POR ROBERTO VIEIRA
-Tira a mão daí!
-Num tiro.
-Me larga!
-Num largo.
-Olha que meu marido está chegando!
-Eu com isso.
-Ele dá dois de você!
-Daí?
-Ele vai te matar de porrada!
-Por você eu morro feliz.
-Cafajeste!
-Num elogia que me derreto todo.
-Ei, agora me lembrei!
-Lembrou de que?
-Você não é o Ariclenes?
-Que Ariclenes?
-Aquele que estudava lá no Salesiano?
-Tuca?
-Ari!
-Mas Tuca, tu tá muito mudada!
-Recauchutei Arizinho.
-Tuca, cadê tuas tranças?
-Cortei! Chanel é muito melhor!
-E os teus óculos?
-Cirurgia refrativa!
-Esses lábios pintados, essa saia justa,
esse decote?
-Ficou sexy, Arizinho?
Silencio.
Arizinho se afastou deixando Tuca no cantinho
escuro do barzinho sem entender nada de nada.
Contam que vagou durante sete dias e sete
noites triste e cabisbaixo. Inconsolável.
Tuca era um sonho antigo, paixão
perdida nos corredores do tempo, última prova dos seus devaneios de juventude.
A paixão silenciosa que ele guardara tantos anos no peito. Troféu inescrutável
do que já não era.
Subitamente a realidade cruel do tempo
presente lhe deixou perplexo...

0 comentários:
Postar um comentário
Comentários