Por Lucídio José de Oliveira
Eles estão chegando com suas histórias fantásticas e seus feitos maravilhosos. São os craques alvirrubros do passado, reunidos para a seleção dos melhores de 1901-1960. Seleção de um passado distante. Escolha do Blog do Roberto. Nada do pessoal do Hexa nem quem veio depois. De todo modo, uma seleção que vai dar o que falar. Já estão aí, a postos, o mitológico Manuelzinho e o bravo Caiçara. Escolhas justas. O goleiro e o lateral-direito. Não tem mesmo mais pra ninguém nas duas posições.
Quando Manuelzinho chegou aos Aflitos, em 1952, lá já se encontrava Vicente, outro grande goleiro. Mas Manuelzinho foi insuperável, ainda mais porque não tinha tamanho para ser goleiro. Ou até por isso mesmo. Não passava de um metro e sessenta e cinco. Hoje inimaginável que fosse admitido como goleiro. Na realidade, um admirável pequeno goleiro.
O seu forte: o amplo domínio da pequena área, dom que se confundia e se completava com um extraordinário senso de colocação. A barra ficava pequena para quem ia chegando com a bola dominada, Manuelzinho e o gol à sua frente. Nos chutes de longe, de fora da área, Manuelzinho se transmudava num esperto e decidido gato, a mão no ar esticada chegando aos extremos recantos do arco que lhe cabia defender. As bolas endereçadas na gaveta, agilmente desviadas com um leve toque pelas mãos milagrosas de Manuelzinho para escanteio. Tinha 30 anos quando trocou o Sport, cinco vezes campeão estadual na Ilha, pelo Náutico. Na época, final da carreira. Pra ele e para quem tinha tanta idade. Mas foi campeão ainda duas vezes com a camisa alvirrubra. Entrava definitivamente para a história.
Campeão a primeira vez em 52. Campeão invicto. Na outra oportunidade, campeão disputando todos os jogos no campo do rival, o Sport. O estádio dos Aflitos estava em obras para ampliação, e não havia outro na época na capital pernambucana. O campeonato ainda não chegara ao interior. Em ambas as jornadas vitoriosas, o Náutico de Manuelzinho disputando a partida do título, o derradeiro jogo, na casa do adversário. Campeão uma, duas vezes, quase que em seqüência, dentro do santuário rubro-negro, a Ilha do Retiro. Contra o poderoso Sport. A glória, para a torcida timbu. A consagração, para o ex-rubro-negro Manuelzinho.
Mané, como carinhosamente era chamado pelos amigos, era realmente um dotado. Nasceu Manuel Monteiro de Arruda para se tornar Manuelzinho, um ser mitológico. A começar pela data do nascimento: 7 de setembro de 1922, dia do centenário da Independência! Tinha que terminar a carreira no Náutico! Como é sabido e confirmado pela história, centenário é com o Náutico mesmo...
Fora dos gramados, como cidadão e figura humana, um ser incomparável. Asseguro isso com a autoridade de quem privou de sua amizade por mais de dez anos, os últimos de sua rica biografia de goleiro extraordinário e cidadão querido de quem dele se aproximava.
O testemunho a seguir é do jornalista Antonio Falcão, nascido em Belo Jardim, mas caruaruense por adoção, conterrâneo pois de Manuelzinho. Manuelzinho nascido no bairro do Rosário da Capital do Agreste, criança de correr atrás de um bola na famosa rua Amarela, travessa da rua do Velame, recanto a servir de berço para o seu despontar ao encontro da glória no mundo encantado do futebol. Traçando o perfil de Mané em artigo de jornal pela passagem dos seus 70 anos, o escritor Falcão, que não é de elogio fácil e pouco afeito a imagens melosas, tudo resumiu no sugestivo título que deu à crônica dedicada ao amigo: "Mané – afinal falei de flor..."
É que o momento não estava para brincadeira. Vivia-se os tempos do engodo e do malogro dos mirabulantes planos econômicos, início dos anos 90. E Manuelzinho, como goleiro um lépido gato debaixo dos três paus, no convívio com os amigos não era mais que uma flor. Falcão tinha acertado na mosca. Grande Manuelzinho. Goleiro do time alvirrubro dos sonhos de Roberto que vão até 1960.
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