19 de dez. de 2008





Por ROBERTO VIEIRA

Aos 78 anos, pouco me importa a prisão.

Como, aliás, nunca importou mesmo.

Rico nunca foi pra prisão no país do futebol.

Eu não ia ser o primeiro.

O que importa é poder olhar para a taça no meu quarto.

Inexpugnável.

Taça que deveria ter sido minha, por direito, em 1950.

Não fossem aqueles uruguaios metidos a heróis.

Não fossem o Bigode e o Barbosa.

Jogadores sem amor a camisa.

E pensar que meu ídolo era o Ademir...

Meu pai nunca mais me levou para um jogo depois daquele 16 de julho.

Dizia que futebol era coisa de gente que não tem o que fazer.

Mas eu amava o futebol.

Sobre todas as coisas, eu amava o futebol.

Cresci olhando Pelé de longe.

Vendo Bellini levantando a taça.

Eu estudando na Suíça. Trabalhando nos Estados Unidos.

Tentando agradar meu pai:

"Filho meu brinca de ganhar dinheiro!"

Os anos se passaram, até aquele 1983.

Não resisti e caminhei até o prédio da CBF.

Lá estava ela.

Solitária deusa. Meu sonho de infância.

Foi quando conheci o Peralta.

Foi quando descobri que minha verdade absoluta, também valia no mundo do futebol:

"O dinheiro pode tudo!"

O Peralta organizou a operação.

Reuniu os comparsas no Bairro do Santo Cristo.

O resto é história.

Tudo saiu mais certo do que o planejado.

Até mesmo a idéia idiota de derreter a minha taça.

E alguém lá ia roubar a taça para derreter?

Quem quiser que conte outra.

Mas, no país do futebol, outra verdade também reina absoluta:

"Todo escândalo dura apenas 15 dias. Nenhum segundo a mais".

Hoje, a gente comemora aniversário de casamento.

Eu e a minha taça.

Vinte e cinco anos de união.

Ninguém sabe. Ninguém precisa saber.

Mas a taça do mundo é minha...


No dia 19 de dezembro de 1983, a Taça Jules Rimet foi roubada na sede da CBF...



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