28 de nov. de 2008



Claude Lévi-Strauss



Por ROBERTO VIEIRA

Quando Claude Lévi-Strauss pisou no Brasil em 1935, o mundo era ocidental.

Quem não era ocidental, era selvagem.

Ao viajar pelo Brasil, munido do olhar e do estruturalismo, Lévi-Strauss compreendeu:

O selvagem era civilizado.

Dito assim, parece pouco.

Mas ainda hoje, sete décadas depois, tem quem julgue a cultura propriedade exclusiva de uma casta.

Anos atrás, durante palestra no Exército, assisti uma antropóloga ser interrompida bruscamente.

Um coronel revoltou-se ao ser comparado aos índios.

"E índio tem lá cultura, minha senhora?"

Assim era o pensamento ocidental.

Quem não era ocidental, era selvagem.

Claude Lévi-Strauss arrumou as malas e foi viver entre os selvagens.

Neolítico.

Visitante de um mundo antigo.

Um mundo repleto de mitos.

Mitos que nada mais são que linguagem a ser desvendada.

O Brasil de Lévi-Strauss eram tristes trópicos.

Baías da Guanabara banguelas.

Árabes e italianos nas ruas de São Paulo.

Descendentes de escravos na periferia.

Imensidões amazônicas ao norte.

Os tristes trópicos sorriam apenas aos domingos.

Quando tinha jogo de futebol.

É verdade que os europeus já conheciam o futebol sul americano.

Uruguaios e argentinos transformaram o futebol em arte.

Mas o continente guardava em si uma surpresa.

Mestiços brasileiros transformavam o futebol em cultura.

Em mito.

Em civilização.

Hoje, Claude Lévi-Strauss completa cem anos de idade.

O último grande pensador do século XX.

Em uma de suas últimas entrevistas, Lévi-Strauss declarou que a arte está morta.

Nada de novo sob o sol.

Talvez seja verdade.

Mas, como ele mesmo nos ensinou, existe o mito.

O drible que surpreende.

A individualidade de cada civilização a ser preservada.

Quanto ao homem, selvagem ou não, ocidental ou acidental, tanto faz o que você pensa, meu amigo.

Homem e futebol são iguais.

Não existiam no começo do mundo.

E com certeza, não assistirão o seu final...


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