Trigésimo
aniversário do América. O dirigente Rubem Moreira olhou para os
setenta e dois mil cruzeiros a sua frente. Há dezessete anos, o
América não sabia o que era um título estadual. Rubem estava
tenso. Ao seu lado estavam os irmãos Abreu e Lima, Benjamin
Gonçalves, Augusto Gomes, João e José Moreira, Jaime Loio e Manoel
Costa.
“Cadê
Capuco, c...?”
O
pivô Capuco estava em Pirapora, Minas Gerais.
Desprezado
pela Juventus de São Paulo, Capuco recebera dinheiro do América com
ordens de retornar da capital paulista. Em vez de comprar a passagem,
ele mandara toda a quantia para a esposa em Recife. Sem um tostão no
bolso, Capuco dormia nas ruas de Pirapora pedindo mais grana ao
América.
Nelsinho,
ponta-direita do América-RJ havia sido oferecido. O arqueiro Gerin,
revelação do norte do país também. Gerin viria para a tarefa
inglória de ser reserva do mítico Leça, mas o América se encantou
mesmo foi com Djalma, atacante do Dolaporte paraibano.
“Mandem
buscar o Capuco, p...!”
Capuco
era craque e tinha uma legião de fãs em Recife. Do miolo mole dele
os irmãos Moreira saberiam cuidar. Quem seria o técnico?
“Sherlock,
a gente está disposto a te pagar cinco mil de luvas e mil cruzeiros
por mês!”
Mas
Sherlock, apelido do antigo jogador do Santa Cruz, Argemiro Félix de
Sena, preferia ser juiz de futebol. E indicou Álvaro Barbosa,
técnico pouco conhecido, para dar o título que o América tanto
sonhava. Cinco anos antes, Barbosa havia brilhado na zaga americana
e o seu nome, identificado com as cores esmeraldinas serviram de
passaporte para a aprovação de Rubem Moreira.
Deusdedith
chegou pra compor a zaga impecável com Lucas; Leça era Leça - e
quem tinha Julinho na equipe sempre podia almejar ao título. Porém,
o Santa Cruz despacha o América na largada do Torneio Início, gols
de Tico-Tico e Renato para os tricolores, Djalma descontando de
pênalti para os esmeraldinos. O Náutico seria o campeão do Torneio
Início, disposto a retomar o comando do futebol pernambucano.
Rubem
Moreira ficou preocupado. Por pouco tempo. Pra quem acompanhava
futebol com olhos de precisão, as primeiras partidas do certame
deixaram boa impressão do América. O campeão do Centenário empata
em 2 a 2 com o Santa Cruz. Uma semana depois, outro empate, desta vez
em 1 a 1 com o Sport com o destaque da partida sendo o arqueiro
Manuelzinho do Leão. Manuelzinho que executa meia dúzia de
milagres.
Na
equipe do América, Natal ocupou a vaga de Deusdedith no segundo
jogo. O meio campo com Pedrinho, Capuco e Rubens jogou o fino. Mas
era no ataque, com Elihimas ou Zezinho, Julinho, Djalma, Edgar e
Oséas, que residia a força capaz de desequilibrar os jogos mais
difíceis.
Como
o 3 a 1 em cima do Náutico de Tará e Orlando Pingo de Ouro no dia 7
de maio de 1944. O América marcando 1 a 0 no primeiro tempo com
Oséas, cabendo a Djalma ampliar aos 4 minutos da segunda fase.
Quando Oséas decretou 3 a 0 aos 25 minutos, a torcida alvirrubra
tomou o caminho de casa. Poucos viram Tará diminuir o escore no
minuto final da peleja.
Mais
três vitórias irrepreensíveis sobre Flamengo, Great Western e
Portela e o América faturava o primeiro turno com ares de favorito
ao título. Dois triunfos espetaculares na volta para o segundo
turno: 4 a 1 sobre o Santa Cruz de Guaberinha e 3 a 1 no Sport de
Pitota e parecida que a taça já tinha dono.
Foi
quando veio o primeiro revés. Djalma deixou três vezes a bola no
barbante do arqueiro alvirrubro Max. Entretanto, Orlando e Petrônio
estavam impossíveis. No mais eletrizante jogo do campeonato, o
Náutico bate o América por 5 x 4 nos Aflitos. Náutico que leva pra
casa o segundo e o terceiro turno – vencendo no último dia de
1944, em pleno Réveillon, o América novamente por 2 a 0.
Rubem
Moreira não dormiu durante o mês de janeiro de 1945. O regulamento
apontava uma partida extra entre Náutico e América. O Diário da
Noite, do Rio de Janeiro, anunciava o interesse do Fluminense por
Orlando. Orlando que exigia 60 mil cruzeiros de luvas – uma pequena
fortuna na época. O Fluminense desejava acabar com a alegria do
Flamengo de Valido. O Náutico bota as mãos na cabeça. Sem Orlando,
as coisas podiam se complicar. Neste clima, o primeiro Clássico da
Amizade decisivo termina empatado em 1 a 1.
Djalma
abriu o marcador aos 35 minutos do primeiro tempo. O América se
fechou nas mãos de Leça. Edvaldo teve a chance de empatar em uma
penalidade máxima. Mas a bola passou por cima do travessão. O
Náutico insiste – Orlando iguala tudo aos trinta minutos da etapa
final. A pressão aumenta. No instante final, Tará desvia de cabeça,
o couro vence Leça, vai entrando, quando Lucas salva em cima da
linha.
Outro
jogo é marcado para a semana seguinte. E no dia 4 de fevereiro de
1945, a sorte muda de lado, enquanto o General Fulgêncio Batista,
antigo ditador cubano, bate papo no Aeroporto dos Guararapes com
Etelvino Lins.
O
ponteiro Plínio, antigo craque da seleção pernambucana, abre o
marcador para os alvirrubros aos 42 do primeiro tempo. No meio-campo,
Saleitão substituía Rubens. O artilheiro do campeonato, Djalma,
atua na direita no lugar de Zezinho com Valdeque no comando do ataque
americano. E foi justamente Valdeque quem cavou um pênalti,
dividindo a bola com Mário Ramos. Edgar bate e estufa as redes de
Max.
É
quando aparece o talento do craque que desequilibrou o certame.
Julinho invade a área e vira o jogo: 2 a 1. A torcida nem tem tempo
de comemorar. Tará empata novamente: 2 a 2. Novo empate? Não pra
quem tem Dr. Julinho no time. Aos 40 minutos finais, Julinho deixa
Célio Araraquara na saudade: América 3 a 2.
O campeonato começa a
mudar de endereço. Tem jornal que erra a manchete, informando que
caiu o último invicto do torneio, esquecido que o Náutico não era
mais invicto há muito tempo. Desde o primeiro turno.
América
e Náutico seguem para a melhor-de-três. O Náutico perdera a
vantagem inicial. O América segue embalado com promessa de um bicho
milionário: mil cruzeiros pra cada jogador pelo título.
Jogo
noturno nos Aflitos. 9 de fevereiro. Árbitro Belgrano dos Santos,
carioca. Pela primeira vez um estadual é decidido com juiz de fora
do estado. Djalma machucado – Valdeque segue resolvendo as
partidas. Aos 32 minutos aproveita bobeada Timbu e abre o placar.
Após o intervalo, Julinho encontra Oséas livre: 2 a 0. A cidade não
acredita no que seus olhos testemunham.
No
Distrito Federal, João Cabral de Melo Neto faz até promessa.
Orlando está fora dos jogos finais. Djalma, artilheiro do estadual,
também. Os irmãos Tará e Isaac se perdem na marcação de Lucas e
Deusdedith. Oséas, Zezinho e Valdeque fazem a festa no dia 18 de
fevereiro de 1945. Ilha do Retiro.
O
dia em que Rubem Moreira se tornou o homem mais feliz deste mundo.

FANTÁTICO!!!!
ResponderExcluirLendo este texto com toda esta riiqueza de detalhes me senti nas arquibancadas dos anos 40!!!