Por LENIVALDO ARAGÃO, MDM
Os pernambucanos ainda lamentam a perda do ex-governador do Estado e candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, mas a vida no Estado já retornou à normalidade. Tanto que dois filhos seus, Pedro Henrique e José Henrique, este, de 9 anos, estavam nessa quarta-feira 20, na Arena Pernambuco, vendo o Sport derrotar o Palmeiras por 2 x 1.
Nesta quinta-feira, a partir de 19 horas, a Assembleia Legislativa de Pernambuco viverá um momento importante para a crônica esportiva estadual. Trata-se do lançamento do livro “Mestre da Bola no Ar”, contando a história do comentarista esportivo Luís Cavalcante, baiano, há muito tempo radicado no Recife. O autor é o jornalista Jota Alcides, cearense de Juazeiro do Norte, que mora em Brasília, e que atuou no jornalismo de Pernambuco, tendo sido editor-geral do Jornal do Commercio.
Nesta quinta-feira, a partir de 19 horas, a Assembleia Legislativa de Pernambuco viverá um momento importante para a crônica esportiva estadual. Trata-se do lançamento do livro “Mestre da Bola no Ar”, contando a história do comentarista esportivo Luís Cavalcante, baiano, há muito tempo radicado no Recife. O autor é o jornalista Jota Alcides, cearense de Juazeiro do Norte, que mora em Brasília, e que atuou no jornalismo de Pernambuco, tendo sido editor-geral do Jornal do Commercio.
Aproveitamos o momento para trazer aos interessados uma entrevista concedida por Cavalcante a Lenivaldo Aragão, que já foi publicada pela revista Clássico:
Como foi sua trajetória profissional?
Comecei na Rádio Cultura de Ilhéus, passei pela Rádio Sociedade, em Salvador, vim para a Rádio Olinda, em 1955, fui para a Rádio Clube em 1958. Lá formei uma nova equipe, com uma meninada que tinha você, Wagner Mendes, Uiraquitã Lima e Estanislau Oliveira. Diziam que era o jardim de infância de Luís Cavalcante. Foi sucesso de audiência. Em 59 fui pra São Paulo. Passei um ano, mais ou menos, na Panamericana (atual Jovem Pan), voltei em 60 pra Rádio Olinda. Em 62 venderam a rádio e eu fui embora pra Rádio Assunção, do Ceará. Voltei em 63 e daí por diante não saí mais daqui. Decidi: “Não saio. Fico aqui, empregado ou desempregado, em rádio, fora de rádio, morador de rua, seja lá o que for.” Até hoje estou por aqui.
O baiano virou pernambucano...
Na verdade, eu nunca me considerei muito baiano. Sempre fui fixado em Ilhéus, ou seja, sou ilheense. O ilheense, na minha geração, pelo menos, pensava em se emancipar. Naquele tempo a Bahia não tinha ainda o petróleo. A região cacaueira – Ilhéus era o centro – produzia sessenta por cento da renda estadual. Assim, praticamente carregou a Bahia nas costas, um Estado daquele tamanho. Então, o ilheense sempre foi pautado pra ser ilheense. Um negócio curioso, a gente conversando, em Ilhéus, alguém perguntava: “Cadê fulano?” “Ele viajou pra Bahia”, respondia alguém. O cara tinha ido pra Salvador. Mas eu vim pra cá e aqui sou benemérito da ACDP, da Federação Pernambucana de Futebol, sou cidadão pernambucano, cidadão recifense, e tenho um monte de títulos. De maneira que tudo isso vale muito mais do que uma certidão de nascimento.
Você é festejadíssimo. Nos estádios sempre é procurado para posar ao lado de alguém que quer colocar no álbum uma foto sua. Como é conviver com a fama e o prestígio?
Quando cheguei aqui, em 1955, o campeonato do cinqüentenário do Sport era uma guerra. Pensei logo: por que vou procurar um clube pra torcer? Não vou torcer por clube nenhum. Eu, cronista esportivo, vou ter que ser um cara independente. Será muito mais fácil manter essa independência, se eu não torcer por clube nenhum. Eu, cronista esportivo, vou ter que ser um cara independente. Será muito mais fácil manter essa independência, seu em não torcer por ninguém. Apesar disso, durante muito tempo, quando eu chegava na torcida do Sport, por exemplo, o cara gritava de lá: “Tricolor!” Já para o pessoal do Santa Cruz eu era rubro-negro. Mas hoje não fazem isso mais. Um dos meus objetivos aqui era passar pelo meio de todas as torcidas e ter o respeito, a admiração, a amizade e o carinho de todas elas. E isso foi uma das minhas conquistas por aqui, se é que eu posso dizer assim. Vou à Ilha do Retiro, aos Aflitos, ao Arruda, entro no meio da torcida, os caras vêm, trazem os meninos. Isso pra mim é uma alegria muito grande.
Voltando a falar de Ilhéus, seu berço, aquela região serviu de inspiração para o escritor Jorge Amado, nascido em Itabuna, cidade vizinha, escrever romances e criar personagens, como Gabriela, Cravo e Canela, que, depois do livro foi para a tevê e para o cinema, com muito sucesso. Você chegou a conhecer alguma daquelas figuras?
Conheci e convivi com muitos. Gabriela, na verdade, era dona Lourdes, e o árabe Nacib era Maron. Não só aqueles personagens de Gabriela, mas de outras histórias, como São Jorge dos Ilhéus, Cacau e Suor, País do Carnaval. Por coincidência, no pouco tempo que morei em Salvador, convivi com pessoas que mais tarde viraram figuras de Dona Flor e Seus Dois Maridos. O árabe Maron tinha o Bar e Restaurante Triunfo, que era ponto nosso. Maron, inclusive, vivia com a gente. Eu conhecia todo o mundo.
Foi, sem dúvida, um privilégio essa convivência...
Acho que sim. Às vezes eu penso, mas rapaz, conheci aquele pessoal todo... Quando nós conhecemos dona Lourdes, que se transformou em Gabriela, ela já era gorda, mas chefiava a cozinha do restaurante, que era muito concorrido. Ela tinha uma equipe, mas todo dia ia lá, Só se servia a comida após ela experimentar para ver se realmente estava no ponto. Com isso, enquanto estive lá, o restaurante era lotadíssimo.
Sempre quis ser locutor ou a profissão entrou na sua vida por acaso?
Por acaso. Agora, sempre fui ligado em rádio, sempre fui um ouvinte doente. Em 1938 eu tinha oito anos, meu pai me levou para a casa de um amigo dele, Jaime Veloso, que tinha um rádio mais possante do que o nosso, para a gente ouvir a Copa do Mundo. Mas era uma graça, o som ia e voltava, uma grande chiadeira. A única coisa que me marcou naquela copa, eu era criança ainda, é que no intervalo, em vez de comentarista, o locutor do estúdio anunciava: “Enquanto aguardamos o início do segundo tempo, vamos ao suplemento musical.” Um suplemento musical esperando o reinício do jogo porque não havia comentarista. Naquela época eu estaria desempregado.
Como foi a entrada no rádio?
Em 1952 estudava à noite, na Escola Técnica de Comércio de Ilhéus. Eu e Fernando Costa Lino, irmão de Djalma Costa Lino, que mais tarde seria locutor na Rádio Sociedade da Bahia. É curiosa essa história. Quando a Rádio Cultura de Ilhéus resolveu transmitir futebol, levou para lá Luiz Viana, na verdade, Luiz Prisco Viana, que depois foi deputado e secretário de Estado, como Prisco Viana. Ele chegou na Bahia, vindo da Rádio Sul Fluminense, de Barra Mansa (RJ). Naquele tempo era comum se transmitir em dupla, sistema criado pela Rádio Nacional, com Antônio Cordeiro (radialista pernambucano radicado no Rio de Janeiro) e Jorge Cury. Luiz estava sozinho. Abriu teste lá, Fernando foi, me chamou e eu não fui. Ele passou e ficou lá. Por que Fernando foi? É que nós tínhamos uma brincadeira na escola, de fazer um jogo de imaginação. Ficávamos fazendo um Fla-Flu. Eu era Jorge Cury, ele Antônio Cordeiro, aí a gente fechava. Deu suspensão de classe porque a turma ia pra vibração, pois a gente fazia um jogo mesmo, pra valer. Fernando passou no teste e ficou na rádio. Eu não fui, com receio. Não areditava que pudesse entrar em rádio. Depois, Viana foi embora pro Rio de Janeiro, e Fernando ficou sozinho. Ele era sócio de uma joalheria, com um primo. Convidou-me para ajudá-lo, dizendo que eu iria apenas comentar o jogo. “Estou sozinho, você não vai transmitir não, vai ficar ao meu lado.” Fui, ele aí me anunciou. Eu peguei o microfone, me deu um nó na goela, não saiu nada. Não tinha cabine, era no meio do povo. O chão fugiu dos meus pés. Que vexame! O povo olhando pra mim com arde riso. Aí eu disse ora ele que ia narrar. Ele me deu uma deixa e eu entrei. Comecei em rádio narrando um jogo de futebol em dupla com Fernando Costa Lino. Narrei o jogo todo.
Estava dado o primeiro passo
Pois é, na segunda-feira passei na joalheria de Fernando e ele me disse: “Assef (Robert Assef, dono da Rádio Cultura) quer falar com você. “Fernando, o que houve?” – perguntei. “Ele gostou da sua narração, vá lá.” Fui, e Assef perguntou se eu já havia trabalhado em rádio, se tinha prática de autofalante, alguma coisa. Eu disse que microfone comigo tinha sido a primeira vez. Ele me disse: “Olha, a situação aqui na rádio não está boa, estamos em dificuldades financeiras – essa conversa ouço até hoje –, mas vamos fazer o seguinte: você transmite com Fernando no domingo, e na segunda-feira passa aqui.” Passeie tinha 50 cruzeiros pra mim. Eu já era casado, morava na Rua da Jaqueira, pagava 200 cruzeiros ou 200 mil réis por mês. Quatro jogos por mês, estava garantido o aluguel. Mandei bala. Depois de uns seis meses ele me chamou – eu trabalhava como escriturário nas Docas de Ilhéus – e perguntou eu ganhava. Eu disse. Ele juntou as duas coisas e me fez proposta para ficar apenas trabalhando na rádio. Aceitei e seis meses depois, ele me entregou a gerência de programação. Naquele tempo, esse cargo tinha o nome pomposo de diretor de broadcasting. Trabalhei quase três anos e meio lá, saí e fiz o percurso Sociedade – Olinda.
Certamente, você vivenciou muito fato interessante em Pernambuco. Lembra-se de algum?
Certamente, você vivenciou muito fato interessante em Pernambuco. Lembra-se de algum?
Quando eu cheguei aqui, o Santa Cruz não tinha estádio, jogava nos estádios dos outros. Tudo era no casarão da Avenida Beberibe. Ali era a sede social e administrativa, e a concentração. Tinha um barzinho, e dez vez em quando eu ia lá com Sinésio Santa Clara (antigo cronista esportivo), meu amigo, que já está lá em cima. Um dia nós estávamos tomando uma cervejinha, Sinésio, que era tricolor, foi ao escritório e voltou exultante, com um canudo de papel na mão. Eu abri, estava lá o projeto de um estádio. Eu olhei, olhei, ele vibrando, eu perguntei que estádio era aquele. “É o estádio do Santa Cruz”, respondeu Sinésio. O Santa Cruz só tinha o terreno, desapropriado pelo dr. José do Rego Maciel. Eu perguntei: “Você conhece esse arquiteto? Esse cara (arquiteto Reginaldo Esteves) é bom de cabeça?” “Por quê, Cavalcante?” “Quando é que o Santa Cruz vai construir esse estádio, aqui?” Naquela época, a imagem do Santa Cruz era a de um clube pobre. E o projeto que estava no papel era exatamente esse que está construído. E eu acompanhei toda a construção, todo esse trabalho.
Algum jogo está na sua memória?
Muitos, mas quero me referir a um, especificamente. No Campeonato Brasileiro de Seleções, de 1956, tivemos que enfrentar os gaúchos. Nós ganhamos aqui e fomos fazer o jogo de volta em Porto Alegre. Fiquei hospedado no Hotel São Luís, na Avenida Farrapos, caminho do aeroporto. Na segunda partida levamos cinco a um. Foi aquela zona, os caras do hotel gozando. Fomos para o terceiro jogo, no mesmo estádio onde foi disputado o segundo, de acordo com o regulamento daquela época. Era o Estádio dos Eucaliptos, que só tinha o nome. Era um pardieiro. O estádio que havia em Porto Alegre era o Olímpico, que estava em construção, ainda pela metade. No outro dia após a goleada teve um jornal que botou: “Jogando meta de seu futebol, gaúchos golearam pernambucanos por 5 a 1.” Eu raciocinei “se jogar tudo, vai ser de dez.” Na hora em que saíamos para ir pro estádio, os caras do hotel diziam que levássemos um saco pra trazer cheio de ‘golos’. Ou seja, perderam o respeito. Ganhamos o jogo, mas foi tumultuado. Caiu uma pilha de caixa de cervejas por trás da arquibancada, houve pânico, e a torcida correu, passando por cima do alambrado, como se fosse de papel. Interrompeu-se o jogo, e nós já estávamos ganhando. Ainda me lembro, gols de Traçaia e Zequinha. Nós, cronistas de Pernambuco, pegamos Rubem Moreira, que era novo ainda na federação, dizendo-lhe que o jogo teria que acabar. Que se evacuasse o campo e se limpasse tudo, mas não se podia deixar para outro dia não, que o negócio ficaria ruim. Dissemos a Rubem que ficaria difícil até pra ele voltar pro Recife. Rubem foi lá e resolveu a parada. O jogo terminou, eles ainda fizeram um gol, mas Pernambuco venceu por 2 a 1. Eu estava com Renato Silva. Nós dois fizemos uma união Olinda/Jornal. Quando chegamos no hotel não tinha ninguém. Não tinha porteiro, não tinha ascensorista. Resolvemos ir ao bar do hotel. Entramos, não havia ninguém. Abrimos a geladeira, entupida de cerveja, um recipiente de vidro estava cheio de cerveja, o diabo. No final de tudo não tinha ninguém pra cobrar. Saímos de lá e fomos embora. Nos vingamos dos garçons, bebendo e comendo sem pagar nada.
O relacionamento do cronista esportivo com dirigentes e jogadores mudou?
Em tudo na vida sempre há mudanças. O que há de se estranhar, hoje em dia, é o tal treino privado, que não é nem privado nem secreto; é escondido, ou melhor dizendo, um treino em que não há nada a mostrar. De certa forma, o relacionamento da imprensa, com os clubes e a FPF, não chega a ser ruim. Pode haver uma divergência aqui ou ali, mas no todo não chega a ser ruim.
Neste aspecto você sempre esteve acima do bem e do mal em Pernambuco, não é mesmo?
Exatamente por não ter muita aproximação. Não sou muito de estar na casa deles ou no clube. Minha aproximação é só aquela necessária ou ocasional. Sempre respeitei todos eles. Tanto que entre os grandes cartolas de Pernambuco, os grandes dirigentes do futebol pernambucano, alguns foram meus amigos, de me chamarem para ouvir opinião. Eu me recordo, por exemplo, de Zé Porfírio, do Náutico. Um dia eu estava na Rádio Olinda, chegou seu compadre Morvan Dantas, dizendo que ele queria falar comigo urgentemente. Era lá dentro do Recife (o Recife Antigo), na sede do Banorte, e eu fui. Isso foi em 1960. Ele botou na minha frente uma relação. O Náutico estava bem no campeonato, mas o técnico terminou contrato e fez uma espécie de chantagem para renovar. E Porfírio, como não era de ceder a esse tipo de pressão, deixou- ir embora. Era o uruguaio Ricardo Diez. Aquela relação tinha oito nomes de treinadores, e Porfírio me pediu uma sugestão. “Desses aqui quem você traria para treinar o Náutico?” Eu respondi: “Não vou lhe dizer não porque o nome que eu disser aqui você não vai trazer.” Ele disse: “Já sei, Gentil Cardoso, não é?” “É”, respondi. “Acho que desses nomes aqui, o único que poderia solucionar o problema do Náutico, neste momento, seria Gentil Cardoso.” Ele disse: “Se você me ajudar e me apoiar, eu trago.” Eu disse: “Apoio total e irrestrito pra qualquer coisa.” Ele trouxe Gentil e o Náutico foi campeão. Para quem não sabe do que estou falando, aquilo foi um tiro de misericórdia numa das manchas que o Náutico tinha na sua história, que era o racismo, o preconceito de cor. Negro não entrava nem na torcida, muito menos no clube ou na equipe. Isso foi importante porque, realmente, hoje o Náutico é esse clube de todas as cores. Mas tinha muita gente que gostava do Náutico e não podia torcer. Às vezes, não era nem negro, era moreno. E eu tenho a satisfação de ter ajudado Porfírio a trazer Gentil Cardoso e de ter tido sorte porque o fato de o Náutico ter sido campeão com Gentil favoreceu muito a queda do racismo. Ele era recifense da Torre e se denominava o Moço Preto. Gentil era chegado a frases de efeito, como “vai dar zebra”, referindo-se à Portuguesa Carioca, time que ele treinava, na ocasião e que, como a zebra, que não figura entre os 25 animais do jogo do bicho, não estava cotado entre os que poderiam se destacar no Campeonato Carioca...
Quando ele treinava o Santa Cruz, nós fazíamos um programa aos sábados, na Rádio Clube, a tarde inteira. Uma vez eu fui à concentração bater um papo com Gentil. Perguntei: “Qual é o time para amanhã?” Ele disse: “Isso só amanhã é que vou saber porque esta noite eu me concentrarei e pedirei inspiração às forças da Divina Providência, e aí saberei qual o time que devo escalar para esse jogo.”
Certa vez Jorge Tasso (ex-repórter esportivo e mais tarde delegado de polícia) perguntou: “Gentil, como está vendo o jogo?” “Ah, eu estou aqui, de óculos Ray ban. Pra mim ta tudo verde.” As frases dele ainda estão por aí – quem desloca recebe, quem pede tem preferência; meu filho, bota a bola no chão porque no chão ela descreve uma linha reta, e a linha reta é a menor distância entre dois pontos; ou, na hora do aperto bota a bola pra cima porque enquanto ela sobe,a gente arruma a casa aqui embaixo.
Exatamente por não ter muita aproximação. Não sou muito de estar na casa deles ou no clube. Minha aproximação é só aquela necessária ou ocasional. Sempre respeitei todos eles. Tanto que entre os grandes cartolas de Pernambuco, os grandes dirigentes do futebol pernambucano, alguns foram meus amigos, de me chamarem para ouvir opinião. Eu me recordo, por exemplo, de Zé Porfírio, do Náutico. Um dia eu estava na Rádio Olinda, chegou seu compadre Morvan Dantas, dizendo que ele queria falar comigo urgentemente. Era lá dentro do Recife (o Recife Antigo), na sede do Banorte, e eu fui. Isso foi em 1960. Ele botou na minha frente uma relação. O Náutico estava bem no campeonato, mas o técnico terminou contrato e fez uma espécie de chantagem para renovar. E Porfírio, como não era de ceder a esse tipo de pressão, deixou- ir embora. Era o uruguaio Ricardo Diez. Aquela relação tinha oito nomes de treinadores, e Porfírio me pediu uma sugestão. “Desses aqui quem você traria para treinar o Náutico?” Eu respondi: “Não vou lhe dizer não porque o nome que eu disser aqui você não vai trazer.” Ele disse: “Já sei, Gentil Cardoso, não é?” “É”, respondi. “Acho que desses nomes aqui, o único que poderia solucionar o problema do Náutico, neste momento, seria Gentil Cardoso.” Ele disse: “Se você me ajudar e me apoiar, eu trago.” Eu disse: “Apoio total e irrestrito pra qualquer coisa.” Ele trouxe Gentil e o Náutico foi campeão. Para quem não sabe do que estou falando, aquilo foi um tiro de misericórdia numa das manchas que o Náutico tinha na sua história, que era o racismo, o preconceito de cor. Negro não entrava nem na torcida, muito menos no clube ou na equipe. Isso foi importante porque, realmente, hoje o Náutico é esse clube de todas as cores. Mas tinha muita gente que gostava do Náutico e não podia torcer. Às vezes, não era nem negro, era moreno. E eu tenho a satisfação de ter ajudado Porfírio a trazer Gentil Cardoso e de ter tido sorte porque o fato de o Náutico ter sido campeão com Gentil favoreceu muito a queda do racismo. Ele era recifense da Torre e se denominava o Moço Preto. Gentil era chegado a frases de efeito, como “vai dar zebra”, referindo-se à Portuguesa Carioca, time que ele treinava, na ocasião e que, como a zebra, que não figura entre os 25 animais do jogo do bicho, não estava cotado entre os que poderiam se destacar no Campeonato Carioca...
Quando ele treinava o Santa Cruz, nós fazíamos um programa aos sábados, na Rádio Clube, a tarde inteira. Uma vez eu fui à concentração bater um papo com Gentil. Perguntei: “Qual é o time para amanhã?” Ele disse: “Isso só amanhã é que vou saber porque esta noite eu me concentrarei e pedirei inspiração às forças da Divina Providência, e aí saberei qual o time que devo escalar para esse jogo.”
Certa vez Jorge Tasso (ex-repórter esportivo e mais tarde delegado de polícia) perguntou: “Gentil, como está vendo o jogo?” “Ah, eu estou aqui, de óculos Ray ban. Pra mim ta tudo verde.” As frases dele ainda estão por aí – quem desloca recebe, quem pede tem preferência; meu filho, bota a bola no chão porque no chão ela descreve uma linha reta, e a linha reta é a menor distância entre dois pontos; ou, na hora do aperto bota a bola pra cima porque enquanto ela sobe,a gente arruma a casa aqui embaixo.
Como foi a criação do slogan “o comentarista da palavra abalizada?”
Foi em 1970 ou um pouco antes. Houve uma reunião na Rádio Jornal, com Geraldo Silva, Geraldo Lopes... e criaram algumas coisas. E entre essas novidades arrumaram esse rótulo para mim por sugestão de Geraldo Silva. E pegou, mas uma vez por outra há quem diga palavra avalizada ou a palavra analisada.
Você chegou a dirigir uma delegação do Sport numa excursão ao Norte. Como foi?
Isso foi em 1958. Era Leopoldo Casado o diretor de futebol do Sport. O clube encontrava-se em crise, e eu estava na Rádio Clube. Eu ia narrar os jogos. Leopoldo Casado alegou que o clube estava sem condições para mandar um dirigente e perguntou se dava para eu comandar a delegação. Eu aleguei que além de narrar para a Rádio Clube, teria que mandar fotografias para o Diário de Pernambuco, tendo que procurar os jornais locais, contratar fotógrafo, mas dava para levar. Disse-lhe: “Agora, não me faça cobrança.” Ele disse: “É só pra ter alguém. Não pode chegar, não pode chegar a delegação, assim, sem ter um chefe. E nós fomos até o Amapá. Passamos um mês viajando. Apesar da economia ainda fizeram duas generosidades. Levaram Luís Zago (antigo zagueiro do Sport, na época árbitro), que estava desempregado aqui – ainda tinha o trabalho de encaixar Zago na bandeirinha, nos jogos do Sport por aí afora – e Ênio, ex-centroavante do Sport, que foi famoso e precisava achar um emprego de treinador. E deu certo. Deixamos Zago empregado no Pará, como árbitro, e empregamos Ênio em São Luís. Eu não me lembro se no Sampaio Corrêa ou no Moto Clube. O Sport estava tão carente que Ênio jogou na excursão. Foi o melhor atacante do time na viagem, eu me lembro muito bem.
E a excursão em si?
Chegamos em Fortaleza, empatamos dois jogos e perdemos dois, e o empresário queria cancelar a excursão. Eu disse não cancela nada. Fui a Eliezer, o ponta-esquerda. Ele fazia o que hoje esses meninos fazem na televisão. Naquela época pouca gente fazia, e Eliezer fazia parte dessa fatia que realizava malabarismo com a bola. Eu disse: “Eliézer, antes de cada jogo tu vais entrar em campo e fazer uma exibição. Vai ser uma atração para os jogos, que o negócio tá feio. Ele disse “deixe comigo.” Eu tinha acesso às rádios e comentava a apresentação de Eliezer. Antes do jogo ele entrava em campo, carregando a bola de uma barra a outra. E isso segurou a excursão até o final. A volta compareci ao Palácio de Alumínio. O Sport estava construindo a sede, e o presidente Adelmar da Costa carvalho fez o Palácio de Alumínio, na Avenida Conde da Boa Vista, ao lado do Cinema São Luís. Levei dois sacos plásticos cheios de notas fiscais. Não tinha tempo de fazer a escrita. Dilermando Raposo era o diretor financeiro do Sport. Abri os dois sacos e mostrei as notas, que era pra gente conferir. Ele pegou os dois sacos, botou no lixo e eu disse “rapaz, tive um trabalho danado pra sair catando essas notas...” Ele perguntou: “Como está a situação?” Informei que todos os salários estavam atualizados e que o “safado” do Bria tinha me contado uma história comovente e por isso lhe adiantei 400 cruzeiros por conta do mês seguinte. Foi uma grande risadagem. E o Sport, que estava muito mal, por coincidência, nesse mês que o time passou fora, tranqüilizou tudo. Enquanto a corda estava subindo e descendo, por aqui eles iam arruando a casa. E o Sport terminou campeão em 58.
Naquela época o futebol era meio amador...
Era, sim. A visão era outra. Hoje fala mais alto o dinheiro, e o resto é resto, como dizia Aldir Frazão Doudement (narrador esportivo).
O rádio esportivo passou por uma grande transformação. Como você analisa?
Passou, a partir do equipamento. Quando nós trabalhávamos na Rádio Clube não tínhamos sequer um gravador portátil. Era um gravador grande. Era um gravador com um rolo de fita também grande, não tinha microfone portátil. Quando surgiu naquele tempo o hand talkie, parecia uma maleta. Era aquele negócio pesado, que o repórter carregava. Não tínhamos as facilidades de comunicação de agora. Ao mudar o equipamento, automaticamente teria que melhorar a forma de trabalho e o comportamento dos profissionais da imprensa. Mas a essência permanece a mesma, É aquela coisa do bom narrador, do bom repórter, da imparcialidade, da narração vibrante, correta, do documentário equilibrado, com os comentaristas se fazendo respeitar, com sua opinião respeitada w acatada pelo torcedor. E por aí vai.
A criação do Campeonato Brasileiro influenciou na situação dos nossos clubes?
Dificultou a vida de todo o mundo. Hoje é muito mais difícil fazer futebol, comparando com aquela época. Terminado o campeonato estadual, o clube saía para fazer amistosos. Eu me lembro que do fim de 1959 para o comecinho de 1960 tivemos a primeira Taça Brasil. Interessante é que eu estava na Panamericana quando a competição começou. Eu era narrador e narrei a vitória do Bahia sobre o Santos, lá na Vila Belmiro. Saí da Panamericana, e antes de voltar pra Recife passei três meses na Bahia. Fiquei um mês na Rádio Sociedade e dois na Cultura de Ilhéus – eles queriam que eu desse uma passadinha por lá. Transmiti pela Sociedade o restante da Taça Brasil, e o Bahia foi campeão. Daí por diante surgiram os campeonatos de nível nacional. Antes o que existia era o Campeonato Brasileiro de Seleções, e dois em dois anos.
Como você vê a globalização ao futebol?
Antigamente tinha um jogador no interior, o sonho dele era vir para o Sport, Náutico ou Santa Cruz, pensando em fazer disso um trampolim para chegar ao Rio ou São Paulo. Só que hoje não é mais assim. Um garoto do interior ta pensando no Real Madrid, no Barcelona. Quando menos se espera, o garoto aparece no noticiário.
Todo jogador, desde os primeiros anos, tem seu empresário...
Empresário pra mim tem que ser de Antônio Ermírio de Morais pra cima. O agente, o atravessador autodenomina-se empresário e vai à família do jogador. Chega lá um cara batendo na porta da casa humilde, onde existe um menino que bate uma bolinha, joga um compromisso na cara do pai pobre e prende o jogador a ele, mediante cinco mil reais. Com esse dinheiro a família resolve todos os seus problemas. Então, a coisa ficou assim, na base da grana, especialmente por parte desses caras que entraram no futebol só pra ganhar dinheiro. E a Lei Pelé, embora tenha beneficiado o atleta, atrapalhou um pouco a vida do clube.

Excelente entrevista ! Quanto ao livro - que deve ser também muito bom - só um reparo (de um sujeito chato como eu) - não gostei do título que faz supor tratar-se de alguém ligado ao voleibol...Nada que prejudique o interesse pela obra de todos que conhecem e admiram o "comentarista da palavra abalizada".
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