28 de nov. de 2015





Fomos encontrar Fernando Pessoa tomando umas no Brasileirinha. Havia dúvidas se ele enviaria um outro ao encontro. Mas era ele mesmo. Em carne e pessoa. O dia era 29 de novembro de 1935, véspera da sua despedida do planeta Terra, há 75 anos.


BLOG: Mestre Pessoa, porque Fernando e não Antônio se nasceste no dia de Santo Antônio?

PESSOA: Nunca pensei seriamente sobre tal fato... mas deve ser porque todo poeta é um fingidor.

B: Por que a solidão?

P: Não me considero um solitário, mas a liberdade é a possibilidade de isolamento. Se não podes viver só, és um escravo.

B: Parece que estás sempre de partida, é verdade?

P: Muitas vezes devemos abandonar as roupas usadas.

B: Amaste Ofélia?

P: Para amar basta existir. Porém, refletindo nos últimos dias, compreendo que não era amor meu sentimento por Ofélia.

B: Amaste alguém em tua vida?

P: O mundo é de quem não sente.

B: Acreditas mesmo nestas palavras?

P: Tanto quanto acredito em minhas opiniões. Porque ter opinião é ser escravo, não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões do mundo é ser poeta...

Bebo mais uma dose de rum. Pessoa olha curiosamente a aguardente cubana. Calmamente, sorve o absinto.

B: Muitas vezes tu te calas...

P: O peixe e Oscar Wilde morrem pela boca.

B: Acha isso mesmo?

P: Decerto. Wilde ainda estaria aqui se não fosse sua língua.

B: Pessoa será eterno?

P: O homem é do tamanho do seu sonho. Mesmo com tal pensamento, com certeza, daqui há alguns anos, ninguém se lembrará de mim.

Fico observando a figura magra, indiferente aos escritos de José Paulo Cavalcanti.

B: Um pernambucano está escrevendo a sua biografia!

P: Espero que ele recorde que eu sou aquilo que perdi. Mande um abraço para ele...

B: A morte te assusta?

P: Não sei. Um cadáver é apenas um corpo que deixou de viver. Eu prefiro imaginar que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

B: Pra finalizar, quem é Pessoa?

Fernando aperta o sobretudo no inverno lisboeta. Um vento gélido corta o ar.

P: Eu não sou nada.

E enquanto se levanta para desaparecer na noite para sempre, conclui:

P: Apesar disso, eu tenho todos os sentimentos do mundo...


0 comentários:

Postar um comentário

Comentários