28 de out. de 2013







* Originalmente publicado na seção de cartas do Estado de S. Paulo em maio de 2007, após a Justiça ordenar a incineração da biografia de Roberto Carlos...



Por ROBERTO VIEIRA

No início era o verbo.

E o homem criou a censura.

Juntos, verbo e censura percorreram milênios até chegar aos nossos dias.

Muitas vezes a censura silenciava o verbo.

Para logo depois o verbo ressuscitar mais forte.

Faraós censuravam hieróglifos.

Rebeldes egípcios escreviam sátiras.

Quando Césares atiravam rebeldes ao Coliseu.

Cristãos redigiam o Novo Testamento.

Czares prendiam.

Tolstoi e Dostoievski criavam.

Hollywood vociferava while Chaplin filmava o Grande Ditador.

Para cada Torquemada, um Bruno.

Até mesmo o inferno de Dante alimentava-se da palavra de Virgílio.

Hoje, cidades erguem monumentos à censura.

Sob o silêncio conivente de alguns intelectuais.

Intelectuais que são as primeiras vítimas da censura.

Há muito tempo, John Milton dizia:             
.
Apenas o acesso irrestrito ao verbo pode levar o homem a distinguir certo e errado.

Porque só existe liberdade onde existe o verbo.

Lembrem!

Primeiro os nazistas queimaram O Capital de Karl Marx.


E disseram ao povo que estavam queimando o livro, pois estava repleto de mentiras bolchevistas.

Depois eles queimaram os livros de Sigmund Freud.

Para evitar que os médicos judeus penetrassem nos sonhos da juventude hitlerista.

Mais adiante, Remarque, o qual insistia que não havia nada de novo no front.

Pouco depois, era inverno, chegou à vez de Thomas Mann e sua Montanha Mágica.

Então, em maio de 1933, primavera.

Milhares de obras de escritores alemães foram queimadas em praça pública por ordem de Goebbels.

Fumando seu cachimbo, Sigmund Freud ironicamente comentou que o progresso do mundo era deveras curioso.

Na Idade Média, eles iriam me queimar.

Hoje queimam meus livros.

De livro em livro, de fogueira em fogueira.
.
Os nazistas foram destruindo cada traço de cultura dissonante.

Até que por fim só restaram eles próprios e o Mein Kampf.

Eles pereceram.

Já os livros continuaram sendo lidos e renasceram das cinzas, ainda mais belos.

Hoje em qualquer democracia podemos ler Marx, Freud, Mann e Mein Kampf.

Entretanto, de vez em quando, ecos do obscurantismo assustam os que amam as palavras.

Pareceres jurídicos tomam o lugar das antigas chamas, dando um verniz de modernidade à antiga inquisição.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano recorda que ‘ditaduras militares não queimam mais os livros. Elas o reciclam.’
.
Felizmente, a destruição de uma obra escrita será sempre uma vitória de Pirro,

Como nos revelava o filósofo Ralph Waldo Emerson.


Cada livro, ao ser queimado, ilumina o mundo.


0 comentários:

Postar um comentário

Comentários