6 de mai de 2016




ROBERTO VIEIRA

O Sport Club do Recife é fundado no dia 13 de maio de 1905. Pouco mais de um mês depois, no dia 22 de junho de 1905, temos anúncio assinado por Mario Sette, primeiro secretário do Sport, no jornal A PROVÍNCIA, convidando o público, em nome da diretoria de desportos terrestres rubro negra comandada por Guilherme Fonseca, para a estreia do futebol do Sport contra certo English Eleven, no antigo Pátio do Derby.
Esta é considerada a primeira partida de futebol disputada em Pernambuco e terminou em 2 x 2.
Era tempo de incertezas. Ninguém ousaria apostar que o futebol se tornaria o esporte e mania nacional após alguns anos. O Sport não cultiva apenas o futebol jogado com os pés, tanto é verdade que no dia 24 de julho de 1905 temos marcada partida de rugby entre rubro negros e combinado de ingleses – o combinado é organizado por certo Mister Oliver1.  
Os ingleses vencem por 13 x 6 sem maiores dificuldades.
Enquanto o Sport oscila entre futebol e rugby, surgem amistosos no Campo do Derby entre os times da Great Western of Brazil Railway Company e Western Telegraph Company e tudo parece que teve início neste pródigo ano de 1905. Já no ano seguinte, A PROVÍNCIA traz artigo colocando o‘Sport Club como quem introduziu nessa cidade o jogo de foot ball’.
Porém, a história do futebol pernambucano tem origem mais complexa. O dia da criação não chega por mágica, da noite pro dia. O futebol já vivia nas bocas e em algumas chuteiras.
A primeira vez que a expressão foot ball aparece nos jornais pernambucanos é no dia 27 de novembro de 1890. O artigo sobre pedagogia e os problemas na educação física faz referência a diversos jogos e exercícios, entre eles o cricket e o foot ball. O texto aparece nas páginas do Jornal de Recife.
Em 1893, surge novamente a palavra foot ball no Jornal do Recife, quando lemos a notícia do falecimento na Inglaterra do Reverendo John Suston que ‘... atirava bem , montava bem e era um excelente jogador de foot ball’.
As habilidades esportivas foram consideradas muito originais para um reverendo.
Com a virada do século, o futebol pernambucano dá seus pontapés iniciais em 1902. Convite nos jornais informa sobre disputas do novo esporte nos campos do Socorro Foot-ball Club, em Socorro, bairro de Jaboatão, cidade da região metropolitana do Recife. O convite é assinado pelo captain A. G. da Silva.
Após o impulso inicial, o Sport joga apenas três partidas entre 1905 e 1906, passando os anos de 1907 e 1908 em branco. Nesse ínterim, em 1906, o Recife Football Club discute seus estatutos na casa do vice-presidente Oscar Moreira da Silva, à estrada de João de Barros. Anuncia-se também jogo entre Brasil e Portugal, provavelmente jogo entre brasileiros e portugueses que gostavam do esporte.
Em 1907, ano em que o Sport não disputa um jogo sequer, a loja A COLÔNIA INGLEZA colocava a disposição dos fregueses ternos de brim branco e grande sortimento de calçados para foot ball.
Os calçados atuam em jogos não relatados nas folhas dos periódicos. Apenas em 1909 vemos o Sport de volta ao futebol, disputando vinte e cinco partidas até 1911, sendo que metade delas contra o Náutico.
Só que a falta de notícias nos jornais não significa necessariamente a estagnação do futebol em Pernambuco.
Em 1910, temos anuncio de reunião do Brasil Foot-ball Club, à Rua da Aurora, número 29, primeiro andar. O Olinda Foot-ball Club, presidido por Augusto Moreira também joga bola. Pros lados de Casa Forte, surge o Pernambuco Foot-ball Club. No campo de Santana, o Cruz Negra bate o Náutico por 2 x 0.
São tempos do Centro Sportivo do Peres, fundado em 15 de junho de 1909, com o nome de Tijipió Foot-ball Club. Tempos do Grêmio Sportivo de Santa Teresa do goal-keeper Marshall. Tempos do Mangabeira, Apollo, Riachuelo, Independência e Parnamirim.
O futebol não se ressente de uma Liga ou Federação para prosperar e o ano de 1911 nos traz Epitácio Gusmão e Conrado Lobo fundando o Polyanthéa Foot-ball Club. Guilherme Fonseca deixa o Sport um pouco de lado e apita Santa Teresa x Minas Geraes Foot-ball Club. Surge o Joaquim Nabuco com a experiência em seu ataque de Fellows, Tasso, Sohsten e Bittencourt enfrentando ao Torre Foot-ball Club.
Claro que o leitor sensato observa que a imensa maioria destas agremiações morreu na infância. Poucos como o Torre, fundado no dia 13 de maio de 1909, prosperou a ponto de se sagrar campeão estadual. Entretanto, é essa paixão, tomando conta do Recife e Olinda, que fará nascer o João de Barros, futuro América-PE, o Sport Club Flamengo e o Santa Cruz Foot-ball Club, todos em 1914.
Os jogos oficiais documentados são raros. A organização é pífia. Mas os times brotam do chão todos os dias. Este fato irá contribuir para que até os dias de hoje – e apesar do boicote sistemático dos grandes clubes pernambucanos – viceje um futebol suburbano de números superlativos2.
Ora, vejam só!
Os paulistas já têm campeonato organizado em 1902. Os baianos em 1905. Os cariocas em 1906.
Cadê Pernambuco?
Bem, Pernambuco foi tentando. Segundo dados do pesquisador Carlos Celso Cordeiro, em 1912 foi fundada a Liga Pernambucana de Foot Ball sob o comando de Eugênio Silva. A Liga era formada por Internacional, Minas Geraes, Riachuelo, Brazil e Peres.
A experiência durou pouco e tudo volta à estaca zero.
Em 1913, outra Liga Pernambucana de Foot Ball é formada, desta vez pelo Recife, Pernambuco, Sport Club Olindense, Olindense Foot-ball Club e Caxangá. Um esboço de campeonato chega a ser disputado, mas não se encerra seu returno.
Apenas no dia 16 de junho de 1915 é fundada a Liga Sportiva Pernambucana, à qual se filiam Peres, Torre, Flamengo, João de Barros, Coligação Sportiva Recifense e Santa Cruz. É disputado neste ano o primeiro campeonato pernambucano e, no ano seguinte, Sport e Náutico se juntam ao grupo.
Pernambuco bate o centro ao lado de mineiros e paranaenses, quatro anos adiante dos gaúchos.
Pois foi justamente na preparação do Sport para o campeonato pernambucano de 1916 que acontece o primeiro Clássico das Multidões. Os rubro negros mais experientes jogarão a Divisão B do certame, ao lado de Náutico, Paulista e Casa Forte. Os meninos tricolores, com apenas dois anos de vida, mas já com o vice-campeonato pernambucano na bagagem, estão na Divisão A, ao lado de América-PE, Peres e Flamengo.
Quinze dias antes da estreia do Sport contra o Náutico no estadual, Sport e Santa Cruz cruzam os bigodes no lendário campo do British Club, onde atualmente fica o Museu do Estado, na tarde do dia 6 de maio de 1916. Um amistoso para testar as duas equipes na reta final para o estadual.
O Sport atua com Luiz Cavalcanti; Borges e Smith; Town, Robinson e Leite; Howkey, Fontes, Briant, Smethurst e Reynolds. O Santa Cruz alinha Ilo Just; Mangabeira e Nelson; Zé Castro, Theóphilo e Manoel Pedro; Jorge Silva, Pitota, Martiniano, Alberto Campos e Américo Dória.
O futuro ídolo tricolor e catedrático de medicina, Martiniano Fernandes, tem sua chance de entrar em campo devido à ausência de outro menino bom de bola, Zé Tasso. O Sport também modifica suas linhas: Briant que terminará o ano ao lado de Paulino na defesa é escalado de center-forward.
Pois foi justamente Briant, em tarde inspirada, quem definiu o jogo com dois fortes chutes que Ilo Just não conseguiu defender – a imprensa considerando o primeiro gol perfeitamente defensável.
O futuro Clássico das Multidões também começa com polêmica. O árbitro Arruda anulando o tento de honra do Santa Cruz. Mas tanto o Clássico quanto o campeonato pernambucano haviam chegado pra ficar. Só quem não veio pra ficar foi o foot ball.
No dia 13 de fevereiro de 1921, por ocasião da realização do Grande Festival dos Chronistas Desportivos de ‘Foot Ball’, ocorre o desfile das oito agremiações pertencentes à divisão principal de nosso futebol em disputa de certame eliminatório.
É o primeiro Torneio Início de nossa história.
Melhor ainda, durante o Festival é realizado o lançamento de uma revista com fotos dos jogadores pernambucanos, humorismo e propaganda.
O nome da revista é FUTEBOL.
A revista marca a introdução na imprensa local da nacionalização dos termos técnicos esportivos.
foot ball fica no passado do nosso futebol.


  1. Também existe um Oliver na equipe de futebol da Great Western. Provavelmente a mesma pessoa.
  2. Tal futebol suburbano nos anos 30 e 40 chega a superar em torcida os números da divisão de elite do futebol pernambucano. 
* O TEXTO ABRE O LIVRO 100 ANOS DO CLÁSSICO DAS MULTIDÕES, obra de autoria de CARLOS CELSO CORDEIRO, CARLOS HENRIQUE MENESES E ROBERTO VIEIRA a ser lançado em junho/2016


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