Quem é torcedor, apaixonado, já viveu algo semelhante...
Por Marcelo Torres**
Pense aí num Ba-Vi numa quarta-feira! Pense num horariozinho sacana - 21h45 - coisass da todo-poderosa Rede Globo. Adicione uma viagem de 460 km [ida e volta] para assistir ao jogo. Esses ingredientes tinham tudo a ver com um campeonatozinho chamado Copa João Havelange, aquele torneiozinho ridículo que no ano 2.000 fez com que times rebaixados retornassem à elite do futebol nacional na base do cambalacho.
Torcedor que [não] se preza é que nem mulher de malandro - ainda consegue amar e acompanhar quem lhe faz sofrer. Mesmo sendo o futebol esse submundo de trapaças, esse campo de malandragem, nós não o abandonamos, ainda que estejamos carecas de saber das pilantragens - nós torcedores somos uma racinha que não tem vergonha na cara, a verdade é essa...
Na época eu morava em Salvador. Meu irmão Arízio [que me fez torcer pelo Vitória desde os cinco anos de idade], naquele dia veio da pequena cidade de Sátiro Dias [a 230 km de Salvador] junto com outros 13 amigos, que se juntaram a outros seis que moravam na capital [eu, inclusive]. Metade era Bahia, vestido naquela camisa encardida, e metade era Vitória, vestida com o nosso manto sagrado.
E o encontro foi nos restaurantes do Dique do Tororó, que ficam perto da parte vazada da Fonte Nova.
Depois de tomarmos uns gorós e de brincarmos uns com os outros, chegou a hora de entrarmos no estádio. Éramos uma renca de tabaréus [um monte de capiaus, em baianês], tínhamos que ficar bem juntinho uns dos outros, para não nos perdermos uns dos outros - até porque, depois do jogo, o pessoal do interior tinha que pegar a estrada de volta, madrugada adentro.
E logo veio a dúvida: já que metade era Bahia e metade era Vitória, para que lado iríamos todos juntos? Claro: para a torcida mista, essa instituição que só existe na Bahia [você sabia disso, leitor?]. Só que estávamos no Dique e do Dique para lá tínhamos que dar uma boa paletada [caminhada, no linguajar baiano], teríamos que fazer uma volta muito grande em torno do estádio e iria demorar, poderíamos nos dispersar, talvez não chegássemos a tempo e coisa e tal.
Foi aí que surgiu a indefectível figura de "Ontõe Raimundo", o Mundinho, um conterrâneo que morava na "capitá" havia apenas seis meses, vindo da zona rural do nosso município. Todo metido a besta, ele era um tricolor que não queria perder nem par-ou-ímpar para nós, embora vivêssemos em convivência pacífica. Ele se achando "o anfitrião" e cicerone, foi logo se exibindo, dizendo que conhecia tudo em Salvador, "como a palma da mão". Sabido que só ele, foi logo propondo:
- Vamos atravessar por ali pelo alambrado até chegar lá [na torcida mista] - e apontou para uma travessia imaginária que passaria - pasme - pela frente das enfurecidas torcidas "Bamor" e dos "tricoloucos" (as ditas "torcidas organizadas" do Bahia, violentas que só elas).
Pense aí numa loucura! É como se um grupo de dez corintianos resolvessem passar pela frente de milhares de palmeirenses [guardando-se as proporções baiana e paulista].
- Você tá doido? - eu retruquei, já de cabelo em pé, em calafrios. - Dali nós não sairemos vivos!
- Que nada, eu conheço tudo ali! - ele falou de novo, sempre dando uma de porreta, como se fosse o chefe da torcida organizada deles. - Não vai acontecer nada, naquele corredor do alambrado ninguém vai mexer com ninguém.
Veja só que coisa! Como ele poderia garantir que ninguém mexeria com ninguém? Que varinha de condão ele tinha para garantir aquilo?
Bom, por uns dez, vinte minutos ficamos no impasse - vamos ou não vamos? Pondera daqui, pondera dali, até que a maioria [que não sabia dos perigos pela frente] preferiu seguir o conselho do fila-da-mãe do Ontõe Raimundo. E eu, que não ia à Fonte Nova havia muito tempo, e para não parecer um radical, resolvi ceder e seguir a manada. E lá fomos nós, aquela cambada, entrando quase em fila, em comboio, quase um trenzinho misto, pois dessa forma uns protegiam os outros.
De repente, vaias, gritos, urros... e latas de cerveja, e copos plásticos cheios de mijo, e rolos de cana na nossa cabeça... E empurrões, tapas, solavancos .. Claro, se naquele nosso trenzinho havia umas camisas do Vitória, eles queriam nos matar. Apressamos o passo, como em "marcha soldado". Uma parte do estádio gritava "Pega!, Pega! Mata!" A outra parte vibrava "êêêê-êêê".
Aquele minutinho parecia uma vida inteira, uma eternidade. Fomos passando, passando, levando cascudos, tapas, safanões, chega-pra-lá, chutes, pontapés... Até que - ufa! - completamos a travessia, agora sob a proteção de escudos policiais, que vieram nos socorrer.
Foi aí que olhei para trás e vi que meu irmão Arízio vinha chegando se arrastando, coitado. A camisa rubro-negra em frangalhos, os cabelos pareciam galhos de macambira [e ainda molhados de mijo], a cara toda amassada, os cotovelos e joelhos sangrando... e incrivelmente com o radinho de pilha [aquele radinho tipo "consola corno"] colado no ouvido com a mão direita.
Ele não largava o velho radinho por nada nesse mundo. "Foi meu avô que me deu, é tudo pra mim", ele não se cansava de repetir. Já devidamente protegidos e cercados pelo aparato policial, olhei pro mano e perguntei se tava tudo bem.
- Tá tudo bem! O que a gente não faz pelo nosso Vitória - ele falou, com a voz carregada pela esperança de uma vitória rubro-negra. - Só tava preocupado era com o radinho - emendou candidamente.
Eu pensei: "Com um irmão desse, e com um amor incondicional desse tamanho, quem não torceria pelo querido Vitória?" E foi com esse velho mano, e por ele, que eu aprendi a amar essa cachaça chamada Vitória, esse amor eterno.
E aí ficamos na torcida mista, rubro-negros e tricolores, uns ao lados dos outros, civilizadamente, como nos velhos tempos de Fonte Nova. Em dado momento, faltou energia elétrica no estádio; uns 20 minutos no escuro. Isso significava atraso para o fim do jogo, isso significava que eles teriam atraso também para voltar para casa, 230 km até a cidadezinha de origem. O jogo recomeçou e aí veio o pior: ainda no primeiro tempo, eles (Bahia) fizeram 1 a 0, gol de Iranildo, de falta. Depois, já no segundo tempo, Bebeto teve a chance de empatar, ficou cara a cara com o goleiro e perdeu o gol. E o jogo ficou naquele banho-maria, sem muitas emoções, até terminar.
Eles vibraram como se ganhassem uma Copa do Mundo. E nós ficamos com cara de tacho. O mano Arízio, mesmo com quarenta anos de vida, de histórias e de Vitória, chorou sem pudor no meu ombro, como se fosse um leãozinho desprotegido, como se ainda fosse uma criança.
- É uma porra - ele falou - a gente sai de tão longe, perde noite, gasta dinheiro, toma murro, leva mijo na cara... e o time ainda perde!
- É isso mesmo, mano - eu falei, quase chorando também, mas tentando consolá-lo. - Mas um dia a gente chega lá...
Depois, eles seguiram de volta e eu fui para casa. A vida seguiu seu curso natural. E apesar de ainda estar esperando o dia em que vamos "chegar lá", independente dos tropeços da vida esportiva, o que ficou registrado para sempre na minha memória foi aquela prova de amor infinito e incondicional.
Foi um irmão como esse e fatos como esses que me fizeram amar de forma única e singular o nosso querido Esporte Clube Vitória .
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