27 de out. de 2012






Por ROBERTO VIEIRA


"O verdadeiro mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, é a indiferença da alma."

Andre Maurois


Acordou em festa. Como se tivesse vinte e poucos anos novamente. Tomou banho, barbeou-se com esmero, perfumado com o mesmo aroma dos tempos de juventude. O café foi rápido, pois o dia deveria ser bem rápido: importante era a noite.

Ela concordara em jantar com ele. Surpreso diante da reação da mulher tão ansiosamente desejada, ele mal pôde balbuciar o nome do restaurante. Era um daqueles caros e reservados lugares que a idade e o poder conseguem comprar sem grandes sobressaltos. Imaginou a cara do maitre e dos garçons ao entrar no ambiente requintado com aquela deusa, tantos anos mais jovem que ele, dona de um par de pernas e olhos arrebatadores.

Seria a volta ao passado.

De repente, não sentia as dores no peito, o peso do calendário nas pernas, os cabelos brancos pintados sofregamente a cada mês. Ela dissera sim e isso bastava para lhe devolver a alegria de estar vivo. Tampouco a voz da razão que lhe buzinava nas noites de insonia eram suficientes pra tirar seu bom humor. Ela disseram sim, e os meses de ginástica e corridas justificam o sacrifício.

Comprou um pequeno cordão na joalheria, lembrança da noite encantadora que teria com a moça. Escolheu uma camisa nova, mais moderna e de acordo com sua nova paixão. Nada que destoasse do seu olhar cinquentenário, apenas o suficiente pra estar elegante sem parecer ultrapassado.

O dia foi o mais longo da sua vida. A tarde, infinita. Dispensou o último cliente com a alegria de quem marca um gol numa final de Copa do Mundo. Profissionalismo antes de tudo, mas que deu vontade de expulsar o sujeito perguntador, isso deu.

Casa, congestionamento, elevador, vizinho chato, banho demorado, meias, cuecas, calça, camisa, um drinque pra relaxar a ansiedade que o fazia tremer as mãos de tão nervoso. A cidade lá embaixo nem desconfiava mas ele era o homem mais feliz do mundo: estava apaixonado.

De repente, uma mensagem eletrônica. Pensa em não atender, entretanto é melhor resolver todos os penduricalhos para poder se dedicar ao encontro idílico daqui a pouco.

A mensagem é dela.

O que será?

'Caro, Augusto, meu namorado veio passar este feriado em Recife e eu gostaria muito que você o conhecesse. Ele sonha em ser arquiteto como você. A noite vai ficar mais divertida e eu imagino que vocês vão ter milhões de coisas pra conversar...'

Pensou em desmarcar. Não. O destino estava mandando um recado. Era chegada a hora de recolher o velho coração. Decidiu continuar com o encontro. Sairia completamente curado de novos devaneios.

E assim foi.

O rapaz era muito simpático. Formavam um belo casal, cheio de planos e ambições. O amor estava nos semblantes, nos gestos, nos sorrisos, nos segredos. Não havia por que se zangar. Era apenas normal que o tempo tivesse suas regras, seus maneirismos, suas confissões.

Voltou só para o apartamento.

Colocou outra dose de uísque e um disco dos Beatles.

'All the lonely people...'

Enxergou na luz distante dos prédios que a vida continuava. Dez, vinte, trinta anos pela frente. Milhares de coisas por fazer, netos para aconselhar, ex-esposas para rirem da sua peregrinação pelos sonhos e corações despedaçados. Velho que não se enxerga!

A vida era longa e ele tinha saúde suficiente ainda para brindar a isso. Sabia aceitar uma derrota justa e simples como aquela. Mas seus lábios misturados com o uísque e uma lágrima descendo indomável no canto do rosto, não puderam deixar de murmurar na madrugada do hemisfério sul:

'Boa noite, Tristeza...'


0 comentários:

Postar um comentário

Comentários