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| LUCÍDIO E MANUELZINHO |
Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM
Como se fora em um jogo de basquete, o treinador Van Gaal, da Holanda, fez mais uma das suas. Com 121 minutos de bola rolando, no último suspiro, substituiu o goleiro de sua seleção, botando o reserva para defender os pênaltis. Deu certo. Tim Krul saiu do banco para defender espetacularmente duas cobranças, levando a Holanda à semifinal, como foi visto por todos nós. Inédito e inacreditável! Na hora, pensei em Manuelzinho, goleiro do nosso futebol, que também gostava de pegar pênaltis. Ficou famoso logo no começo da carreira, com pouco mais de 20 anos, quando em memorável jogo da seleção pernambucana contra os baianos na Ilha do Retiro, num tempo em que havia o Campeonato Brasileiro de Seleções, defendeu um pênalti na goleada por 9x1. E no gol que levou, também em cobrança de pênalti, fez a defesa do mesmo modo, pena que só parcialmente, amortecendo o chute do baiano Velau, a bola mal atravessando a linha fatal. Assim era Manuelzinho, um gato debaixo dos três paus na hora de defender um pênalti. Baixinho, pouco mais de um metro e sessenta de altura, um tipo mignon, como se dizia na época. Não tinha altura para ser goleiro. Hoje seria reprovado. Tive o privilégio de tê-lo como amigo. Era uma pessoa afável, bom papo e excelente companheiro para contar e ouvir história em roda de chope na mesa de um bar. É de Lenivaldo Aragão, outro amigo bom de conversa, também amigo dele, a história que vou contar sobre Manuelzinho, narrada de tal modo que não se sabe se história verdadeira ou lenda. Mas, modelado e obediente à ordem dada certa vez pelo imortal John Ford, de Depois do Vendaval, se a lenda é mais divertida que a vida real, publique-se a lenda. Vamos, pois, a ela:
Manuelzinho, ainda imberbe, a cara cheia de espinhas, meio menino meio adolescente, era goleiro do juvenil do Rosarense de Caruaru quando foi levado como reforço para defender o time principal do Central em um amistoso contra o Colombo, em Limoeiro. Viajou na companhia de um tio, que Mãe Neném não deixava ele viajar sozinho. No jogo, Manuelzinho pegou tudo, inclusive um pênalti. Mesmo em terra estranha, com o time da casa derrotado, foi carregado nos braços pela torcida local como herói após o apito final do árbitro. Uma divindade. Ou um ser extraterrestre. À noite – tinha disso naquele tempo – a sociedade local ofereceu um baile à delegação visitante. Manuelzinho não pode comparecer. Tinha apenas 16 anos. Era de menor, o juiz da cidade não deixava ele entrar. Ficou no hotel, na companhia do tio. Lá pra tantas, quando se soube que ficara confinado no hotel, juntou gente no meio da rua, em frente ao estabelecimento, só para ver Manuelzinho. Não demorou e era uma multidão. O tio não pensou duas vezes. Organizou uma fila na calçada e a custo de dois cruzeiros – era essa a moeda da época – por pessoa, posto em estratégica posição na porta principal do hotel, foi deixando entrar os curiosos. Um de cada vez, até à sala de jantar nos fundos da casa, onde Manuelzinho, sentado em uma cadeira na cabeceira da mesa, recebia um aperto de mão ou simplesmente o olhar curioso e embevecido dos torcedores da terra. Quem não apertava a mão de Manuelzinho, tinha direito a um toque... Tratava-se de gente de carne e osso, tinham a constatação.

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