21 de dez. de 2014




POR ROBERTO VIEIRA      


-Tira a mão daí!
-Num tiro.
-Me larga!
-Num largo.
-Olha que meu marido está chegando!
-Eu com isso.
-Ele dá dois de você!
-Daí?
-Ele vai te matar de porrada!
-Por você eu morro feliz.
-Cafajeste!
-Num elogia que me derreto todo.
-Ei, agora me lembrei!
-Lembrou de que?
-Você não é o Ariclenes?
-Que Ariclenes?
-Aquele que estudava lá no Salesiano?
-Tuca?
-Ari!
-Mas Tuca, tu tá muito mudada!
-Recauchutei Arizinho.
-Tuca, cadê tuas tranças?
-Cortei! Chanel é muito melhor!  
-E os teus óculos?
-Cirurgia refrativa!
-Esses lábios pintados, essa saia justa, esse decote?
-Ficou sexy, Arizinho?

Silencio.

Arizinho se afastou deixando Tuca no cantinho escuro do barzinho sem entender nada de nada.
Contam que vagou durante sete dias e sete noites triste e cabisbaixo. Inconsolável.
Tuca era um sonho antigo, paixão perdida nos corredores do tempo, última prova dos seus devaneios de juventude. A paixão silenciosa que ele guardara tantos anos no peito. Troféu inescrutável do que já não era.

Subitamente a realidade cruel do tempo presente lhe deixou perplexo...


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