Por ROBERTO VIEIRA
29 de junho de 1959. Praia de Tambaú. Um menino corre na areia da praia. Aniversário. Ganhou de presente uma bola. Seu pai avisou que vão embora. Pra bem longe dali. Conhecer a Cidade Maravilhosa. O garoto observa um canarinho voando. Rumo ao infinito. O menino sorri e faz duas perguntas ao pai:
“Tem mar? Tem bola?”
1970. Praia de Copacabana. O Juventus vai ganhando mais uma. Os olhos da galera fixos naquele cabeludo. Flutuando na areia. Toques precisos. Gols. De que planeta ele veio? Paraíba? Alguém chega ao ouvido do garoto e fala do Ameriquinha. O único problema era o Moacir Aguiar. Dispensado. De volta à praia. Tenta a sorte no Botafogo. Mandam escolher entre a bola ou cortar o cabelo. Vai embora. Último vôo: “Flamengo!” O garoto cabeludo chega na Gávea e vai logo ouvindo Modesto Bria falando: “Vai ser jogador ou guitarrista de iê-iê-iê?”. Não precisou responder. Bria já tinha conversado com Seu Napoleão:
“Traga a certidão de nascimento e uma foto 3 x 4”.
15 de dezembro de 1974. Maracanã. A bola descreve um arco sobre o goleiro do América. Vingança? Só se foi da bola. O Flamengo começa a ser campeão carioca. Com um gol daquele cabeludo bom de bola.
“Você quis chutar em gol, Júnior?”
Rogério olha descrente. Mas daquele moleque tudo era possível. Pois Júnior fizera um gol uma semana antes. Do mesmo lugar. No próprio Rogério.
Julho de 1982. Sarriá. Zico toca. A bola chega entre a zaga. Um leve toque e Fillol já era. “Voa Canarinho, voa!”. As ondas do mar. Resta apenas o barulho das ondas do mar e o antigo canarinho de volta. Pousando na mão do menino e sua bola. Não existe terra além do seu olhar. Apenas uma bola teimando em pousar nas redes catalãs e mexicanas. O canarinho repousa nos sonhos do menino:
“Tem bola? Tem mar?”
Julho de 1992. Maracanã ou a velha Tambaú? O Botafogo era favorito. Botafogo que não gostava de cabelos longos. Black Power. Apenas quando eram usados por Jairzinho. Renato Gaúcho é o novo Jairzinho. Então, Júnior dribla Renato uma, duas, dez vezes em seqüência. Renato senta na grama. Ou será na areia da praia? Piá vai na linha de fundo e cruza. Zinho deixa passar. Junior marca 1 x 0. Depois Nélio e Gaucho decretam o apocalíptico 3 x 0.
O menino observa o canarinho voltando pra casa. Falta na entrada da área. Falta em Zinho. Adivinha quem vai bater? O menino corre pra bola. Toca no ângulo direito. Gol.
E o canarinho sai voando pelo gramado do Maracanã. Livre. Eterno.
*Homenagem aos 55 anos do menino Leovegildo Lins da Gama Júnior
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