16 de ago. de 2014



Por EDGAR MATTOS, MDM  


Quem lê os meus comentários após os insucessos do meu Náutico e não consegue vislumbrar neles, mesmo quando ácidos no criticar desempenhos, qualquer sinal de desalento ou de desânimo, supõe-me um espírito inquebrantável. Um otimista inveterado desses que sempre esperam que no jogo seguinte, ou, pelo menos, na próxima competição as coisas possam ser diferentes.
Razão tem em parte. Seria até compreensível que aqueles, como eu, que tiveram a ventura de participar dos momentos mais gloriosos do nosso clube, encontrassem maiores dificuldades de assimilar longos períodos de adversidades como esses que, da década de 60 para cá, têm entremeado nossas raras conquistas.
Mas, se os triunfos acostumam mal despreparando-nos para enfrentar eventuais decepções, as derrotas sucessivas calejam o espírito como que o tornando mais resistente às amarguras. Até porque o futebol nos demonstra a cada dia exemplos de surpreendentes derrocadas e de admiráveis superações.
Por isso, porque já vivi muito, porque já provei igualmente do mel das bem-aventuranças e do fel dos dissabores, porque experimento há muitos anos as alternâncias dessa montanha-russa de emoções que são as disputas esportivas, tenho sempre fortalecido o ânimo na esperança. - quase certeza – de que a uma queda acentuada segue-se sempre uma ascensão de igual proporção e intensidade. Ou, como reza a sabedoria bíblica: quem se humilha, será exaltado; quem se exalta será humilhado, verdade tão certa quanto a que diz que nada como um dia atrás do outro...
Agora, vou confessar a vocês que, mesmo assim, forjado na extensa experiência dessa minha ancianidade, também eu, vez por outra, me descompenso, deixando-me despencar nos abismos da depressão esportiva. Vontade de largar tudo. De não mais freqüentar estádios. De olhar o futebol apenas como quem presencia um espetáculo, um show. Desapaixonadamente. Sem maiores emoções.
Nesses momentos de crise, bate-me, inclusive, um arrependimento, quase remorso, de haver iniciado o meu filho Edmur (* **), um vibrante torcedor alvirrubro, nesse "vício" pernicioso porque fonte de inevitáveis padecimentos. Amargura-me, profundamente, vê-lo sofrer por causa do Náutico, embora ele seja muito duro na queda. Chego, então, a questionar-me se vale a pena por em risco a saúde, ameaçar de enfartes o coração sobrecarregando-o com as ânsias, os sobressaltos, os sustos, as indignações, as revoltas, ou até mesmo com as desmedidas explosões da incontida alegria. Tudo em função de um simples jogo de bola. Por causa de querelas clubísticas, envolver-me em discussões e até em brigas, não só com adversários mas até com companheiros da mesma fé : agastar-me com amigos por causa de futebol. Vale a pena tudo isso?
Acontece que essa crise dura apenas o espaço de uma noite.
No dia seguinte, já estou eu à cata de novidades nos cadernos de esportes dos jornais, "zapeando" as emissoras de rádio, ansioso para ouvir, nos programas especializados, as últimas notícias do Náutico. Novas contratações trazem sempre novas esperanças (pelo menos enquanto não estreiam...) E, na primeira vitória já estou eu de novo vibrando, me entusiasmando, acreditando, confiando, esperando................Até que outra derrota me entristeça, até que uma nova decepção me atormente. E se, por acaso, voltar a depressão, com ela retorna aquela mesma e racional pergunta: vale a pena ?
Sei que essa não é uma situação peculiar minha, mas, certamente, a rotina de quase todos os torcedores. Uns, mais fortes, outros mais vulneráveis; uns, em fase favorável, ganhando mais do que perdendo; outros, em tempos de vacas magras, vivendo das raras alegrias de esporádicas vitórias.
Só que, quando a paz e a tranqüilidade dos sem paixão, a vida mansa dos sem clube, sem opinião e sem partido, começa a tentar me seduzir, lembro-me sempre de uns singelos versinhos, mais conhecidos do que o seu autor, o poeta Francisco Otaviano, que encerram uma grande e profunda lição:
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu
Quem não sentiu o frio da desgraça
Quem passou pela viva e não sofreu
Foi espectro de homem, não foi homem
Só passou pela vida, NÃO VIVEU !
Por isso, sigo torcendo, vibrando e sofrendo pelo Náutico. Porque optei por viver.
* agora, a responsabilidade aumentou, pois meu netinho, Tiago, incorporou a mesma paixão; melhor do que a encomenda pois, por obra e graça do mestre Roberto Vieira, se fez capa do livro “Adeus Aflitos”, já fazendo parte, assim, da História do Náutico;
** quando publiquei essa crônica, Edmur (Muzuca) postou o seguinte comentário:
“Pai, tenha certeza de que as vitórias que comemoramos juntos valeram muito mais do que as nossas derrotas. Permita-me, apenas, discordar do momento em que você me iniciou como torcedor do Náutico, já que, ao nascer, já estava no meu DNA o sangue vermelho e branco, claro que com a sua evidente colaboração. Obrigado !”


2 comentários:

  1. Marcelo Lins diz:
    Edgar, Parabéns pela coluna e pelo amor ao Náutico. Espero que um dia seu neto Tiago veja um CNC vitorioso.
    Também me pergunto se tanto amor vale a pena, principalmente em ver a atual situação do clube, agravada por uma gestão que prometeu muito e quase nada fez.
    Vou muito no clube, e atualmente além de sofrer com as derrotas sofro imensamente em ver funcionários humildes sem receber salários, algo básico para quem deseja ser transparente e digno com os sócios.
    Tenho o pensamento que o que temos de bom hoje é o amor dos torcedores como vc, Newton Morais, Marcos Japiassú e outros tem pela nossas cores, e só.
    Não temos estádio próprio. Não vencemos jogos, Não pagamos salários e nossos dirigentes são uma vergonha desde 2008.
    Só temos o amor de nossa sofrida torcida, o que por si só não é pouco, porém só espero que não maltratem tanto esse sentimento, a ponto de acabarem com a única coisa que nos resta.
    Mando meus parabéns a todos aqueles que mantém ainda vivo esse sentimento.

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  2. Maravilha de texto, Edgar. Parabéns.
    Acho que todos nós, vez por outra, nos questionamos se vale a pena torcer e sofrer tanto por um time de futebol, sacrificando seu trabalho, sua saúde e suas finanças. Mas não tem jeito. Está no DNA. E quando vem uma vitória como a de hoje, imediatamente apagamos as tristezas e o sentimento passa a ser de total alegria e otimismo. .

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Comentários