Nesta terça dia 5, aniversário de nascimento de Lorca, 104 anos (5 de junho de 1898).
O comovente poema do mestre Vinícius vale por uma homenagem de quem muito o admira. Muitos não conhecem o poemas e outros não sabem como morreu o poeta andaluz.
Um abraço do
Lucídio.
A morte de madrugada - Vinícius de Moraes
Muerto cayó Federico.
Antonio Machado
Uma certa madrugada / Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado / Ou se tinha a morte n'alma
Não sei também se o caminho / Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me / A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira / Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue / E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela / Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
... Un horizonte de perros / Ladra muy lejos del río...
De repente reconheço: Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha / Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência / Não sei... não sabia nada...
Só sei da nuvem de pó / Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha / Que em meu sentido avançava.
Como uma mancha de sangue / Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria / Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas / Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia / Que de mim transverberava.
Era um grupo de soldados / Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro / E impiedade na cara
Entre eles andava um moço / De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento / Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro / O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço / De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo / Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão / Se dispunha horizontal.
Súbito um raio de sol / Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos / Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico / O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca / Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca! / Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura / Sobre a expressão estampada...
Mas que me via, me via / Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada. / Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado / Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada. / Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma / A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me. / Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado / E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne. / Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde / Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava / Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável / Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado. / Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria / Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras. / Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada / La tierra del inocente
No la tierra del culpable. / Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada / Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava / Como a segredar-me:
- A morte é simples, de madrugada...

"Spanish songs in Andalucia
ResponderExcluirThe shooting sites in the days of '39
Oh, please, leave the ventana open
Federico Lorca is dead and gone...."