29 de out. de 2014




Das mais brilhantes, e jovens, mentes que conheço.

Mestre Bruno me fez parar e parar e pensar com este texto imperdível...



Por BRUNO LOPES TOMAZ, MDM



No livro VIII da Ética à Nicômago, Aristóteles observa: “Amizade é muito necessária para a vida. Pois sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo se tivesse todas as outras necessidades supridas”. Por amizade (em grego,philia) Aristóteles compreende um amor que não é (necessariamente) erótico ou romântico. Fazendo distinções entre amizades que miram a utilidade, o prazer e o bem, a apresentação da amizade na Ética a Nicômago deve ser entendida sob a luz da arete – excelência humana – eeudaimonia – felicidade. Ninguém escolheria viver sem amizade porque é ela quem permite o florescer da excelência e da felicidade.

Intrínseca às relações sociais mais básicas (entre membros de uma família, vizinhos e amigos), a amizade é o meio através do qual o mundo fora do ego é pela primeira vez conhecido por um indivíduo, que eventualmente virá a ser um cidadão. De acordo com Aristóteles, a amizade – que enobrece a existência e ensina a virtude – é de fato um modelo ideal para uma comunidade política. No diálogo Lysis, Platão dá mostras de como a amizade é levada a sério ao sugerir que ela alimenta a coesão social e que é um emblema do que uma comunidade política deve tentar se tornar. Para Aristóteles e seus sucessores, a noção de amizade é a base indispensável de uma boa sociedade. Ambas amizade e política foram pensadas enquanto desenvolvedoras das potencialidades humanas, e por isso elas são naturalmente conectadas.

As cidades-estado gregas buscavam emular uma perfeita comunidade de amigos, mas só conseguia fazê-lo até certo limite. A política existe para arbitrar e instruir a execução da justiça. A amizade está em outro nível. Segundo Aristóteles, “Se as pessoas são amigas, elas não precisam de justiça.” Em uma perfeita comunidade de amigos, não há necessidade de um órgão externo para resolver disputas, pois a própria amizade resolveria o conflito. Reconhecendo que a amizade perfeita não pode ser simplesmente alcançada entre todos os homens em todos os momentos, a comunidade política tenta se adequar ao ideal da amizade ao mesmo tempo que fornece garantias institucionais de justiça. É porque os antigos entendiam que a política é uma atividade essencialmente imperfeita que as grandes amizades eram pensadas como modelo e essência da política. É a política que faz o homem deixar de meramente sobreviver e passar a viver bem.
As considerações sobre amizade continuaram a moldar a política através da idade média até o renascimento francês. A amizade era entendida como a forma do humano pertencer a uma comunidade política.

Em uma visão existencial, a amizade salva os indivíduos da obscuridade subjetiva. Diante de uma vasta abstração da humanidade, a amizade oferece uma libertação do anonimato, uma fuga do solipsismo, uma lição precisa do que significa ser humano. O íntimo conhecimento dos pensamentos, experiências e desejos de alguém permitem uma pessoa conhecer o mundo fora dela mesma. Testemunhando – e amando – a vida particular de cada um, nós reconhecemos e preservamos a memória de nossa individualidade. Mesmo o menos glamoroso entre nós não precisa temer morrer no anonimato, pois seu círculo de amigos o irá socorrer.

A sentimento de amizade, assim como todas as outras experiências de amor, não são controladas por razões desinteressadas. A amizade nasce de uma parcialidade que está para além dos limites da escolha. É óbvio que podemos articular razões para preferir nossos amigos: eles podem ser especialmente doces, divertidos, leais, etc. Ainda assim, apesar dessas características inspirarem ou reafirmarem a amizade, nos não amamos todas as pessoas que personificam esses critérios. Da mesma forma, nós até podemos não gostar de indivíduos que possuem essas características em degrau mais elevado que nossos amigos. Ninguém simplesmente troca de amigo porque outra pessoa é mais divertida ou inteligente. Em certas ocasiões, a amizade pode até nos fazer defender nossos amigos mesmo que eles tenham isso injustos. As vezes o seu amigo partiu o coração de alguém ou arrumou briga em um boteco, mas independente da circunstância você está ali para ele. Amizade é devoção e não razão. Envolve lealdade e não racionalidade. Por isso, a amizade cria um sentimento de pertencer, e esse sentimento não é facilmente esquecido ou deixado de lado. Por exemplo, não existe ex-irmão.

Paradoxalmente, reconhecer a função da coincidência em reunir os amigos enfatiza e intensifica essa sensação de pertença. Aconteceu de vivermos no mesmo lugar, de frequentarmos a mesma escola, ou de estarmos sentados sozinhos no mesmo boteco ou no mesmo ponto de ônibus, você lendo um livro que por acaso eu li antes e adorei, e que se transforma no assunto de nossa conversa. A fraternidade é um laço baseado em uma intensa relação interpessoal. Os contornos da minha existência – espaciais, linguísticos, emocionais, intelectuais, etc – me fazem perceber que eu pertenço aos meus amigos na mesma medida que eles a mim pertencem. Ninguém tem tempo suficiente ou popularidade universal para se tornar amigos de todos. A amizade é exclusiva e cheia de preconceitos. É uma forma de separar alguns e colocá-los acima dos outros, um modo particular de aristocracia.

Tudo isso – a particularidade dos seres, as coincidências entre os seres e, especialmente, o conforto da lealdade e do respeito – produzem um sentimento de pertença, a sensação de que alguém está seguro, em casa, que é compreendido. Ela não alimenta o corpo, mas conforta a alma. A amizade situa o homem na sociedade, lhe dá um ponto de entrada na comunidade política.

Em oposição à idade média e o mundo grego, a filosofia política liberal tem muito pouco a dizer sobre a amizade. Kant se refere a ela como um “valor não-moral.’ Para Locke, a amizade é no máximo um contrato. Quando a filosofia iluminista identifica a unidade fundamental da sociedade como o discreto, racional e autossuficiente indivíduo que deve ser emancipado dos desnecessários empecilhos à sua autonomia, a relação do homem com a comunidade política mudou de forma irrevogável. O estado não mais é responsável por formar bons cidadãos, mas por proteger a vida, liberdade e propriedade. O primeiro objetivo do estado moderno é estabelecer as condições onde os direitos de propriedade podem florescer. De forma a otimizar a liberdade individual, o poder coercitivo do estado não pode se intrometer em assuntos pessoais; o público e o privado foram desagregados. O privado foi convertido em propriedade inviolável da subjetividade, reconhecida e elevada a condição sacrossanta: o indivíduo. “Nossa liberdade termina quando começa a dos outros.” Segundo esta definição, portanto, é impossível compartilhar liberdades. Estabelece-se o egocentrismo e a subjetividade como o fundamento da humanidade.

De acordo com esse modelo, a amizade – um amor que já funcionou para estabelecer coesão entre o público e o privado – se transformou em um assunto puramente privado, mais um contrato social que uma pessoa pode ter se assim desejar. O sentimento de pertença assim se deslocou para a santidade privada das relações interpessoais. Quando o cultivo da virtude desaparece e surge o mundo privado, a amizade como veículo da virtude e do bem vai logo atrás. O resultado dessa dissociação é a impossibilidade de pertencer a uma comunidade política e o nascimento do patriotismo.

O divórcio da amizade com a política é o responsável pelo nascimento do patriotismo, da devoção ideológica. Esta tenta fazer com que os indivíduos pertençam à comunidade política, ensinando que a liberdade é possível apenas quando o humano age enquanto parte de um todo, e que o bem da parte depende do bem do todo. Antes, o humano percebia isto através da amizade, que concretamente mostra ao humano como sua vida e seus interesses podem ser realizados cuidando de seu amigo, de outro cidadão. Agora, os indivíduos são convidados a amar uma abstração: um país, uma nação.

Mas a amizade, assim como todas as outras formas de amor, quer reciprocidade. Nós podemos amar a pátria, mas ela não nos ama de volta. Na melhor das hipóteses, ela fornece um palco onde a liberdade humana é realizada. Sem amizade cívica, a comunidade política patriótica tem problemas em engendrar o sentimento de pertença e em enobrecer a vida dos cidadãos. Nos dias de hoje, há dúvidas sobre o poder da amizade e do amor e o resultado é uma saudade daquele chão comum que há muito desapareceu – nós chamamos de raízes. O amor de uma só via do patriotismo é incapaz de superar essa perda. Quando dissociou amizade e política, a política moderna privou-se de aproveitar o que a amizade oferece: confiança, generosidade e, acima de tudo, o sentimento de pertencer a um grupo.


4 comentários:

  1. O Bruno Lopes Tomaz, mais do que uma mente brilhante, é um autêntico filósofo. Um Humanista que abrilhanta este espaço com suas intervenções. E nos honra com sua amizade, ainda que virtual, à prova de eventuais divergências, no caso mais eleitorais do que políticas.

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  2. São vocês que me honram com a atenção e as palavras, mestres. Escrevi esse texto porque já via casos de pessoas deixando de ser amigas por causa de toda a tensão causada pelo processo eleitoral.e entendo que isso é sintoma de algo muito grave. Um abraço enorme para vocês!

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  3. Muito bem escrito.Uma excelente reflexão sobre a convivência pacífica entre pessoas com opiniões divergentes.Amizade acima de tudo.
    Tive exemplos,na família e entre amigos,de discussões que geraram desconforto nessas relações nessas últimas eleições.Enviei para todos eles esse post.
    Parabéns,Bruno.

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  4. Bruno, um dos professores com a mente mais brilhante que já tive.

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Comentários