3 de ago de 2016



 ROBERTO VIEIRA

A TABELA DE SNELLEM utilizada para avaliar a função visual nos consultórios foi inventada em... 1863!

Antes era apenas a CATARATA, opacidade do cristalino, geralmente decorrente do envelhecimento – existem as cataratas congênitas, traumáticas, etiogênicas, secundárias, mas isso é outro assunto. Atualmente, tudo isso começa a mudar, devido ao avanço da ciência e ao aspecto lógico da diminuição da acuidade visual com a idade. Difícil falar que apenas a catarata interfere com a visão, quando sabemos faz tempo que existem outros vilões nessa novela.
Então, quando alguém surgiu com o pomposo nome de Síndrome da Disfunção Lenticular (DLS em inglês), não há porque não importa-lo para o mundo da CATARATA. O termo é aplicado nos casos de Cirurgia Refrativa, porém mais e mais a cirurgia de CATARATA se torna uma cirurgia refrativa. Não basta restaurar a visão do paciente, devemos restaurar a melhor visão possível para cada paciente – o que implica muitas vezes numa visão melhor daquela que o paciente teve na juventude, pois podemos corrigir o astigmatismo/miopia/hipermetropia que o paciente tinha no passado, juntamente com a cirurgia de CATARATA.
E o que seria a DLS?
DLS é um grupo de alterações provenientes da idade que acomete os olhos e interfere com a visão. Estas alterações devem ser levadas em conta na indicação cirúrgica.
E quais são elas?
Bem, primeiro temos a perda de ACOMODAÇÃO. Os olhos após os 40 anos apresentam diferença crescente entre o grau necessário para ver de perto e de longe. Tudo devido ao cansaço da musculatura ocular – isso em termos simplificados.
Depois tempos a CATARATA propriamente dita. CATARATA que traz consigo diminuição da qualidade de visão mesmo em seus estágios iniciais – ABERRAÇÕES de alta ordem, tecnicamente falando.
Por último, podemos encontrar perda da qualidade visual na RETINA, secundária a opacidade do cristalino. Uma CATARATA que no passado não seria operada, atualmente passa a ter indicação cirúrgica por dois motivos:
- Perda da qualidade de visão em um mundo onde a exigência visual se multiplicou rapidamente nos últimos anos
- Possibilidade de um resultado extraordinário no pós-operatório que não pode ser garantido com CATARATAS mais antigas, de maior densidade, onde os benefícios da correção visual com procedimentos na córnea e implante de lentes intraoculares se tornam mais complexos – eles que já são de alta complexidade mesmo com CATARATAS em estágio inicial.
Durante muitos anos, a OFTALMOLOGIA se guiou por um adágio cirúrgico antigo: O ÓTIMO É INIMIGO DO BOM!
Sinalizando que a busca da perfeição muitas vezes resultava em péssimos resultados cirúrgicos. Era uma verdade no século XX, e quem operou naquela época sabe disso. Uma verdade que era muito importante para a pessoa mais importante no ato cirúrgico: O PACIENTE.

Mas no século XXI, o velho ditado perdeu sua força. Chega de utilizar parâmetros de uma tabela inventada em 1863 – era muito legal, mas ficou pra trás com salsaparrilha e espartilhos. Em um tempo de conquistas tecnológicas espetaculares, quando o sonho de chegar em Marte vira realidade, a palavra de ordem para os oftalmologistas jovens que chegam nos blocos cirúrgicos deve ser outra:
O ÓTIMO É INIMIGO DO EXCELENTE!
Talvez uma verdade que valha para as CATARATAS e para a nossa própria vida...

Baseado no excelente artigo: Waring GO IV, Rocha KM, Durrie DS, Thompson VM. Use of dysfunctional lens syndrome grading to guide decision making in the surgical correction of presbyopia. Paper presented at: ASCRS/ASOA Symposium & Congress; May 10, 2016; New Orleans, LA.


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