22 de dez. de 2008




Por ROBERTO VIEIRA

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O destino do futebol é o gol.

Como o destino do homem é a morte. O anzol.

Mas o homem ousa contra o destino desde o início dos tempos.

Agarrando-se à vida.

Agarrando-se à bola.

Donde, ninguém é mais humano que o goleiro.

Goleiro que se imagina Prometeu.

Trazendo o fogo dos deuses aos pares.

Acorrentado nas traves do Cáucaso de todos nós.

Mercê de defesas inimagináveis.

Refém de pecados e frangos originais.

O goleiro acorrentado é a síntese do ser humano na face da Terra.

Livre para sonhar com a glória dos céus.

Preso ao próprio corpo, mortal e infiel.

Alguém pergunta no anfiteatro:

"Pode um goleiro se libertar das correntes?"

Não.

Mas, como toda tragédia grega, esta também carrega uma excessão:

Excessão que se intitula Valdir Appel.

Appel que viveu nos gramados a sua existência acorrentada.

Semideus vagando pelas terras da Hélade Tupiniquim.

Personagem do poeta Hesíodo na floresta de chuteiras tropical.

Appel que descobriu um novo fogo. Uma nova liberdade.

Na palavra escrita.

Palavra que liberta o homem.

Palavra, outrora néctar dos deuses.

Palavra antiga escrava dos testamentos.

Palavra subtraída do destino e dos mandamentos.

Para ser amante dos homens.

Filha da memória.

Senhora dos anos que passam e nos levam os gritos nas arquibancadas.

Perplexos.

Sem nexo causal.

Exceto, a palavra.

Palavra que é a defesa impossível da vida.

A ponte no chute seco e fatal da eternidade.

Prometeu Appel traduziu a angústia do goleiro na hora do gol, no papel.

E o que é a angústia do goleiro na hora do gol,

senão a angústia do homem na hora do apito final?

Quando somos apenas nós, homens, e a infinitude do céu?

*O destino permitiu ao eu-menino, conhecer em 2007 e 2008 muitos dos seus ídolos: Um deles é o ex-goleiro e agora escritor Valdir Appel. Appel, o mito de Prometeu nas águas do futebol...


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