1 de jul. de 2008



Por ROBERTO VIEIRA

O navio Almanzora teve sua quilha batida em Belfast, Irlanda do Norte. Inicialmente projetado como um transatlântico, a guerra mudou seu destino: Tornou-se um cruzador auxiliar da Royal Mail. Lançado ao mar no dia 19 de novembro de 1914, foi pintado de chumbo como um navio de guerra. Quando a guerra chegou ao seu final em 1918, o Almanzora foi reconduzido ao estaleiro de Belfast e o projeto inicial foi refeito. Tornou-se novamante um transatlântico. Em 1920 inicia sua nova vida no trajeto Vigo, Lisboa, Funchal, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Santos, Montevidéu e Buenos Aires.

No dia 8 de julho de 1938, o Almanzora se veste de verde e amarelo. Chega ao porto do Recife trazendo a seleção brasileira, terceira colocada na Copa do Mundo da França. O timaço de Domingos da Guia e Leônidas.

Sete da manhã. A lancha da polícia marítima se dirige ao Almanzora. Os jogadores de terno trocam de embarcação e se dirigem ao Grande Hotel administrado por Alberto Bianchi. A multidão toma conta das ruas em torno do Grande Hotel. A recepção aos jogadores é digna do 8 de maio francês. Todos querem ver, tocar, homenagear aqueles jogadores que ousaram vencer os invencíveis europeus em sua própria casa. O prefeito Novaes Filho saúda o elenco. Carlos Rios discursa pela Associação dos Cronistas Desportivos de Pernambuco. Sebastião Maciel, representando a Federação Pernambucana de Desportos, faz entrega de medalhas de ouro alusivas ao feito. Um microfone instalado pela Rádio Clube de Pernambuco transmite ao povo as homenagens.

O Brasil de 1938 é uma ditadura. O Estado Novo escancarou sua face mais perversa no dia 10 de novembro de 1937 com a Constituição Polaca. O Brasil quando enfrentou a Polônia em Estrasburgo enfrentou sua irmã de armas. O hino e a bandeira de Pernambuco estavam proibidos. As cadeias superlotadas de presos políticos. O fascismo fascinava os meios intelectuais e populares. Propagandas com a suástica habitavam os meios de comunicação. O futebol surge como instrumento de afirmação política de um povo. Povo ao qual é negada educação, saúde, igualdade social. A atual Avenida Guararapes havia sido batizada ironicamente, Avenida 10 de Novembro. A guerra batia às portas do mundo. Getúlio Vargas governava ao sabor do vento. Ora nos braços americanos, ora nos devaneios germânicos. Recife é a capitania do seu afilhado: Agamenon Magalhães.

Recife em peso está na frente do Grande Hotel. Após os discursos, os jogadores são levados pelo industrial Carlos de Britto para a fábrica Peixe do Recife na Rua Imperial. O jogador Nariz, apelido do futuro médico Álvaro Lopes Cansado, e sua esposa, se declaram apaixonados pela goiabada pernambucana. Leônidas tira fotografias com o industrial pernambucano e proclama: "Há quem brilhe tanto quanto eu: A goiabada Peixe".

Nas despedidas, uma promessa. Na Copa de 1942 o Brasil será campeão. Promessa que não leva em conta um mundo em guerra. Outra Copa do Mundo apenas em 1950. No Brasil. Mas sem Diamantes Negros em campo.

Campeões? Só em 1958!

Almanzora



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