7 de mai. de 2021






Roberto Vieira 


Eram dias imensos de chuva. Quatro, cinco mil dias em que a chuva transformava tudo e a todos. Eram dias de silêncios, exceto o barulho da água sobre nós. Barulho de goteiras e bacias de metal sob as goteiras para evitar a inundação da casa. Quando tinha dez anos choveu toda a chuva de séculos em dez dias. As mães gritavam que não, mas nós íamos para a chuva assim mesmo.


Isso não acontecia na neorealidade das cidades. O ser humano ainda era prioritariamente do interior. As neocidades já eram chatas e previsíveis. O mato é que carregava o mistério da lama misturada com sapos, cobras, lagartos e sonhos tragados pela correnteza. Certa feita, vi um boi capturado pela enxurrada no Capibaribe. À muito custo ele se livrou e se protegeu no abrigo de duas árvores enquanto o rio levava Limoeiro pro mar.


Éramos livres? Não sei. Era liberdade condicional. Ou melhor, prisão domiciliar à noite e brincadeiras pela manhã afora. Valia construir fortes, casas, cabanas, riachos, represas, lagos e cacimbas, valia jogar bola no dilúvio. Valia ser feliz.


Sim. A felicidade era permitida, embora muitos de nós em casa fossemos infelizes, na proporção exata da infelicidade de uma criança que é sempre transitória. Toda criança precisa apenas de um pouco de chuva para subverter a infelicidade adulta e ser feliz.


Um dia, um raio desabou sobre uma árvore no pátio da feira em Limoeiro. Morreu um homem. Foi minha primeira notícia de morte. A primeira idéia de alguma coisa definitiva na vida. As chuvas por mais seculares que fossem ainda assim passavam. Fui dormir preocupado à noite. No dia seguinte não lembrava de nada, só da chuva perene.


Nesse dia, o rio transbordou e veio ter pertinho de nós. Quis partir com ele e minha mãe não deixou. Era trela além da conta. Fui convenientemente levado para casa e deixado na varanda vendo a chuva. Nesse dia, descobri David Cooperfield, ou seja, nasci. Por coincidência, à noite, a televisão recém chegada no interior passou filme sobre David Cooperfield. Era como no livro. E também havia chuva.


Após esse dia de chuva e livro, as brincadeiras continuaram, porém havia sempre a possibilidade de sentar na varanda e me deixar levar pela chuva e por algum livro. Descobri que poderia carregar a chuva e a felicidade para qualquer lugar com uma nova amiga chamada imaginação. 


E mesmo quando não chovia nem éramos digamos felizes, nós imaginavamos. Porque essa é a grande dádiva do ser humano. I... mar.. ginar.


Os dias não eram assim como hoje em dia.


Dias de chuva.


Dias sem imaginação. 


Décadas depois, já homem feito, pensador de que talvez aquelas chuvas fossem só imaginação, passava por Limoeiro num dia de chuva, não tão imensa quanto as chuvas da minha infância, quando vieram me dar a notícia. Um raio caíra no pátio da feira. Fui olhar. Lá estava a marca do céu na terra. Um homem morrera fulminado.


Lá estava a velha árvore. 


Quis dizer pras pessoas que outro raio caíra naquele mesmo lugar na minha infância, mas calei.


Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar, diriam. Tudo seria apenas fruto da minha imaginação. 


O que não deixa de ser verdade...



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