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Por ROBERTO VIEIRA
31 de agosto de 1910. Tarde fria em São Paulo.
- Oh, Perrone, os homens jogam demais.
- Tudo inglês, Joaquim. Tudo inglês.
- E esse nome? Corinthian...
- Melhor que Palmeiras.
- Carlos, que tal a gente fazer um time de futebol?
- Um time no Bom Retiro? E o trabalho? Esses rapazes são todos ricos, lords, almofadinhas.
- E daí?
- Tá sonhando acordado, rapaz!
- A gente podia copiar as cores. O preto e o branco.
- E alguém aqui tem dinheiro sobrando pra fazer um team?
Silêncio. O Corinthian marca o segundo gol no Palmeiras.
Os cinco se entreolham crianças. Gritando gol. São observados com estranheza pelo público paulistano.
- Oh, Pereira, você tinha de lembrar logo do dinheiro?
O jogo se encerra. Os cinco mosqueteiros seguem o caminho de casa. Tristes. Cabisbaixos.
Ninguém consegue dormir.
Descobrem que um sonho é mais insone que o mais cruel pesadelo.
No dia seguinte, primeiro de setembro, encontram-se depois do trabalho. Noite. Lampião de gás na rua José Paulino.
Não possuem bola.
Não possuem uniforme.
Não possuem sede.
Possuem apenas o sonho.
- Oh, Pereira, como vai ser o nome dessa insanidade?
- Bota aí Corinthian...
- Mas Corinthian já tem!
- Então bota um s no fim... pra ninguém confundir.
E o sonho entrou em campo dez dias depois. Contra o União da Lapa.
Com Rafael Perrone na zaga e Joaquim Ambrósio na ponta esquerda.
E Carlos Silva, Antônio Pereira e Anselmo Correia assistindo. Em oração.
Os primeiros fiéis da nova religião.
PS: Na foto, Santa Cruz 1 x 4 Corinthians, o primeiro jogo da história dos Brasileirões em 1971.
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