Por ROBERTO VIEIRA
Aos 78 anos, pouco me importa a prisão.
Como, aliás, nunca importou mesmo.
Rico nunca foi pra prisão no país do futebol.
Eu não ia ser o primeiro.
O que importa é poder olhar para a taça no meu quarto.
Inexpugnável.
Taça que deveria ter sido minha, por direito, em 1950.
Não fossem aqueles uruguaios metidos a heróis.
Não fossem o Bigode e o Barbosa.
Jogadores sem amor a camisa.
E pensar que meu ídolo era o Ademir...
Meu pai nunca mais me levou para um jogo depois daquele 16 de julho.
Dizia que futebol era coisa de gente que não tem o que fazer.
Mas eu amava o futebol.
Sobre todas as coisas, eu amava o futebol.
Cresci olhando Pelé de longe.
Vendo Bellini levantando a taça.
Eu estudando na Suíça. Trabalhando nos Estados Unidos.
Tentando agradar meu pai:
"Filho meu brinca de ganhar dinheiro!"
Os anos se passaram, até aquele 1983.
Não resisti e caminhei até o prédio da CBF.
Lá estava ela.
Solitária deusa. Meu sonho de infância.
Foi quando conheci o Peralta.
Foi quando descobri que minha verdade absoluta, também valia no mundo do futebol:
"O dinheiro pode tudo!"
O Peralta organizou a operação.
Reuniu os comparsas no Bairro do Santo Cristo.
O resto é história.
Tudo saiu mais certo do que o planejado.
Até mesmo a idéia idiota de derreter a minha taça.
E alguém lá ia roubar a taça para derreter?
Quem quiser que conte outra.
Mas, no país do futebol, outra verdade também reina absoluta:
"Todo escândalo dura apenas 15 dias. Nenhum segundo a mais".
Hoje, a gente comemora aniversário de casamento.
Eu e a minha taça.
Vinte e cinco anos de união.
Ninguém sabe. Ninguém precisa saber.
Mas a taça do mundo é minha...
No dia 19 de dezembro de 1983, a Taça Jules Rimet foi roubada na sede da CBF...

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