Por BRUNO LOPES TOMAZ

Embora os deuses e o espírito olímpico nos tenham abandonado há muito, de vez em quando recebemos deles recados.
Em Londres, o atleta Dong-Hyun Im quebrou o seu próprio recorde mundial na competição de arco e flecha. Isso significa acertar, a uma distância de 70 metros, um alvo com cerca de 12 centímetros. O coreano o fez 50 vezes.
Com apenas 10% de visão em um olho e 20% em outro, Dong-Hyun Im é legalmente cego. Um bi-campeão olímpico praticamente cego. Como é possível?
O arco e flecha é um desses lugares onde a ditadura da visão é suspensa. Através do arco e flecha, saímos de nossos olhos e passamos a habitar nosso corpo.
O arco e flecha nos desperta de nosso mundinho particular para aquele mundo grande, maior que o coração, onde todos são comuns.
O arco e flecha ensina que a visão não se restringe aos olhos e que as possibilidades escondidas no corpo são maiores, muito muito maiores do que esperamos. Mente, respiração e postura agem. são um e não três.
O arco e flecha ensina que não existe diferença entre acertar o alvo e as atividades do dia a dia. Ele restaura as atividades empobrecidas pela pressa do dia a dia. Há poesia no arco e flecha. Rilke já sabia disso, ao dizer ao jovem poeta que ele não deve acusar a vida cotidiana de pobreza, mas a si mesmo. Para o criador, não há pobreza, lugar mesquinho ou indiferenças.
O arco e flecha ensina que o alvo não é um alvo, mas um espelho. Acertar o alvo é só uma pequena realização. Descobrir a si mesmo é a grande realização. Cada tiro é uma aventura e descoberta de si. Os alvos somos nós.
Quando perguntado sobre sua cegueira, Dong-Hyun Im manifesta desconforto e rapidamente desvia o assunto.
Afinal, como explicar que ele não vê com os olhos, mas com o corpo inteiro?
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