
Por ROBERTO VIEIRA
Quando Claude Lévi-Strauss pisou no Brasil em 1935, o mundo era ocidental.
Quem não era ocidental, era selvagem.
Ao viajar pelo Brasil, munido do olhar e do estruturalismo, Lévi-Strauss compreendeu:
O selvagem era civilizado.
Dito assim, parece pouco.
Mas ainda hoje, sete décadas depois, tem quem julgue a cultura propriedade exclusiva de uma casta.
Anos atrás, durante palestra no Exército, assisti uma antropóloga ser interrompida bruscamente.
Um coronel revoltou-se ao ser comparado aos índios.
"E índio tem lá cultura, minha senhora?"
Assim era o pensamento ocidental.
Quem não era ocidental, era selvagem.
Claude Lévi-Strauss arrumou as malas e foi viver entre os selvagens.
Neolítico.
Visitante de um mundo antigo.
Um mundo repleto de mitos.
Mitos que nada mais são que linguagem a ser desvendada.
O Brasil de Lévi-Strauss eram tristes trópicos.
Baías da Guanabara banguelas.
Árabes e italianos nas ruas de São Paulo.
Descendentes de escravos na periferia.
Imensidões amazônicas ao norte.
Os tristes trópicos sorriam apenas aos domingos.
Quando tinha jogo de futebol.
É verdade que os europeus já conheciam o futebol sul americano.
Uruguaios e argentinos transformaram o futebol em arte.
Mas o continente guardava em si uma surpresa.
Mestiços brasileiros transformavam o futebol em cultura.
Em mito.
Em civilização.
Hoje, Claude Lévi-Strauss completa cem anos de idade.
O último grande pensador do século XX.
Em uma de suas últimas entrevistas, Lévi-Strauss declarou que a arte está morta.
Nada de novo sob o sol.
Talvez seja verdade.
Mas, como ele mesmo nos ensinou, existe o mito.
O drible que surpreende.
A individualidade de cada civilização a ser preservada.
Quanto ao homem, selvagem ou não, ocidental ou acidental, tanto faz o que você pensa, meu amigo.
Homem e futebol são iguais.
Não existiam no começo do mundo.
E com certeza, não assistirão o seu final...
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