Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA
Vicente Lobão, um goleiro que fez história em Pernambuco, campeão pelo Santa Cruz em 1940, tricampeão nos 50 pelo Náutico, era o titular absoluto do arco alvirrubro em 1951. Uma contusão, ainda no correr do turno inicial, afastou-o dos gramados por uns jogos. Foi substituído então por Paulinho. Assim se explica a presença de Paulinho como titular no dia da goleada histórica contra o Auto Esporte, lembrada aqui no blog como a última com meia dúzia de gols contra o arco alvirrubro.
Paulinho era a promessa de uma carreira promissora no final dos anos 40. Revelado pelo Sport, de formação e perfil de amador desde os primeiros tempos de juvenil, decidiu que o gosto pelo futebol não era para ser acalentado como um sonho definitivo. A medicina estava em primeiro lugar. E mesmo que assim não pensasse e se decidisse, tinha Manuelzinho na concorrência. O posto de titular na Ilha há dez anos pertencia ao lendário Manuelzinho. Ninguém ousava pensar em ganhar dele a posição no time do Sport. Mas Paulinho adorava futebol. Gostava e se dedicava com afinco à espinhosa e ingrata tarefa de pegar bola com as mãos debaixo dos três paus.
Tendo decidido que iria ser médico, já estando na faculdade, no início dos anos 50, veio porém, numa tarde de esplendor para o futebol pernambucano, a consagração como goleiro: Campeão de Futebol nos Jogos Universitários Brasileiros. Aconteceu no mês de setembro de 1950. Paulinho foi a garantia do título na vitória de Pernambuco por 3x2, na finalíssima contra a seleção do Paraná. Jogo histórico, de portões abertos. Um sábado à tarde. Naquele tempo, os jogos universitários gozavam do prestígio e tinham status de olimpíada. Paulinho foi a maior figura em campo. A Ilha apinhada de gente que não cabia mais.
O Náutico não pensou duas vezes. Foi atrás de Paulinho. Em 1951, estava ele nos Aflitos. Mas nos Aflitos, Paulinho foi encontrar outro monstro sagrado: Vicente. Era o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Ser reserva de Vicente nos Aflitos não diferia em nada de ter sido reserva de Manuelzinho na Ilha. Mudava apenas o cenário. Tinha que se contentar em ser para sempre reserva. Não tinha outro jeito. O melhor era pensar somente na carreira médica. E foi o que fez a partir de então. Ainda mais que no ano seguinte, em 1952, o Náutico foi buscar na Ilha também Manuelzinho, trazendo-o para os Aflitos... Nos Aflitos, a partir de então, Manuelzinho e Vicente, os dois maiores goleiros dos nossos gramados em todo o correr da década. Titular e reserva. Quem era titular, quem era reserva, a gente só sabia na hora do jogo começar, as três da tarde. Foi assim até 1953. Até a excursão à Europa, no meio do ano, jogos na Alemanha e na França. Um dia jogava Vicente. No outro, Manuelzinho. E continuou assim na volta da excursão, no campeonato a seguir. Em 1954, perto de pendurar as chuteiras e as luvas, trocando tudo pelo apito de árbitro, Vicente ainda foi jogar uns meses no América. Para Paulinho, já não restava porém mais esperança. E ele nem pensava mais nisso. Pensava somente em ser médico. Em ser para o resto da vida o otorrinolaringologista dr. Paulo Viana. Decisão acertada. Ainda hoje, e há mais de meio século, com o mesmo elã e igual entusiasmo dos tempos de goleiro amador, exerce com brilhantismo a nobre profissão que abraçou por vocação e decidida escolha.
Não é difícil encontrar Paulinho, o dr. Paulo Viana, em dia de jogo do Náutico nos Aflitos. Porque, em que pese a formação rubro-negra do início da carreira, foi em Rosa e Silva onde fincou raízes, criou amizades e fez história. Como campeão de 1951. Como reserva do grande Vicente Lobão.
A foto que ilustra o comentário é de outro jogo da época, mas os jogadores são os mesmos do dia da goleada histórica diante do Auto Esporte: em pé, Dico, Paulinho, Lula, Caiçara, Sidinho e Gilberto; no ataque: Fernandinho, Ivanildo, Djalma, Alcidèsio e Zeca. Este time, como registrou o blog, jogou três ou quatro partidas seguidas guardando a mesma formação.
Duas observações históricas: no time do Auto Esporte, na escalação registrada pelo blog, o lateral-esquerdo Amaro China é o mesmo do time titular do Náutico campeão em 1945. A outra: os jornais da época, assim como acontecia com relação a Esporte e Sport, dividiam-se em chamar o time dos motoristas de Auto Esporte e Auto Sport. E é com esta última grafia que ele é apresentado em "O Náutico, a bola e as lembranças". O Náutico, a propósito, é que nunca mudou de nome: foi, é e sempre será Clube Náutico Capibaribe, minha, nossa paixão.
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