25 de jan de 2017



Por VALDIR APPEL, MDM

Moisés conhecido como “Xerife”, tinha poucos recursos técnicos, impunha-se pelo jogo viril e sua especialidade como zagueiro era chegar junto no adversário.
Especialista em frases e tiradas de efeito, rápido de raciocínio e ligeiro nas respostas carregadas de uma certa dose de malandragem bem carioca, seria um gênio do marketing pessoal com a mídia de hoje.
“Moises vai requerer prêmio Belfort Duarte”.
Esta frase causou impacto nos jornais, depois que Moises declarou estar cogitando receber o premio concedido ao atleta que jamais foi expulso em um jogo de futebol.
Só depois da divulgação é que caiu a ficha dos jornalistas que cobriam o Vasco, Moises já havia sido expulso sim e ao ser questionado a respeito, arrematou:
-Zagueiro que se preza não ganha Belfort Duarte!
Entre os companheiros, após a instituição do cartão amarelo e vermelho, passou a afirmar e a praticar em campo a seguinte tese:
-Na primeira oportunidade do jogo, chego junto e dou no meio do centroavante adversário, levo o cartão amarelo, porque o juiz nunca expulsa na primeira falta e depois jogo tranqüilo e na bola o restante da partida, o atacante vai ficar armando jogo lá atrás.
Zico que o diga, apesar de não pipocar levou muita porrada.
Nas horas vagas, ganhou muito dinheiro como consultor e corretor da bolsa de valores, orientando e aplicando o dinheiro dos jogadores, até a quebra da bolsa em 1971, que levou muita gente a falência.                                                                                                     
Exímio mergulhador, suas segundas feiras de folga, eram de pesca submarina, que geravam ótimas
peixadas e histórias férteis de um homem durão, que não temia cara feia e não perdoava ninguem.
Afinal, era preciso manter sua fama de homem mau.
 Conheci Moisés no Vasco da Gama e joguei algumas partidas com ele em 1971. Companheiro de zaga principalmente de Renê, com quem atuou no Bonsucesso antes da fama.
Ganhou merecidamente vários apelidos pelo seu vigor físico: Xerife, Paulada, contrapondo-se ao seu estilo calmo, elegante e consultor do mercado financeiro dos colegas, fora de campo. No auge da bolsa, em 70,  ele orientava na compra das ações.
Em 1971, quebrou a perna do atacante Jairzinho, após uma entrada mais dura no colega. O próprio Jairzinho acabou colocando panos quentes, afirmando que o zagueiro não era desleal, e tinha sido uma fatalidade. 

O ex-árbitro britânico Ken Aston foi o inventor dos cartões amarelo e vermelho, utilizados para sancionar os jogadores, e eles foram incorporados ao futebol na copa do mundo de 1970, que foi realizada no México.
No mesmo ano de 1971, Moisés costumava reunir os jogadores após a preleção do treinador, Paulo Amaral, e perguntar: Qual é o jogador mais importante do nosso adversário, hoje?
Identificado o craque adversário, Moisés decretava: Deixa comigo! Na primeira jogada eu dou bem no meio do cara, e levo o cartão amarelo. O juiz nunca expulsa na primeira falta, assim podemos jogar tranquilos, o cara já amarelou de medo e eu posso jogar sem faltas.
Com o tempo, Moisés tratou de capitalizar a fama de durão a seu favor. Costumava dizer coisas como “comigo atacante não tem colher-de-chá”, “dividiu a bola é minha”, “dentro de campo eu esqueço até que tenho mãe”. E principalmente a frase com que entrou para a história do futebol: “Zagueiro que se preza não ganha o Belfort Duarte”. Ele se referia ao tradicional prêmio conferido aos jogadores com dez anos de atividade sem expulsões.(Celso Unzelte)
Com relação ao Belfort Duarte, Moisés teve uma sacada de mestre ao comentar com um setorista de um jornal carioca que estava fazendo o pedido para receber o premio Belfort Duarte, concedido a jogadores que ficavam 10 anos sem ser expulsos de campo.
O jornalista noticiou e só se deu conta da mancada no dia seguinte, quando soube que Moises já havia sido expulso na carreira.
Ao interpelar o zagueiro, Moisés , foi enfático: Zagueiro que se preza não ganha Belfort Duarte” Frase que se imortalizou.
As segundas feiras, o Xerife reservava para os seus mergulhos e pescarias, e era ele que promovia em sua residencia o encontro da rapaziada para comemorara folga, o Dia do Atleta, como é conhecido a segunda feira dos jogadores. Com muita cerveja, pagode e saborosas feijoadas. Unia o grupo para satisfação dos técnicos, como Paulo Amaral que sabia assim, onde os seus comandados estavam.


Um comentário:

  1. Boas lembranças, narradas em texto ameno, gostoso de ler, pelo mestre Valdir. Lembro que Moisés, substituindo como treinador Valdemar Carabina em pleno campeonato, levou o Santa Cruz ao título de 1986. No ano seguinte, repetindo a sequência, foi a vez de Abel, outro ex-zagueiro de área do futebol carioca, no mesmo estilo xerife de Moisés, também na reta final da competição substituir Paulinho de Almeida e do mesmo modo ganhar o título, fazendo o Santa bicampeão estadual. Essa história cresce de interesse porque os substituídos, Paulinho de Almeida (ex-Vasco) e Valdemar Carabina (ex-Palmeiras), excelentes jogadores de defesa, jogadores técnicos, de perfil bem diferente do assumido pela dupla Moisés (ex-Vasco) e Abel (ex-Fluminense), estes "donos da área", durões, foram mandados embora quando tudo parecia perdido para o Santa Cruz, fazendo com que os recém-chegados, Moisés e Abel, os com vocação e modos de xerife, botassem ordem na casa, e a partir de uma defesa sólida num e no outro ano, baterem o rival, no caso o Sport, em decisões históricas dentro da Ilha do Retiro. Em 1986, com Moisés no comando, foi 0x0; no ano seguinte, a vez de Abel, jogo também fechado, de poucos gols, 1x1. Em ambos os jogos, o goleiro Biriguí fechou o gol de Santa, garantindo o título e permitindo ao presidente José Neves, em dois anos seguidos, fazer tremular a bandeira do Santa Cruz em pleno centro de gramado da Ilha depois de apito final nos dois jogos. José Neves passou a ser o inimigo nº 1 da torcida rubro-negra. Da dupla de xerifes, Moisés e Abel, somente Abel teve carreira vitoriosa e duradoura. Que fim levou Moisés, depois de ser campeão pelo Santa Cruz?

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