5 de set. de 2012




Por ROBERTO VIEIRA   



3 de novembro de 1965. 

Enquanto os Beatles gravam ‘Michelle’ que seria lançada no revolucionário álbum Rubber Soul, o Clube Náutico iniciava uma revolução do outro lado do Atlântico.

O bicampeão pernambucano recebeu nos Aflitos o Vasco da Gama pelas quartas de final da Taça do Brasil. A saga alvirrubra ocuparia as manchetes esportivas do país durante quatro anos e não tem paralelo na história do futebol brasileiro. Embora o Bahia tenha sido campeão da Taça Brasil em 1959, nenhum outro clube conseguiu rivalizar com o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia e o Cruzeiro de Tostão. O mapa do melhor futebol do mundo agora incluía também Recife.

Os Beatles e Liverpool. O Náutico e Recife. Os 4 de Liverpool partindo para conquistar o mundo a partir daquela cidade portuária no norte da Inglaterra. O ataque das 4 letras arrancando aplausos por onde se apresentava.

Na noite do dia 3 o Náutico recebe o Vasco para a segunda partida entre os dois naquele ano. A primeira havia terminado com um empate em 1x1 meses antes nos Aflitos. Para esta segunda peleja o Vasco escala a zaga que seria tricampeã do mundo em 1970: Brito e Fontana. Fontana ficaria na reserva de Piazza, mais técnico. Porque Fontana era um excelente zagueiro, mas batia demais. Na lateral esquerda Oldair,  um canhão nos pés. Dele seria o gol do Atlético-MG nas finais do brasileiro de 1971 contra o São Paulo, de falta.

O Náutico formou com Lula; Gena, Mauro, Gilson Saraiva e Clóvis; Didica e Ivan; Nado, Bita, Nino e Lala. Alguns registram Joélcio como goleiro, mas na verdade quem atuou foi Lula. Joélcio jogaria dias depois no Maracanã.

O Vasco escala Gainete; Ary, Brito, Fontana e Odair; Maranhão e Lorico; Luizinho, Mario, Célio e Zizinho.

O público de 12.791 torcedores assiste ao Vasco partindo para cima do Náutico e Mario sendo desarmado duas vezes por Gilson quando ia fazer o gol. Mas o Náutico surpreende quem conhecia apenas o velho futebol nordestino. Toca a bola, não dá chutão e parte pra cima da zaga vascaína. O ataque das 4 letras troca de posição e Nado desmoraliza Oldair com seguidos dribles. O sarrafo começa a correr solto sob o olhar benevolente do juiz Armando Marques. Fontana manda Oldair 'meter pau nele!'. O 'ele' era Nado.

A defesa do Náutico pega Célio e quase manda o atacante carioca nas sociais. Vento que sopra ali sopra aqui. Todo mundo sossega e quando o time cruzmaltino imagina a situação sob controle o Brasil descobre que o Náutico está jogando armado. Bita vem de trás conduzindo a bola e na entrada da área aponta o rifle e manda um tiro no ângulo de Gainete: 1x0.

Ary pega Lala. Falta. Lala ajeita a bola no e bate: 2x0!

Mas aqueles ainda eram tempos de Cavern Club. O Náutico era muito jovem e a experiência do adversário igualou o marcador em duas faltas com Célio e Oldair: 2x2.

O segundo jogo é realizado no Maracanã no dia 10 de novembro. Antes da partida o elenco alvirrubro visita o gramado. Bita aponta a barra onde assinalou um gol nos tempos de juvenil.

Técnicos do Rio e São Paulo decidem assistir a partida. Se recusam a acreditar naquele time do norte. Um time de jogadores desconhecidos com habilidade suficiente para inverter o mapa do Brasil.

O segundo jogo é duro, técnico,com chances para os dois lados. Quis o destino que no final da partida aos 39' uma bola desviasse em Mauro e enganasse o arqueiro Joélcio: 0x1.

O Náutico que atuara o segundo tempo inteiro com Lala machucado é castigado nas suas pretensões. Entretanto no apagar das luzes uma surpresa aguarda a equipe.

O Maracanã aplaude os meninos do Recife. Aplaude a beleza da partida. Aplaude o time sem medo. Aplaude a tristeza daquele bando de garotos que jogavam uma barbaridade.

O Náutico na amargura daquela derrota subverte pela primeira vez a lógica do futebol brasileiro. Os jogadores não imaginam que sua história está apenas começando. Eles ainda decidirão um título brasileiro naquele palco.

Ademir Menezes, pernambucano artilheiro da Copa de 50 vaticina que o elenco alvirrubro será todo vendido para clubes do Sul.

Mas o tempo o contradiz. O Náutico mantém seu elenco.

Porque o Náutico esteve perto demais da glória no campo de batalha. Perto demais para voltar no tempo. Perto demais para um grupo de guerreiros que desconhecia o significado da palavra derrota.

O Brasil estava apenas começando a conhecer o vermelho e branco!

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