancadas dos anos 40!!!

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Comentários