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19 de mar. de 2013







Válter Leça divide com Manuelzinho e Manga as honras de maior goleiro nascido em Pernambuco. Como se isso não fosse o suficiente, Leça permanece como ícone na história do Sport Clube Bahia, cantado em prosa e verso por ninguém menos que Gilberto Gil, seu fã carteirinha.

A história de Leça no América começa ainda criança. Filho de pai inglês e mãe portuguesa, seus vinte e dois irmãos, entre os quais Jorge, Harry, Eric, Cyril e Ralph heróis do time esmeraldino campeão de 1927, sempre amaram o América. Quando os irmãos mais velhos treinavam, Leça ficava à beira do campo, doido pra participar da brincadeira. Um dia os irmãos deixaram o caçula entrar no gol. Com meia hora de treino, Leça virou a sensação da família. Os chutes vinham fortes, colocados, na cruzeta. O moleque franzino voava e defendia como se fosse a coisa mais natural desse mundo.

Virou notícia.

O América andava órfão de Djalma, goleiro da seleção pernambucana, que trocara o América pelo seu time de coração, o Náutico. Campeão pernambucano em 1944, Leça se tornou maior que Pernambuco. O Bahia não hesitou em vir buscar o paredão. E Leça brincou de ser campeão na Bahia. Em 1955, Leça já atuava no Botafogo-BA, quando foi chamado para reforçar seu ex-time, o Bahia, numa excursão a Paraíba. A pedido do técnico Dante Bianchi, o diretor de futebol do América, Amândio Fernandes, deu uma chegada em Campina Grande e propôs a volta de Leça ao antigo lar. Leça, cansado da vida de cigano, topa, retornando ao seu primeiro amor. Com o sim de Leça, Pernambuco vira território de grandes goleiros. O Sport tem Osvaldo Balisa e Manga, o Santa Cruz vem com Barbosa, vice-campeão mundial em 1950, o Náutico conta com os eternos Manuelzinho e Vicente.

Após início espetacular, Leça observa a carreira de Moacir Barbosa em Pernambuco ter fim da noite pro dia. A derrota por 6 a 3 do Santa Cruz diante do América impõe fim ao casamento do arqueiro paulista com o tricolor do Arruda. Pouco depois, chega a hora de Leça. O América perde por 7 a 3 do Náutico e Leça é acusado de ter se vendido aos alvirrubros. A diretoria multa o ídolo em 60% do salário. Leça perambula de clube em clube. Encerra sua carreira triste e abandonado, tentando vaga no Íbis, nos anos 60.

Leça permanece como a maior injustiça perpetrada na história do América Futebol Clube.

Página nunca resgatada pelos herdeiros do clube.

25 de jun. de 2012








Por ROBERTO VIEIRA



Gilberto Gil amava Leça.

Leça que defendia as cores do Bahia.

Leça lenda viva do futebol pernambucano.

Contratado a peso de ouro pelo Bahia.

Após deslumbrar os baianos no Campo da Graça.

Gil observa os céus de Salvador.

Véspera dos 70 anos.

Gil lembrava de Leça na prisão.

Cabelos raspados.

Fome.

Gil recorda o carnaval em 1960.

Bahia, campeão brasileiro de 1959.

Gil pelas ruas de Salvador no carnaval da vitória.

Gil que poderia ter fugido.

Mas preferiu acompanhar seu amigo Caetano nas masmorras.

Num dos mais belos gestos de amizade da nossa história.

Pois é.

Sob a mira dos fuzis.

Gil lembrava de Leça e do futebol.

Esotérico.

O Brasil não era o Brasil dos sonhos de Gil.

Gil foi solto e partiu para London.

Caetano chorando de saudade.

Gil curtindo Rolling Stones.

Caetano perdido em Abbey Road.

Gil descobrindo Bob Marley.

No woman no cry.

Gil quis falar com Deus.

E falou.

Nada, nada, nada, nada, nada, nada.

Do que Deus pensava escutar...


Leça