
Caros amigos,
Ainda não havia tomado conhecimento do fato.
O texto 'O Typhis Pernambucano' de minha autoria, sobre os lamentáveis eventos durante o jogo Náutico e Botafogo, foi apresentado na Câmara dos Deputados em Brasília pelo Deputado José Chaves no dia 10 de junho de 2008.
Foi solicitado em discurso que o texto fosse inserido nos anais da Casa.
O discurso e o texto estão logo abaixo.
Fico sinceramente emocionado com o gesto. Por mim e pelo meu querido estado de Pernambuco.
Só posso agradecer a honra.
Muito obrigado,
Roberto Vieira
O SR. JOSÉ CHAVES (PTB-PE. Pronuncia o seguinte discurso.) -
"Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, no último dia 1º de junho, por ocasião da partida entre o Clube Náutico Capibaribe e o Botafogo de Futebol e Regatas, o futebol brasileiro enfraqueceu-se, ficou mais pobre, diante dos nossos olhos de esportistas e de nordestinos.
Sem motivo algum, com uma fúria nunca antes vista em jogos oficiais - a partida era válida pelo Campeonato Brasileiro de 2008 -, o atleta André Luís, da equipe do Rio de Janeiro, deu provas públicas de insensatez, violência, desequilíbrio e de antiprofissionalismo, não merecedor, portanto, de envergar a camisa gloriosa do clube da estrela solitária.
Excluído do jogo, por falta desclassificante, fez gestos obscenos para os cerca de 15 mil espectadores e outros milhares que assistiam a peleja pela televisão, rebelou-se contra as leis do jogo, praticou atos incompatíveis com um atleta profissional, além de chutar garrafas e indispor-se com oficiais da Polícia Militar de Pernambuco.
Para surpresa de todo o meu Estado e, creio, de uma parte expressiva da opinião pública do resto do País, o Estádio dos Aflitos foi interditado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva - STJD, cujo fundamento-base foi o de o campo do Náutico apresentar-se "muito ruim e cheio de buracos", como se isso fosse novidade no Brasil.
Se o campo do Náutico tem esse julgamento do STJD, por que, então, foi liberado para jogos oficiais?
É estranho que o STJD somente assim se pronuncie depois de um incidente que coube, integralmente, ao atleta André Luís.
Sr. Presidente, ao tempo em que me solidarizo com o Clube Náutico Capibaribe, instituição que acaba de comemorar 107 anos de fundação, lavro o meu protesto contra a insensatez, o regionalismo e o preconceito desferidos contra Pernambuco, e lamento que idéias dessa natureza ainda persistam num País 5 vezes campeão do mundo.
Entendo que é inquestionável que as autoridades esportivas, sejam do STJD ou da CPF, adotem as medidas que se façam necessárias para manter a ordem e a segurança dos estádios, no restrito cumprimento do Estatuto do Torcedor.
No caso da interdição dos Aflitos, comete-se uma irreparável injustiça, porque denigre as tradições do Clube Náutico Capibaribe, que nenhuma culpa teve naqueles acontecimentos, ressuscitando velhas e vergonhosas práticas esportivas de um país caolho: para o Sul e Sudeste, um olho está fechado, enquanto, para o Nordeste, o outro olho está sempre bem aberto.
Protesto ainda mais, Sras. e Srs. Deputados, porque isso caracteriza atraso, amadorismo, herança de uns tempos em que se jogava com bola de pito, goleiro usava joelheiras e as traves e balizas dos campos eram de madeira.
Nesses dias, muitas asneiras foram ditas e escritas sobre os incidentes, sobretudo por quem tem a responsabilidade "do bem informar".
Mas, no meio desse cenário de injustiças e ataques gratuitos a Pernambuco, quero solicitar a V.Exa., Sr. Presidente, que autorize a inserção nos Anais desta Casa, do artigo Typhis Pernambucano, de autoria do médico Roberto Vieira, publicado do Jornal do Commercio, do Recife, no dia 4 de junho último.
O Typhis Pernambucano foi um jornal editado por Frei Caneca, entre 1823 e 1824, no auge da formação da Confederação do Equador, convertendo-se num valioso instrumento das lutas do maior líder da Revolução Pernambucana de 1817.
Typhis é uma referência a Tiphis, o inventor da navegação, e ao piloto do Argos, navio construído para a conquista do velocino de ouro - um carneiro na mitologia grega.
Simbolicamente, o autor do artigo, um bom navegador, clama por respeito às tradições de Pernambuco, cuja história é paradigma da nacionalidade, contesta as iniqüidades contra Pernambuco, nesse infeliz e triste episódio.
Eis, Sr. Presidente, o texto do brilhante artigo do médico Roberto Vieira:
O Typhis PernambucanoDe repente, Pernambuco se tornou a Argentina dos anos 60. Vanderley Luxemburgo diz que tem medo de jogar em Recife. Abel Braga exclama sobre a nossa prostituição. O presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, Rubens Lopes, deseja retirar os jogos do nosso Estado. Rubens Lopes que assistiu ao conflito no jogo "Náutico x Botafogo" ali perto. Na Austrália.Tudo curiosamente depois das derrotas dos seus clubes. Tudo no dia 1º de junho. Dia em que se completam 184 anos da Confederação do Equador.O futebol brasileiro foi tomado por uma aura de santidade nunca vista. Jamais houve quebra pau entre Polícia Militar e torcida em Porto Alegre. Na Batalha dos Aflitos os jogadores do Grêmio não chutaram o árbitro. A PM de São Paulo não evitou um desastre no jogo Corinthians e River Plate, quando os torcedores ameaçaram invadir o campo.São Januário não presenciou cenas dantescas na partida Vasco x Sport. O Maracanã nunca foi invadido. Nunca teve mortos na quebra de grades de proteção. Nunca antes na história desse país um estádio assistiu a confusões entre jogadores e polícia.O Brasil não tem prostitutas. O Brasil não tem marginais. O Brasil não tem violência. O Brasil não tem desigualdade social. O Brasil é um oásis de felicidade e desenvolvimento na América Latina. Exceto por uma chaga. Exceto por uma ovelha negra. Exceto por uma pústula: o Estado de Pernambuco.O resto do Brasil esqueceu. Pois a amnésia é abundante nesta terra que tudo dá. Mas Pernambuco não se rende. Nunca se rendeu. Nem em 1817. Nem em 1824. Nem hoje. As manobras que tecem nos bastidores do futebol brasileiro são mesquinhas. São injustas. São fratricidas.O Estado de Pernambuco é muito maior que as calúnias de Vanderley Luxemburgo, Abel Braga, Bebeto de Freitas e Rubens Lopes. Muito maior que um jogo de futebol. Pernambuco é mais que um Estado. É um sentimento. Uma saudade. E o nosso amor por Pernambuco não está à venda. Não tem preço.Mesmo nesse tempo de trevas esportivas. Tempos em que cabe recordar os versos de Camões que constavam do jornal Typhis Pernambucano, editado por Frei Caneca: 'Uma nuvem que os ares escuros sobre nossas cabeças aparece'."
Era o que tinha a dizer, Sr. Presidente, Sras, e Srs, Deputados.
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