6 de jan. de 2009






O relato abaixo é do Milton Neto.

Apaixonado pelo Náutico.


E antigo colega de peladas e natação.

Como vocês poderão ler...

Ele também sofreu na base.








Quando chega o final de ano, há uma tendência natural, de se olhar para trás. Ver o que foi feito. O que não foi. O que pode ser feito no futuro. Etc, etc.

Pois fui mais além. Lembrei-me de coisas feitas no passado bem mais distante.

Lembrei que tentei ser jogador do timbu. Final dos anos 70. A base alvirrubra era garimpada nos Aflitos. Sob um sol escaldante (perto das 13h), o técnico Jonas reunia garotos no gramado e distribuía em 2 times. Primeiro separava por posição (escolhida pelo próprio infante). E, aos poucos, ia colocando para jogar, com a orientação de jogar com descontração. Sem qualquer obrigação.

Eu morava perto do Eládio de Barros Carvalho. Na rua do Futuro. Peguei minhas chuteiras pretas (só existiam nesta cor antigamente). Coloquei debaixo do braço e me encaminhei, esperançoso, para os Aflitos. Lá chegando, vesti uma camisa cinza, com as iniciais CNC em vermelho e um número que não me recordo. Era pequeno e ficava ao lado da sigla citada.

Vi os garotos jogarem. O placar ser desenhado. Até que, finalmente, o professor me chamou. "Ponta esquerda", disse, levantando o dedo. Entrei no lugar de um deles. Corri. Corri. Mas a bola só chegou duas vezes na minha direção. E não consegui tocar nela.

Fim de treino. Meninos reunidos. E o "vestibular da bola" começava. "Você". "Você" "Você" ia apontando o treinador para uns 6 a 7 guris. "O resto pode ir embora". Eu estava no "resto". E me senti muito mal. Nem toquei na bola. E não pude continuar o sonho de ser jogador do Náutico.

Tirei as chuteiras. Peguei minha sandália e devolvi a camisa cinza. Nem fui tomar banho no chuveiro dos vestiários (que ficava no lado oposto dos vestiários profissionais). Voltei para casa desolado. Sabia que não era nenhum Kaká ou Cristiano Ronaldo, mas tinha futebol para, pelo menos, ser parte do elenco de base timbu. Tinha velocidade, na época e colocava a bola onde queria. Só não tinha habilidade. Domínio de bola. Nunca tive, devo confessar.

Esqueci a frustração e fui para meu primeiro ano no Colégio Salesiano. Como era uma escola que privilegia muito os esportes, me inscrevi no futebol de campo e fui convencido pelo Diretor, a me inscrever, também, no Handebol. E, para minha surpresa, num teste de velocidade, na primeira aula de educação física, meu professor (Marcelo) me "convocou" para treinar atletismo.

Nada demais, para quem já tinha feito basquete (com Brasilino), futebol de salão (com Torres Galindo), remo (apenas 2 dias) e natação (com Barradas), no Náutico. E isto sem falar nas inúmeras peladas com a turma da natação, na quadra ao lado do complexo aquático. Na época, era uma quadra no mesmo nível da grade da piscina e a quadra tinha barras de ferro ao seu redor, que eram utilizadas como apoio na disputa de bola (pois não existiam laterais). A pelada contava com os "nadadores" Kleber, Sebastião, Rodolfo, Gil Vicente, Eduardo, Roberto "cunhado" e Roberto "Gordo". Este último deixou de ser gordo há muito tempo e hoje atende pelo seu nome: Dr. Roberto Vieira. E os jogos adentravam o horário do treino, para desespero do professor Barradas que sempre aparecia na grade da piscina convocando os "atletas".

Pois bem. Voltando ao Salesiano. O Handebol não teve andamento. O atletismo foi abandonado na primeira disputa na pista do Derby (quando nos 100 m, larguei na frente, mas escorreguei e todos me passaram). E o futebol de campo tem uma estória à parte. Para minha surpresa, o treinador era o Jonas. O mesmo do Náutico. O mesmo que havia me cortado.

Mas, neste time do colégio, ele me aproveitou. Comecei jogando de meia esquerda. O titular era fantástico. Jogava muito. Não me recordo no momento. Mas acho que era Robson. Aos poucos, Jonas foi me mudando de posição. E acabei como lateral esquerdo.

No ano seguinte, voltei para o peneirão no Náutico. O treinador não era mais o Jonas. Era outro (salvo engano, com o mesmo nome). "Lateral esquerdo" levantei o dedo. E fui para o jogo. Fui de frente. Num dos dois times que o professor colocou em campo.

Logo no primeiro lance, fui até a linha de fundo e cruzei na medida para um grandalhão meter a cabeça e abrir o placar. No decorrer do jogo, ainda arrisquei um chute ao gol. Mas não marquei. Fui substituído, depois de 15 ou 20 minutos em campo.

O treino continuava. Os jogadores profissionais iam chegando. Carlos Alberto Rocha, Toninho Vanusa, Mário. Fedato. Iam chegando e sentando, a beira do gramado. Eu ainda estava em campo, quando alguns deles apareceram. Foi um incentivo a mais, sem dúvida.

Contudo, mais uma vez, estava, ao final do treino, no temível "vestibular". "Você". "Você". E no terceiro "você" fui surpreendido com o dedo do treinador em minha direção. Quase não acreditei. Eu seria aproveitado. Poderia ser jogador da base do timbu! Que felicidade!

E eu ia para os treinos feliz da vida. Dava o sangue em campo. Esforçava-me ao máximo. Vestia com orgulho aquela camisa desbotada cinza, com as siglas CNC. Mal podia esperar para fazer um jogo de verdade. Vestir o MANTO. Um sonho...

Entretanto, esta frustração carrego até hoje. Quando meu pai descobriu que eu estava treinando no Náutico, em pleno ano de vestibular (para direito), fez valer sua autoridade de pai e mandou abandonar o futebol antes mesmo de ter iniciado. "Se quiser jogar bola, faça depois do vestibular".

E foi o que fiz (embora já soubesse que nunca mais iria voltar a base timbu). Pendurei as chuteiras, sem nunca te-las calçado de verdade. Mas ficou a satisfação de jogar no mesmo gramado onde meu ídolos haviam jogado (Bita, Nado, Lala, Jorge Mendonça), e iriam jogar (Mirandinha, Baiano, Robgol, Adriano, Kuki).

Fico imaginando a vontade de jogar com esta camisa, dos jogadores de base, como Helton, Anderson Lessa. Eu acho que é a mesma que eu tinha. E por isto, sou favorável que seja dada uma chance para eles. Como, de certa forma, eu tive a minha....

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