
O alvirrubro Fernando Pessoa
Por ROBERTO VIEIRA
Um rubro negro passa por mim, sorriso largo:
'Magrão!'
Ele não consegue pronunciar outra palavra, senão:
'Magrão!'
Ao me ver calmo e tranqüilo nesta manhã de segunda-feira, estranha. Desentendido me pergunta, agudo:
'Não viste Magrão?'
Eu cá me aproximo do entusiasta amigo. Parece ter sido campeão do mundo. Motivos ele tem muitos para sorrir. Copa do Brasil, caldeirão, Romerito, vitória e Magrão.
Ele me repete, cruel:
'Não viste Magrão?'
Como poderia eu deixar de ver? Eu que me encontrava na descida de Aldeia quando me veio o gol de falta tricolor e o pênalti?
Eu que imaginei o gol de Dodô. Eu que vi nos olhos do meu filho o estupor com a bola insistindo em não entrar?
A sorte é madrasta senhora nesses dias de Ilhas em festa.
Mas, calmamente, respondi que sim. Eu vira Magrão!
Meu amigo não acreditava em meu rosto que sorria.
'Eu tenho Magrão! Eu tenho Magrão!'
E foi embora murmurando aos ventos:
'Leandro Amaral! Leandro Amaral!'
Sem compreender o louco alvirrubro que ficava na distância.
Escrevo ao meu amigo rubro negro com as tintas de um português antigo. Amigo do bom vinho e das múltiplas faces da vida.
Fernando Pessoa insistia ser o poeta um fingidor...
E, pois, também o torcedor é um fingidor, semelhante ao poeta.
Pois ambos sofrem do amor impossível, esse amor concebido nas desventuras de um tempo imperfeito.
E vou colher no amigo Pessoa, a pessoa do torcedor alvirrubro nesta manhã de segunda-feira:
'O torcedor é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração'.
Fernando Pessoa, Autopsicografia
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