17 de nov. de 2014




Por ROBERTO VIEIRA


O futebol pernambucano teve um pouco de aristocracia e muito de burguesia em suas origens e evolução.

Surpreso?

O torcedor tricolor talvez, porque o Santa Cruz é o clube das multidões, típico exemplo do clube proletário.

Certo?

Errado. Proletários do mundo unio-vos apenas dentro das quatro linhas do gramado. Quem manda na bola rolando é a burguesia.

O Santa Cruz foi criado por alunos que estudavam nas escolas da burguesia pernambucana. O negro Teófilo Batista de Carvalho, o popular craque Lacraia, que ajudou a fundar o clube, estudava na época para cursar Engenharia e nada tinha de proletário. Nos anos, 30, quando Aristófanes de Andrade garimpou Tará no campeonato suburbano, parte do elenco poderia ser qualificado como de oriundos da classe trabalhadora, mas muitos dos jogadores eram com certeza burgueses.

Os fundadores de Náutico, América e Sport eram originários da aristocracia açucareira, mas era na burguesia local que repousaram muitos de seus primeiros jogadores - inclusive estrangeiros residentes em Pernambuco.

O próprio Flamengo-PE, primeiro campeão estadual, era formado por gente de dinheiro, em nada ficando a dever aos alvirrubros, rubro negros e americanos. Com a derrocada da aristocracia, comerciantes locais e burguesia assumiram de vez os destinos da bola rolando. Políticos também faziam parte do grupo, como Estácio Coimbra, chefe do governo local comandando o Torre, timaço do final dos anos 20.

Novidade mesmo, apenas a chegada do Tramways subsidiado pelo capital estrangeiro na metade dos anos 30 e o formidável esquadrão do Central em 1936/7, assinando o primeiro contrato profissional em nossa terra no dia 27 de junho de 1937- o atleta Luís Zago foi o escolhido. O Central que tinha fartos recursos no comércio pujante do agreste.

Esporte iminentemente capitalista - até o Honved sabia disso - o futebol pernambucano não desmentiu a história do futebol. Com a chegada do profissionalismo, os jogadores amadores pertencentes à burguesia foram se retirando dos gramados. A classe proletária chegou ao paraíso do gol e da bola rolando. A oportunidade de ganhar dinheiro com a bola nos pés atraiu levas e levas de crianças que de outra forma estariam fadadas a miséria.

Após a II Grande Guerra e a derrocada do América, o futebol nos campos pernambucanos evoluiu com o Trio de Ferro abusando da propaganda de um clube do povo, um clube aristocrata e um outro misto das duas coisas  disputando títulos. Como se fossem clubes de natureza distinta.

Porém, após a década de 60, proletários eram quase todos em campo. Nas tribunas eram todos burgueses.

E a própria torcida, outrora dividida em sua origem, se miscigenou. As fronteiras desaparecendo com a chegada de Thorp no comando do Arruda, o aperto de mãos de Gentil Cardoso e José Porfírio no Náutico, o Batismo de Sangue de Eli do Amparo na Ilha.

Ironia do destino, seguimos o exemplo cada vez mais nítido no mundo do futebol.

O preço dos ingressos se tornou exorbitante para o proletário. Nas Arenas modernas e luxuosas. pouco espaço para quem não pertence à burguesia. Apenas os jogadores em campo representam o proletariado.

O futebol que nasceu aristocrata e evoluiu burguês relegou aos atletas o trabalho operário.

E quando conseguem um lugar ao sol.

Tudo que os jogadores desejam é serem burgueses.

Ou aristocratas da bola.







Um comentário:

  1. Do inglês ao negro - que se fez Rei - a história do futebol é também a da democratização racial (muito embora alguns "primitivos" ainda macaqueiem protestos).

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Comentários