24 de dez. de 2008



[imagem]

Por ROBERTO VIEIRA

Londres, 24 de dezembro de 1931


Charles Miller está sentado perto da lareira. O frio do inverno inglês paralisa o tempo ao seu redor. A xicará de chá permanece sobre a mesa.

Charles está só.

Sua grande paixão, agora é uma paixão que ultrapassou fronteiras. Uma paixão que conquistou o seu país:

O Brasil. Aquele gigante de pés descalços.

Charles mal disfarça o riso, ante o espanto dos ingleses quando assistem outros povos jogando futebol.

Sobre a mesa, a revista Times americana traz em sua capa Adolf Hitler.

Algo soa estranho, com a imagem daquele alemão em uma edição na véspera de natal.

De repente, entra no aposento o amigo Vicenzo Marceletti. Um fanático por futebol. Amigo pessoal do genial Pozzo:

"Pensando no Brasil, Charles?"

Um pouco, Vicenzo, um pouco..."

"O futebol por lá já anda com as próprias pernas, Charles. O Fried é melhor que você!"

Silêncio.

"Claro que eles não são tão bons como os argentinos e uruguaios. Mas isso corre no sangue..."

"Será Vicenzo?"

"É óbvio. Andrade não nasce em árvores!"

"Antes de mim, houve um outro Fried, Vicenzo. Um Fried bem melhor que o original, diria eu."

Vicenzo olha para Charles. Ele respeita o amigo pela obstinação. Mas respeita, principalmente, porque Charles foi um craque. Um artilheiro no Brasil e na Inglaterra. Não era um simples inglês, dono da bola. Não.

Charles era um craque.

"E quem foi esse jogador brasileiro melhor que Charles Miller? Melhor que Fried? Posso saber?"

Enquanto a neve recobre o Parlamento, Charles Miller segura a xícara de chá à sua frente. Por um instante fecha os olhos.

O reich. O pai de Fried. O mundo de cabeça pra baixo. Até mesmo o orgulho pelo Duce nos olhos de Vicenzo.

Talvez a história servisse pra alguma coisa.

"Muito bem, caro. Tudo começou há muito tempo atrás. Você nem era nascido ainda..."


Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 1893


O menino negro observa os homens trabalhando.

Aos poucos, o cortiço Cabeça de Porco é destruído.

O Rio de Janeiro precisa entrar no século XX com ares europeus, diz o prefeito Barata Ribeiro.

O menino não entendia bem o sonho do prefeito. Ele só entendia sua casa desabando. Seus pais sendo mandados pra longe da cidade, pro morro. O menino sentiu um aperto na barriga.

Mas comida, só amanhã.

Os fregueses de sua mãe não tinham aparecido hoje. Não ia ter dinheiro pra comprar pão, carne seca.

Feijão, nem pensar.

Ele não gostava muito daqueles homens entrando no pequeno quarto onde moravam, nem dos sons que saíam de lá. Preferia o silêncio das manhãs de ressaca. Do cheiro de aguardente nas roupas caladas, quando ele podia experimentar aquela água ruim que sobrava nos copos.

A água fazia ele sonhar, esquecer aquela dor na barriga teimosa.

Sem homens, sem comida.

O cortiço cai.

O menino sai andando pela rua deserta. Um tiro. Seu olhar observa na distancia dois homens correndo, um outro caído no chão. Do lado do corpo, sua mãe. A polícia que chega.

O cortiço cai. A polícia espanca sua mãe.

O corpo da mulher desaba e é chutado pelos homens da lei.

O menino quer correr e não consegue. A polícia vai embora.

Quando o menino se aproxima, a morte termina seu trabalho ancestral. O casal no chão parece distante. Como as lembranças do antigo cortiço.

Prostituta e cafetão assassinados. Duas preocupações a menos para a gente de bem do Distrito Federal.

O menino chora. Pela mãe. Pelo pai. Pela fome.

A noite chega.



Várzea do Carmo, 14 de abril de 1895


"Quincas, pega aquelas bolas ali!"

O empregado corre até o canto da sala e pega duas bolas Shoot.

Charles Miller não consegue conter o riso. Vinte e poucos ingleses se aquecem sob o sol tropical. Very british. Charles havia organizado seu time nos moldes da Velha Albion. Batizara a equipe com o nome de São Paulo Railway. O time da primeira estrada de ferro paulista. Do outro lado da várzea, o eleven da Companhia de Gás. Na platéia, alguns burros e o menino que vinha de longe.

O São Paulo Railway vence a partida: 4 x 2.

Charles vai pra casa sonhando em como tornar o futebol mais famoso que o cricket entre seus pares. Quincas fica brincando com a bola. Indiferente ao tempo.

Uma bola chutada por Quincas atinge uma árvore.

O menino lembra. A mãe. O pai. A fome.

O senhor que levou ele pra casa na noite mais longa de sua vida...


Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 1893


Então, José Maria, eu devia ter deixado aquele pardieiro em pé?"

"Sabes que não sou fã do Cabeça de Porco. Mas, o que tens a oferecer em troca?"

O prefeito Barata Ribeiro observa o escritor.

Gostava de Machado de Assis. Não entendia a crítica ao aspecto modernizante da destruição do maior cortiço da cidade. Seriam suas origens africanas clamando por justiça?

"A cidade não precisa de bandidos e prostitutas, José Maria. Devemos olhar para o futuro, para o futuro!"

"E quem lucra com o futuro, prefeito?"

O silêncio de Barata Ribeiro indicava que a conversa estava encerrada. O cortiço era passado. Machado havia escrito a crônica. Algumas pessoas iriam ler sobre o assunto. O povo iria habitar o morro.

De noite, o pesadelo voltou ao encontro de Machado. O menino em pé. O casal no chão. Ele levando o menino pra casa. O filho que ele nunca teve, a miséria que ele nunca haveria de legar.

Acordou sobressaltado.

Foi até o quarto dos fundos. O menino dormia.

Daria tudo para voltar a ser criança. Poder sonhar. Mesmo com as mãos ainda sujas de sangue.



Brás, 25 de maio de 1895



Charles brinca com a bola. Sozinho na casa grande.

Uma chuva forte cobre São Paulo. Charles chuta a bola no paredão.

Um chute mais forte, e a bola vai na direção do jardim. Antes que mergulhe numa poça de lama, Quincas se antecipa e toca de calcanhar para o patrão.

De calcanhar?

Charles olha espantado para Quincas.

O menino reage. Pedindo perdão.

A bola era do patrão.

Charles toca a bola para o menino. A bola chega mansamente aos pés do garoto.

Charles faz sinal para que chute.

O garoto toca com o lado interno do pé.

E a bola retorna aos pés de Charles.

Quincas em dois toques é melhor que todos os seus amigos ingleses de São Paulo.

Começam a brincar com a bola.

Toques rápidos.

Chutes fortes.

Quincas bate com as duas pernas. Ambidestro!

Charles não consegue entender e pisa na bola.

Chama o menino pra perto de si:

"Onde você aprendeu a jogar, Quincas?"

"Vendo o senhor. Vendo os jogos. Brincando com a bola escondido."

Charles se despede do menino e vai para a biblioteca.

Charles se dá conta da queda do Império Britânico. Se dá conta que o mundo irá mudar, de ponta cabeça.

Em um devaneio, Charles imagina apresentar o craque aos amigos.

Um negro dominando a bola como um mágico.

Logo, acorda do sonho.

Seus amigos jamais aceitarão jogar bola com um negro.

Jamais aceitarão receber um drible de uma raça inferior.

Rio de Janeiro, 28 de março de 1894

Machado de Assis encerra a carta.

Envia o pobre menino para longe do Rio.

Para longe das lembranças do Cabeça de Porco.

Para onde ele possa aprender um pouco mais do que as primeiras letras que lhe ensinou.

Sua saúde já não é lá essas coisas.

Vai então o menino para São Paulo.

O Rio de Janeiro que fique para trás. O tiro. A morte. O cortiço.

Quanto a Machado, a criação da Academia toma todo o seu tempo.

Os ataques epilépticos. A vida como um jogo de xadrez.

O menino irá trabalhar no Brás.

Na casa de Dona Carlota Fox.

Dona Carlota que precisa de alguém pras loucuras do seu filho Charles.

Que acabou de chegar da Inglaterra, cheio de novas e mirabolantes idéias...


Londres, 24 de dezembro de 1931


"Ele era imarcável, Vicenzo. Um fenômeno. Muito do que eu sei, aprendi com ele, embora ele me dissesse o contrário. Chutes de efeito. Cabeçadas. O toque de calcanhar. Quase caí quando tentei pela primeira vez."

Vicenzo ouvia a tudo calado. Até que não resistiu:

"E por que nunca se ouviu falar desse ragazzo?"

Charles Miller olha a lareira. O fogo e as cinzas.

"Ele era negro, Vicenzo. Negro em um tempo em que não existiam Andrades, nem Gradins... Um tempo em que o futebol era coisa de aristocrata."

Charles bebe um pouco de chá e continua:

"Um menino pobre, órfão de pai e mãe. Foi trabalhar lá em casa a pedido de um amigo de mamãe. Uma daquelas idéias de minha mãe. Quando eu marcava um gol naqueles campeonatos paulistas, quando eu era artilheiro, nunca comemorava muito. Diziam que era meu jeito inglês, reservado. Era não. Era a sensação de que aqueles gols, aquela artilharia, não me pertencia. Pertenceriam ao Quincas, se Quincas fosse branco como eu..."

Silêncio.

"Mas ele nunca reclamou uma chance. Vivia lendo pelos cantos da casa. Livros de suspense. Adorava o Doyle. Sonhava com os livros. Não sei qual o sonho mais impossível daquele rapaz! Jogar futebol ou tornar-se um escritor?"

Vicenzo acende o cachimbo.

"Um dia ele veio conversar comigo. Já estava crescido. Tinha uns 17 anos. Queria partir. Ir pra bem longe. Eu perguntei se lhe faltava algo na casa. Se alguém tinha lhe tratado mal..."

Meia-noite.

"Era uma noite de natal. Como hoje. Ele me disse que tinha juntado umas economias e que iria partir. O futebol era terra de brancos. Os livros eram território dos brancos. Ele ia pra bem longe do futebol. Pra bem longe dos livros.Pra bem longe do Brás. Ouviu falar de uns trabalhos lá pras bandas de Minas. Quem sabe por lá ele podia ser gente? Marcar um gol? Quem sabe?"

Ao se despedir, sorriu mais uma vez e agradeceu:

"Sabe, Senhor Miller? Quando meus pais morreram eu quis morrer também. Foi quando o Sr. José Maria me levou pra casa dele e me ensinou a ler. Foi quando eu aprendi a sonhar. Eu sonhava com a minha mãe de volta. Sonhava com o cortiço. Era o único lar que eu conhecia. Sonhava com meu único brinquedo, que foi destruído junto do cortiço. Um vidro colorido, desses que a gente rica usa no pescoço. Era um presente de minha mãe. Sabe, Sr. Miller, eu chorava toda a noite com saudade daquele vidro colorido. Até que eu encontrei aquela bola do senhor. Uma noite, eu dormi abraçado com a bola. Parecia o colo de minha mãe. Então, eu não chorei mais."

Vicenzo observa o amigo com os olhos rasos d'água. Como no dia em que Antonieta partiu.

"Eu tinha duas bolas, Vicenzo. Uma eu dei de presente ao meu amigo. Ela pertencia mais a ele do que a mim..."

As pessoas cantam nas ruas e nas casas de Londres.

Vicenzo coloca o cachimbo de lado.

"E onde está esse tal de Quincas? Morreu? Mandou notícias?"

Charles sorri:

"Depois de alguns anos consegui localiza-lo. Está morando numa pequena cidade de Minas: Três Corações. Parece que montou uma 'escolinha de futebol'. Tem até um aluno que promete muito... um tal de Dondinho.


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