30 de out. de 2013






ROBERTO VIEIRA

Começou a escrever
para guardar em si o olhar da mulher amada
versos toscos, rudes
simplórios, até
rimavam bela com ela
rua com lua
pois nua seria muita pretensão a sua.

Fez do olhar a rima
das esquinas onde se encontravam
púlpito
súbito
delicado e impreciso
fez soneto do primeiro beijo
arpejo
quando seus lábios se encontraram no precipício de si mesmo.

Mas não era poeta, pensou
era apenas mais um louco apaixonado
perdido de amor.

Amor realizado
calou seus dedos
em segredo
guardou seus versos na escrivaninha
e tratou simplesmente de amar.

Até que um dia
cessada a chama
alguém lhe chama
quem seria?

Abriu gavetas no quarto estreito
vazio
sombrio pelo adeus da mulher amada
lá estavam a contempla-lo
folhas tímidas
sofridas
ínfimas recordações do grande amor
versos toscos
rudes, até
e uma lágrima feriu seu rosto
não mais um beijo
apenas o amargo gosto dos lábios súbitos e perdidos.

Abriu janelas
olhou a noite
sentiu na face a face fria do luar
era de lágrimas a poesia
ele agora
 era poeta

quem diria?


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