29 de out. de 2014







POR ROBERTO VIEIRA

Sou pernambucano com orgulho, pai de Nazaré, mãe paraibana de Mogeiro de Baixo, antiga fazendola perdida no meio do estado vizinho, recanto onde passava quem se dirigia a Campina Grande. Conheço o lado confortável de ser nordestino e já vi o lado miserável e seco, esfomeado e só daqueles que convivem com a pobreza em uma das regiões mais miseráveis e medievais do planeta Terra.

Durante meus vinte e tantos anos de vida profissional, atendi como médico na região da mata e agreste de Pernambuco. 

Operei pacientes que não enxergavam -  analfabetos, envelhecidos pela pobreza, agradecidos pela sorte de serem simplesmente tratados com delicadeza. 

Pessoas que voltavam pra casa com seus colírios e mal tinham água potável para beber e tomar banho.

Quando enxergavam novamente, eram homens um pouco mais livres e menos escravos. Pois um homem livre se conhece no olhar.

Vi a chegada das águas da Barragem de Jucazinho, vi as terríveis secas dos anos 80 e 90 transformando o pouco mato verde em chão esturricado e pedregoso, cemitério de anjinhos enterrados em procissões silenciosas e tristes pelas estradas de barro e tristeza.

Nunca me senti estrangeiro nessa terra, pois essa terra trazia os olhos e sangue do meu pai e minha mãe. A única diferença era a sorte ao nascer.

Tive a oportunidade de ler, escrever, pensar e ser livre.

E é com tal liberdade garantida pela sorte, por meus pais, pelo Pai eterno e pela vida que nos garante aos 50 anos de idade a liberdade de dizer o que a gente pensa sem medo de palmatória e castigo de joelhos no milho sobre o cimento da varanda ao meio dia, que venho comentar brevemente o acontecido semana passada nas urnas dessa minha querida e amada terra.

As eleições de 2014 foram iguais as eleições de 1982, as primeiras em que pude efetivamente votar para alguma coisa aos 18 anos. Em 1982, pude ouvir coronéis no interior pernambucano e paraibano manobrando o medo dos miseráveis da terra. Ora falando que os candidatos contra a ARENA/PDS (partido da ditadura) comiam criancinhas e renegavam Jesus; ora ameaçando com a expulsão da terra pobre em que viviam, quando não com o revólver dos capangas dispostos a transformar o pensar autônomo em mais um defunto desaparecido.

Ninguém me contou. 

Vi, ouvi, tive ganas de brigar e fui apartado por meu pai. 

Assim era a realidade daqueles tempos. Uma realidade na qual as urnas eram abertas e o resultado era conhecido. Noventa e tantos por cento pro partido do governo e alguns poucos votos para a oposição. Era um espetáculo triste e deprimente quando chegavam os resultados das urnas do interior nordestino.

Inicialmente tive raiva pela pretensa covardia e ignorância. Com o tempo, tive piedade daquela gente e raiva, desprezo e rancor dos donos do poder que manipulavam com escárnio e despudor aquelas almas sem esperança.

Assim, sonhei ser de esquerda. Imaginei que a esquerda seria a solução para tal infelicidade. Pensei que a esquerda traria com o fim da miséria, a chegada triunfal da idade da razão ao campesinato nordestino.

Chegamos em 2014. As eleições do Nordeste são realizadas sob o clima de que os adversários do governo são nazistas, genocidas, monstros sanguinários que irão destruir o bolsa-família e os programas assistenciais criados nos últimos vinte anos.

Assisti as antigas almas assustadas, percorrendo o caminho das urnas e votando com medo de perderem o feijão, a farinha e o sonho que receberam como benção do governo de plantão. Não eram almas livres, não eram seres humanos votando com liberdade. 

Eram os mesmos camponeses de 1982 com receio que lhes comessem as criancinhas.

Sou pernambucano com orgulho e minha mãe é paraibana de Mogeiro de Baixo, antiga fazendola perdida no meio de um estado, recanto onde passava quem se dirigia a Campina Grande. 

O Nordeste foi sim determinante nos resultados da eleição presidencial. 

Reconhece-lo é reconhecer que o Nordeste é tão importante que pode tudo. 

Tanto quanto o sul e o sudeste.

Desconhecer o fato é desconhecer a história, a geografia e a fome narradas por Josué de Castro, escritor, pesquisador, médico, esquerdista e sem medo no coração.

Desconhecer a miséria e a servidão é o primeiro passo para não lutar pela liberdade verdadeira do homem do Nordeste. 

É assinar embaixo dos grilhões virtuais que vieram substituir capitães de mato e senhores de escravo. 

É corroborar com quem faz discursos incitando o medo e vai dormir em suítes presidenciais com seus garçons.

Sonho com um Nordeste independente, mas nunca um Nordeste independente do Brasil.  

Sonho é com um Nordeste independente dos senhores feudais. 

Um Nordeste que vote com sua mente, com seu coração e com sua inabalável coragem, transformando cada sertanejo em forte personagem Euclidiano mas com final feliz. 

Um Nordeste tão independente que assuma seu voto, seu destino e sua história. 

Um Nordeste tão independente que não tenha medo de ser irmão na federação brasileira. 

Um Nordeste altivo, livre e desgarrado dos 'coroné' que manipulam palavras, promessas e futuro.

Um Nordeste tão independente que não precise de políticos.

Um Nordeste tão independente que não precise reafirmar sua liberdade de 4 em 4 anos por um prato de comida.

Porque um homem livre se conhece apenas por seu olhar...


2 comentários:

  1. BABOSEIRA..OS CACIQUES DE SP SÃO OS MESMOS HA DECADAS E NINGUEM DIZ QUE SÃO CORONEIS..IDEM OS DITADORES DO SUL CAUDILHO MAS VC É O TIPO COMPLEXADO..TÃO COMPLEXADO QUE ATÉ SENDO FILHO DO ESTADO VIZINHO SE DIZ PERNAMBACA; ORA SE CADA ESTADO DO NE FOSSE UM PAÍS E EXISTISSE O CEARENSE ETNICO, ETC E SE VC FOSSE FILHO DE CEARENSE MAS NASCIDO EM PE JA RENEGARIA O CE?..SÓ POR AI JA SE VE O TIPO..ENTÃO OS CACIQUES MERIDIONAIS SÃO MENOS MEDIEVAIS MESMO COM SEU R DE ROÇA SÓ POR QUE VESTEM GRAVATAS?..ORA OS DO NE TAMBEM VESTEM..TEU CASO É COMPLEXO DA CIA E DOS CARTEIS ALOGENOS, UM MERO AGENTE REPETIDOR DE SEMPRE..QUEM ROUBOU MAIS O NE UM SARNEY QUE LEVA FARELOS OU UM DEFICIT IMPOSTO IMENSO HA DECADAS?..QUASE 2 SECULOS DE GOLPES?

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