POR LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA
Sou do tempo de "colored" nas páginas esportivas das revistas e dos jornais. Raro a legenda de uma foto de um jogador negro sem a adjetivação saxônica: colored. E não se tratava de elogio. Muito pelo contrário. O termo depreciativo alertava os leitores que ali estava uma pessoa "de cor"... Puro racismo.
Somente depois de "O Negro no Futebol Brasileiro", de Mário Filho, livro que deve ser equiparado à "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, o brasileiro, jogador de futebol ou simples cidadão, já não sendo mais o mesmo depois de um um e do outro, é que o termo colored, importado do inglês, foi saindo de circulação.
Foi quando, para sorte nossa surgiu Pelé. E com Pelé, apenas 17 anos, a Copa da Suécia. O Brasil de Pelé, Djalma Santos, Didi e Garrincha, todos ele "coloreds", até que enfim campeão do mundo!
Foi quando então Pelé passou a ser chamado de o "Crioulo Pelé". E não havia mais preconceito discursivo. Era ele assim chamado na intimidade, de crioulo, pelos seus companheiros de time, no Santos ou na Seleção. Também publicamente pelos comentaristas de rádio e da palavra escrita. Nelson Rodrigues assim o tratava com assiduidade sob a sombra das suas chuteiras imortais, o crioulo imortalizado como tal pelo seu exuberante futebol.
Foi quando crioulo deixou de ser palavra pejorativa para ser carinho. Adeus "colored", sepultado para sempre. Jogador negro bom de bola passou a ser crioulo. Um elogio, porque crioulo, o primeiro, tinha sido Pelé.
É em nome do crioulo bom de bola, em mais um 13 de maio, data que não é para ser jamais esquecida também no futebol, que transcrevo abaixo fragmento retirado de texto de Marcelo Xavier. O pequeno texto escolhido vai servir de norte para quem deseja saber mais. É uma pequena contribuição que faço para uma melhor compreensão das razões que faz do Brasil um país respeitado no mundo futebol, o Brasil pentacampeão do Mundo.
"Que o futebol é um esporte que nasceu inglês, todo mundo sabe. Que encontrou o seu berço esplêndido na terra de Iracema, todos também sabem. Que o futebol tem um padrasto genial e torcedor ululante na figura inesquecível de Mário Rodrigues Filho (1908-1966), muitos sabem, e isto é fato. Mas saber que ele foi o inventor do futebol como espetáculo épico como todos conhecem, sociólogo do esporte bretão e pai da crônica futebolística, isso poucos sabem. Para quem não sabe, vale a pena ler e conhecer a obra do escritor e filósofo da bola Mário Filho, autor de O Negro no Futebol Brasileiro, livro editado pela primeira vez em 1947, e que ganha nova edição, pela editora Murad."
"Foi a partir da questão da nacionalidade e do fetiche particular de Mário Filho pelo futebol que O Negro no Futebol Brasileiro veio à lume. O livro, escrito com um texto vigoroso, importante material histórico e de caráter épico, se tornaria referência de pesquisa da história do esporte bretão no país. Principalmente porque a bibliografia a respeito do assunto é rara e restrita, e a obra de Mário Filho é, antes de tudo, o seu mito fundador. É pelo fato de ser oriundo de um tempo em que a sociologia brasileira engatinhava (Casa Grande e Senzala, por exemplo, é de 1933) e advinha de um pensamento ora ufanista, ora pessimista (vide Afonso Celso, Nina Rodrigues ou Paulo Prado), Mário colocou a sua visão particular. Como dizem alguns, ele atribuiu ao seu livro uma aura acadêmica. Particular porque, com exceção de estudos formais sobre sociologia, em quando ele começou a escrevê-lo, não havia o que consultar, a não ser arquivos de jornais e o material que ele começava a documentar no seu revolucionário Jornal dos Sports."
Para quem desejar ler mais sobre o tema, é só entrar no site
www.rabisco.com.br/22/negrofut.htm - edição nº 22 de Rabisco, facilmente encontrável no Google.
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