O Dia em que Jimmy Cliff Incendiou o Geraldão e Desafiou a Crônica Social
Por Roberto Vieira
Com a triste notícia do passamento de Jimmy Cliff, o mundo perde um gigante do reggae, mas a arte do jamaicano ressoa com força especial aqui no Nordeste. Rememoro hoje um evento que transcendeu a música e se tornou um marco de liberdade e polêmica no Recife: o show de Cliff ao lado de Gilberto Gil, realizado no Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães (Geraldão), em maio de 1980.
O Eletrizante Encontro de 20 Mil
A união de Gil e Cliff, dois mestres da música mundial, foi um divisor de águas, popularizando o reggae no país. Naquela quarta-feira, 28 de maio de 1980, o Geraldão recebeu uma multidão calculada em mais de 20 mil pessoas, um público que extrapolou a capacidade e as expectativas da época.
Por cerca de três horas, a dupla eletrizou a plateia com uma fusão de ritmos que celebrava a diáspora negra, mesclando o baião nordestino com a sonoridade caribenha. O show foi unanimemente descrito pela maioria da imprensa como um dos melhores do ano no país.
Havia, porém, um toque de drama que injetava ainda mais energia na apresentação: Jimmy Cliff subiu ao palco tendo acabado de receber a notícia da morte de seu pai. Em vez de se recolher, ele transformou a dor em performance, afirmando ter sentido uma energia inédita naquela noite.
A Crônica e a "Anarquia"
A intensidade do evento, no entanto, gerou reações díspares e polêmicas que hoje nos ajudam a entender o choque cultural que o reggae representava.
O colunista João Alberto, em sua coluna no Diário de Pernambuco dois dias após o show (30 de maio de 1980), registrou uma visão contrastante com o delírio popular. Em seu texto, destacou que o evento "desenvolveu-se num ambiente de verdadeira anarquia" e criticou o que classificou como "Selvagismo" no comportamento do público.
Essa reação da crônica social, focada no que via como desordem— uma referência clara à quebra de barreiras físicas e ao comportamento libertário do público—, ignorou o fenômeno cultural em curso. O fervor foi tamanho que o espetáculo foi inclusive alvo de inquérito policial na época.
O show de Jimmy Cliff e Gilberto Gil no Recife não foi apenas música; foi um ato de afirmação cultural que desafiou a ordem estabelecida e a visão de uma parcela da sociedade.
A arte de Jimmy Cliff, revolucionária e livre, é a prova de que seu impacto foi imensurável, transcendendo a música e marcando para sempre o cenário cultural de Pernambuco.


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