Por SÉRGIO OLIVEIRA DE MELO
“Para
viver um grande amor, mister é ser homem de uma só mulher; porque ser de
muitas, poxa! é de colher... não tem
nenhum valor”, disse Vinicius de Moraes.
Mas
o que é que acontece quando a “mulher” em questão é uma pátria?
Claro
que depende muito de cada pessoa. Para mim a primeira vez que saí do Brasil foi
a definitiva. A partir de janeiro de 1990 este brasileiro, recifense e
alvirrubro se transformou em turista em sua terra, um fenômeno com o qual ainda
não se acostumou.
Minha
saída teve tanto que ver com amor quanto com fuga. Vim para casar-me. Para
transformar em diário o prazer de estar junto à Alejandra. Mas também teve tudo
a ver com o momento brasileiro, Collor chegando ao poder, hiperinflação,
desesperança. O improvável México era minha Shangri-la.
Os
primeiros meses foram de fascinada descoberta. Como isso é melhor aqui do que
lá. Por que o Brasil não faz as coisas desse jeito? Como é que nós nunca
pensamos nisso antes? Foi assim até que a dor da saudade começou a dobrar a
esquina do suportável. Nesse momento tudo se inverteu. Por que os mexicanos não
sabem fazer as coisas direito? Bom mesmo é no Brasil. Que vontade de comer uma
feijoada!!! Quanta saudade dos Aflitos.
Pouco
a pouco o travesseiro se mostrou meu único irmão. Foi o substituto de Gilmare,
meu querido e eterno amigo tricolor, ouvido de tantos lamentos, companheiro de
tantas cachaças. Mas as lágrimas começaram a secar para voltar como tormenta a
cada vez que meu coração vencia a resistência do cérebro e colocava MPB na
“radiola”.
A
internet engatinhava. Telefonar custava uma fortuna. Notícias do Brasil, mesmo
de dos meses atrás, eram outro moído. Nesse contexto tomei um avião de
Guadalajara, minha nova Recife, para a Cidade do México. Tomo um jornal antes
de subir à bordo, coloco o jornal no revisteiro na frente da minha poltrona e
vou ao banheiro. Volto para ver que alguém tinha roubado meu jornal. Não podia
acreditar que alguém tivesse feito isso, mais ainda quando era de graça, estava
ali, na entrada do avião, por que roubar o de outra pessoa. Só para ter certeza
de que isso tinha mesmo acontecido, abro o revisteiro para encontrar não o
jornal, mas algo muito mais valioso: uma revista Veja! Dessa semana!!! Qual é a
possibilidade matemática de que um brasileiro esqueça uma revista num assento
de avião doméstico, no México, e que outro brasileiro a encontre? Às vezes Deus
tenta fazer a gente acreditar nele.
Dizem
os mexicanos que podemos nos acostumar a tudo, menos a não comer. É verdade. O
que não nos mata, nos faz mais forte. O México teve esse efeito em mim.
Paulatinamente aprendi a viver longe da família, dos amigos, da praia de Boa
Viagem e dos bares de Casa Forte. Fui entendendo que é possível alimentar-se
sem queijo de coalho, macaxeira, feijão verde e manteiga de garrafa. Quando
percebi isso, vi que eu não era mais brasileiro. Melhor dizendo, era brasileiro
sim, como sempre serei, mas também já era mexicano o que -hoje sei com certeza-
também sempre serei, talvez até mais do que brasileiro.
O
dia que a ficha caiu eu estava em Belo Horizonte. Já tinha acabado meu trabalho
no dia anterior e meu voo ao México saia de noite. Acordei tarde, tomei café e
sai para andar na rua. Andei mais de duas horas, olhando, ouvindo, vendo,
cheirando. Parei para tomar um cafezinho e não sabia se o costume era pagar
antes ou depois. Entrei numa farmácia para comprar uns óculos para ler, mas a
cara espantada da menina que me atendeu foi mais eloquente do que suas palavras
que me disseram que na farmácia não se vendem óculos. Os títulos nas bancas de revistas eram outros. E fiquei com a impressão de
que essas bancas eram menores do que as da minha época. O brasileiro lê menos?
Será? Quatro horas depois sentei numa praça para não cair. Minha cabeça girava
sem parar. Que país é esse? Cadê o meu Brasil? Não sabia se era brasileiro e
mexicano, ou nem brasileiro nem mexicano. Não deu para conter as lágrimas, como
também não deu para segura-las agora, ao lembrar o momento.
Com
o perdão do Poeta, não sei se ter mais de uma mulher, pelo menos quando essas
são pátrias, não tenha valor. Só sei que o Brasil que conheço e reconheço
encontrei de novo justamente aqui, na universalidade do Blog do Roberto, junto
com meus novos e mais que queridos amigos.
Obrigado
a todos por isso. Muito obrigado mesmo.

Profundamente confessional, esse emocionante texto do amigo Sérgio - o nosso querido Sérgio "Mexicano" - nos revela muito do conflito da sua alma binacional, dividida entre duas pátrias. Compartilhando conosco esse seu "drama" íntimo ele nos faz mais que amigos, confidentes. E se aproxima muito mais do nosso afeto.
ResponderExcluirSensacional!!!!
ResponderExcluirMuito bom. Sinto algo parecido em relação a TABIRA (minha cidade natal) e RECIFE.
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