16 de abr de 2016



POR ROBERTO VIEIRA

Apesar dos cabelos brancos, não sou da geração de Carlitos. A descoberta do Vagabundo se fez muito tempo depois, nas telas de televisão, extasiado com a graça e o refinamento de um poeta e filósofo da sétima arte. Chaplin nunca curtiu muito a ideia do cinema falado, mas esse aparente desprezo pela modernidade tem um segredo: Carlitos não precisava falar.
E em Carlitos encontramos a quintessência do homem perante o mundo gigantesco, febril e fabril que constrói fortunas e destrói coisas belas. A miséria urbana se abatendo sobre a maior parte da humanidade que não usa carruagens e mansões de luxo.
Carlitos é o ser humano em estado bruto, parodiando falsamente Rousseau. Em Carlitos, o homem é um selvagem armado apenas da inteligência e coração. O ser humano é o nada transfigurado em tudo na batalha contra a realidade opressiva e, teoricamente, sempre vencedora.
Em Carlitos, nossos melhores e mais belos sentimentos ganham luz. Somos o miserável que se apaixona pela florista cega, somos o mendigo erguendo a bandeira da liberdade e igualdade entre os homens, somos o sem teto que abriga a criança e a cria como se fosse seu único filho.
Somos o antigo soldado que desafia o nazismo e canta seu amor pela liberdade.
Chaplin também enfrentou o mundo em vida. Lutou com seu talento e magia contra as luzes da ribalta. Artista mais genial do século XX, ele ousou ser judeu sem ser para ficar do lado de seu meio-irmão. Milionário, estendeu seu talento para os que não tinham comida na recessão.
Porque Carlitos e Chaplin estavam muito além do que é direita e esquerda.
Porque Carlitos e Chaplin eram apenas e tão somente seres humanos. Com a dor e a lágrima da existência tatuadas em seu coração.

Como também o são todos os homens. De direita e de esquerda.

PS: E ele ainda era um grande compositor..


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