12 de abr de 2016






POR LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA


Escrever um livro contando a história do Náutico, ou qualquer outro livro, ainda não fazia parte dos sonhos ou dos meus doces desenganos. O ano era o de 1966. Mês de janeiro. Tempo de férias. Somente duas décadas depois, o livro de lembranças do Náutico seria publicado. O Hexa também, até então, não estava nas cogitações de ninguém, muito menos minha, simples torcedor. O Náutico era no momento tão somente – sem deixar de ser motivo de honra e alegria – tricampeão estadual. Coisa porém nada além de comum na época. Aqui ou em qualquer outra praça.

O time alvirrubro cumpria, logo depois da conquista do tri, compromissos oficiais na capital alencarina. Dois jogos, contra Fortaleza e Ceará Sporting. Pelo Torneio dos Campeões do Norte-Nordeste, patrocinado pela CBD. No dia da estréia, encontrava-me na estrada A viagem de automóvel com a família, cortando a paisagem seca do sertão, dava sequência a uma série de aventuras rodoviárias que iriam se repetir com alegria por mais alguns bons pares de anos. O carro, um Volks-65, levava o motorista, eu próprio, e mais três passageiros, uma cearense amiga da família, a mulher e o filho de pouco mais de cinco anos, timbu desde as primeiras busca de leite. No seio materno ou na tomada da mamadeira. Estrada do sertão naquele tempo, de terra batida, chão duro e seco o tempo todo. Depois do agradável pernoite no Juazeiro do padim Padre Cícero, o estradão à frente rumo à Fortaleza, quinhentos e tantos quilômetros de sol e terra seca. O leito do rio Jaquaribe sem água, a parada na cidade de Icó para o abastecimento do carro e da tripulação, que ninguém é de ferro! O tempo corria sem pressa. A visita ao museu da cidade depois do almoço para substituir a sesta e espantar o sono.

De repente, o oásis. Russas, na região do baixo Jaguaribe tinha ficado pra trás. Fortaleza já não é mais uma cidade distante. Cajueiros, cata-ventos e coqueiros compõem a animadora paisagem e são um prenúncio do litoral e um anúncio de boas vindas. Estamos em Pacajus, muitos anos depois viria saber o lugar das peraltices e dos sonhos do menino e do jovem Carlos Henrique. Como se vê, menino bem nascido. O rádio do carro está ligado há muito tempo. O locutor, bem próximo a um ataque de nervos, descreve os lances do jogo do domingo no Presidente Vargas. No calendário, 31 de janeiro de 1966. Fortaleza e Náutico fazem a primeira rodada do Pentagonal dos Campeões. Disputam ainda o torneio o Ceará, o Bahia e o Sport. Os cinco, vencedores da chave Norte-Nordeste, das sete edições da vitoriosa Taça Brasil, iniciada em 1959. O jogo entre cearenses e pernambucanos termina sem vencidos nem vencedores. Placar igual, Fortaleza 2x2 Náutico.

As viagens com a família, depois de meses de trabalho árduo, sempre rederam para mim alguns bons frutos por conta do futebol. Nem sempre coisa programada, como agora acontece nessa ida ao Ceará. Em uma das primeiras viagens, julho de 1971, mês de férias, Brasil e Argentina iriam decidir na bela e gelada capital portenha, no Monumental de Nuñez, a posse definitiva da Copa Roca. Estávamos presentes ao primeiro jogo da série, empate em 1x1. Não fazia parte do programa na saída de casa. Melhor assim. Antes, bem antes, ainda na condição de estudante, tivera o prazer de assistir a um jogo do campeonato local no mesmo palco: Ríver x Huracán. Ano de 1956. De outra feita, estando em Nova York, era maio de 1982, foi só fazer a travessia do túnel rumo a New Jersey para ver futebol. No Giant Stadium, Cosmo x Tornado. Pena que os jogadores que naquele dia vestiam a camisa branca do Cosmos já não fossem mais Pelé, Carlos Alberto, Oscar ou Marinho Chagas. Não restava no time sequer Becknebauer. O kaiser bem que dava para quebrar meu galho particular... Apenas, e era muito pouco, entre veteranos holandeses e belgas no Cosmos, somente a presença do veterano Chinaglia no papel central de prima-dona da companhia. É no outro lado do campo onde vamos encontrar dois brasileiros, jogadores porém de menor hierarquia no futebol internacional. São eles Teodoro e Zequinha. Vestiam naquele dia a camisa do Tornado Oeste.

A viagem à Fortaleza, bem antes no tempo, no início de minha aventuras, tinha um sabor especial. Porque premiada com a presença no gramado do time do coração, o velho Náutico querido de guerra.

Cheguei ao hotel noite avançada. O jogo com o Fortaleza já era coisa passada, só existia nos comentários das resenhas. Impossível ter contado com a minha presença. Mas no meio da semana, logo na quarta-feira, tinha Náutico outra vez no Presidente Vargas. Náutico x Ceará. Expectativa de um jogão. Eu não iria ficar de fora. Pela primeira vez os dois grandes rivais frente à frente depois da guerra da Taça Brasil de um ano antes, o jogo da contusão grave que afastara Salomão por um bom tempo dos gramados. Ceará x Náutico, o jogo da quarta-feira, como todo jogo de futebol, acabou com uma história para ser contada. Mas essa fica em sequência, para outro dia. Até porque, a delegação do Náutico está no Iracema Plaza, hotel onde ficarei hospedado a semana toda, indicação de um amigo antes da saída do Bonito.

Por enquanto, apenas os dados do jogo do domingo, o Náutico 2x2 Fortaleza. Ficha técnica com precisão de engenheiro, fornecida pelo companheiro Carlos Celso Cordeiro.

E a foto tirada no dia seguinte pela manhã: o treinador Dante Bianchi, no terraço do Iracema Plaza, na Praia de Iracema, cumprimenta o timbuzinho Carlos Maurício, o filho. Terraço do Iracema Plaza. Vê-se, ao fundo, o grande Bita em momento de repouso; à sua frente, o zagueirão Zequinha, sucessor de Lula, o zagueiro dos anos 50, Zequinha campeão em 60, 63-64-65, titular da Cacareco em 1959.


A ficha de Celso:

Fortaleza 2 x 2 Náutico. Data: 29/01/1966.

Competição: Torneio dos Campeões do Norte–Nordeste.


Local: Presidente Vargas – Fortaleza; Juiz: Sebastião Rufino.

Gols: Nino (2) e Luiz Martins, no 1ºT; Targino no 2ºT.
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Fortaleza: Luiz Mário (George); Mesquita, Zé Paulo, Genival e Carneiro; Ivan e Zé Augusto; Birungueta, Luiz Martins (Targino), Croinha (Facó) e Mozart. Técnico: Gilberto Carvalho.

Náutico: Lula; Gena, Mauro, Gilson Costa e Clovis; Didica (Benedito) e Ivan Brondi; Nado, Bita, Nino (Vadinho) e Lala. Técnico: Dante Bianchi.


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