17 de jun. de 2008



Por ROBERTO VIEIRA

Pernambuco não inventou a vaia ao hino nacional. A manifestação coletiva de repúdio ao hino e a bandeira de um país possuem raízes mais antigas. E nem são propriedade do Brasil. São propriedade da história.

Nos EUA, a queima da bandeira americana não é crime. Durante a guerra do Vietnã faltaram bandeiras naquele país. No 4 de julho de 1969, os americanos patriotas tiveram de improvisar fitas vermelhas e azuis nas varandas das casas do meio-oeste americano.

Mas guerra é guerra, diriam os puristas. E o que é o futebol meus senhores, senão uma guerra disfarçada? Uma guerrilha onde dois exércitos se enfrentam ao invés de trocarem tiros de canhão?

Em 1978 o Brasil decidiu jogar em Pernambuco contra a nossa seleção. Trouxe Nunes no comando do ataque. Sabiamente. Pois se não trouxesse Nunes seria vítima de uma batalha campal. As duas equipes empataram em 0 x 0, o grito de gol entalado na garganta imortal. Nunes foi homenageado, e dias depois, covardemente desligado do escrete nacional. Chegou de gesso em Recife com os olhos em lágrimas. Pernambuco sofreu calado. O time de Coutinho já estava distante com Reinaldo e Dinamite no comando do ataque.

Pernambuco 0 x 0 Brasil

Alguns dias depois a seleção jogou em Porto Alegre. O Rio Grande naquela noite não era Brasil. Era um outro continente, perdido em versos de Quintana e memórias de Verissimo. Como na batalha campal de 1973 que terminou 3 x 3. A seleção gaúcha comandada por Falcão empatou o jogo em 2 x 2. O time brasileiro foi vaiado do primeiro ao último minuto. Um desagravo a não convocação do genial Falcão.

A Batalha do Rio Grande

Em 1989 o fato ocorreu na Bahia. Lazaroni comprou guerra com a mãe menininha e com João Ubaldo não escalando o craque Charles do Bahia. Repudiando Bobô. Foi vaiado como se jogasse em outro país. Só foi encontrar paz para vencer a Copa América em... Pernambuco na histórica vitória de 2 x 0 sobre o Paraguai. Pernambuco que também deu guarida ao combalido time de Parreira nas eliminatórias para a Copa de 94. Naquele 6 x 0 contra a Bolívia, quando o Brasil era vaiado até em minuto de silêncio.

Nem os gaúchos, nem os baianos, nem os pernambucanos deixaram de ser brasileiros por causa disso. Numa confederação, os estados tem direito a reclamar, a não gostar das artimanhas do poder central. Longe vão os tempos do império e da famigerada corte portuguesa que envenenou nosso país com o falso progresso monarquico.

Somos uma república.

Ademais, e lembrando Adoniran Barbosa, se os senhores não estão lembrados, dá licença de lembrar, quando a pátria solicitou a vida dos seus filhos em sua defesa, gauchos na fronteira e os pernambucanos em Guararapes morreram como todo mundo.

Na hora de ser pracinha, mãos no coração em respeito.

Na hora de protestar contra as injustiças, palavras de ordem!

Nem Duarte Coelho era separatista.

Mas ninguém ninguém faz futebol calado em tempos de cólera...



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