8 de jul. de 2008




Por ROBERTO VIEIRA

Manhã do dia 30 de novembro de 1937. Após brigas e confusões em terras baianas, o São Paulo chega ao Recife a bordo do navio Ararangua. O chefe da delegação Edmundo Toledo encaminha seus jogadores ao Hotel Avenida. A capital pernambucana só fala da chegada dos paulistanos e da sensacional pugna noturna contra o Náutico dois dias depois. Vinte dias antes o Estado Novo de Getúlio Vargas mostrara a que veio com o lançamento da nova Constituição: A Polaca. Polaca porque era baseada na constituição polonesa e também por ser era a denominação das moças de vida fácil do cais do porto. No dia seguinte desembarca em Pernambuco o novo interventor: Agamenom Magalhães.

2 de dezembro de 1937. Estádio da Praça da Jaqueira. 21:15h. O Clube Náutico Capibaribe forma com Osíris; Pilombeta e Salsinha; Ramon, Edson e Taurino; Zezé, Arthur (Wilson), Neruercindo, Estácio e Celso. No genial ataque alvirrubro temos a ausência do grande center-forward Fernando Carvalheira, substituído por Neruercindo. O São Paulo alinha King; Aníbal e Bruno; Felipelli, Acosta e Xaxá; Ministrinho, Douglas, Milani, Carioca e Junqueirinha. Pois é, naquele tempo Acosta jogava no São Paulo!

Era a despedida da temporada para os alvirrubros.

O jogo começa. Arthur ameaça a meta são-paulina e Bruno despacha mandando a escanteio. Logo depois Milani e Junqueirinha combinam para uma grande defesa de Osíris. Celso é lançado em profundidade e desperdiça chutando por cima. Na seqüência, Arthur finaliza e o arqueiro King defende firme. O lance se repete na meta alvirrubra e Carioca conclui no ângulo para nova defesa do arqueiro alvirrubro.

Aos 32 minutos de jogo, festa pernambucana. Estácio encontra Celso desmarcado. Celso caminha para a linha de fundo. Quando todos esperam o cruzamento ele ergue os olhos e observa King saindo para cobrir o lançamento. Numa fração de segundo ele chuta com efeito, rente ao poste: Náutico 1x0!

King tenta explicar o que aconteceu, entretanto tem de buscar a bola no fundo das redes. O centro é batido. O Náutico avança querendo o segundo gol. Edson e Estácio tabelam. Aníbal dá um chutão. Celso bate um escanteio e Arthur sobe mais alto que toda a defesa e cabeceia tirando tinta da trave.

No intervalo, todo mundo em volta do campo. A torcida perto dos seus ídolos. Até que o árbitro José Fernandes convoca os dois times para a segunda etapa.

Segundo tempo. Junqueirinha dribla dois defensores do Náutico e dispara um torpedo. Não acredita quando vê a pelota nos braços de Osíris. O jogo fica lá e cá até que Neruercindo encontra uma brecha e Aníbal salva com as travas da chuteira. Quando o jogo se aproxima do final, Wilson repete a jogada e é derrubado por Bruno. Pênalti. O próprio Wilson pega o couro e chuta. Para fora. O que seria o segundo gol da vitória alvirrubra vai parar em Casa Forte. E daí? O que importa é a vitória, suada, difícil. Vitória.

Perto da meia-noite a torcida alvirrubra faz a festa. E tome salsaparrilha.

Pilombeta, Edson e Osíris só não fizeram chover.

No dia seguinte o Sport, o Santa Cruz e o Tramways dizem que ganhar do São Paulo é fácil. Os timbus de férias ficam observando os jogos restantes do tricolor paulista em solo pernambucano. Mas os paulistas saem vencendo as demais equipes do estado. No dia 5 de dezembro, o Tramways perde por 3x0. Três dias depois é a vez do Sport cair por 4x1. No dia 12 de dezembro, o Santa Cruz também perde: 3x1.

O Náutico comemora solitário seu triunfo sobre o São Paulo. Há 70 anos. Na infância do futebol brasileiro.


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