Por ROBERTO VIEIRA
"O
verdadeiro mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, é a
indiferença da alma."
Andre Maurois
Acordou em festa. Como se tivesse vinte e poucos anos novamente.
Tomou banho, barbeou-se com esmero, perfumado com o mesmo aroma dos
tempos de juventude. O café foi rápido, pois o dia deveria ser bem
rápido: importante era a noite.
Ela concordara em jantar com ele. Surpreso diante da reação da
mulher tão ansiosamente desejada, ele mal pôde balbuciar o nome do
restaurante. Era um daqueles caros e reservados lugares que a idade e
o poder conseguem comprar sem grandes sobressaltos. Imaginou a cara
do maitre e dos garçons ao entrar no ambiente requintado com
aquela deusa, tantos anos mais jovem que ele, dona de um par de
pernas e olhos arrebatadores.
Seria a volta ao passado.
De repente, não sentia as dores no peito, o peso do calendário nas
pernas, os cabelos brancos pintados sofregamente a cada mês. Ela
dissera sim e isso bastava para lhe devolver a alegria de estar vivo.
Tampouco a voz da razão que lhe buzinava nas noites de insonia eram
suficientes pra tirar seu bom humor. Ela disseram sim, e os meses de
ginástica e corridas justificam o sacrifício.
Comprou um pequeno cordão na joalheria, lembrança da noite
encantadora que teria com a moça. Escolheu uma camisa nova, mais
moderna e de acordo com sua nova paixão. Nada que destoasse do seu
olhar cinquentenário, apenas o suficiente pra estar elegante sem
parecer ultrapassado.
O dia foi o mais longo da sua vida. A tarde, infinita. Dispensou o
último cliente com a alegria de quem marca um gol numa final de Copa
do Mundo. Profissionalismo antes de tudo, mas que deu vontade de
expulsar o sujeito perguntador, isso deu.
Casa, congestionamento, elevador, vizinho chato, banho demorado,
meias, cuecas, calça, camisa, um drinque pra relaxar a ansiedade que
o fazia tremer as mãos de tão nervoso. A cidade lá embaixo nem
desconfiava mas ele era o homem mais feliz do mundo: estava
apaixonado.
De repente, uma mensagem eletrônica. Pensa em não atender,
entretanto é melhor resolver todos os penduricalhos para poder se
dedicar ao encontro idílico daqui a pouco.
A mensagem é dela.
O que será?
'Caro, Augusto, meu namorado veio passar este feriado em Recife e eu
gostaria muito que você o conhecesse. Ele sonha em ser arquiteto
como você. A noite vai ficar mais divertida e eu imagino que vocês
vão ter milhões de coisas pra conversar...'
Pensou em desmarcar. Não. O destino estava mandando um recado. Era
chegada a hora de recolher o velho coração. Decidiu continuar com o
encontro. Sairia completamente curado de novos devaneios.
E assim foi.
O rapaz era muito simpático. Formavam um belo casal, cheio de planos
e ambições. O amor estava nos semblantes, nos gestos, nos sorrisos,
nos segredos. Não havia por que se zangar. Era apenas normal que o
tempo tivesse suas regras, seus maneirismos, suas confissões.
Voltou só para o apartamento.
Colocou outra dose de uísque e um disco dos Beatles.
'All the lonely people...'
Enxergou na luz distante dos prédios que a vida continuava. Dez,
vinte, trinta anos pela frente. Milhares de coisas por fazer, netos
para aconselhar, ex-esposas para rirem da sua peregrinação pelos
sonhos e corações despedaçados. Velho que não se enxerga!
A vida era longa e ele tinha saúde suficiente ainda para brindar a
isso. Sabia aceitar uma derrota justa e simples como aquela. Mas seus
lábios misturados com o uísque e uma lágrima descendo indomável
no canto do rosto, não puderam deixar de murmurar na madrugada do
hemisfério sul:
'Boa noite, Tristeza...'

0 comentários:
Postar um comentário
Comentários