30 de jun. de 2014



Por EDGAR MATTOS, MDM



Era no tempo em que os Estados Unidos eram anatematizados pelas esquerdas como a sede de todo o Mal. Por isso, foi com muito constrangimento que minha colega Marina(1), secretária de educação de um estado do Sul, aceitou o convite da Embaixada Americana para visitarmos, em programa de intercâmbio, a terra do Tio Sam.

Os convidados éramos apenas quatro: além de Marina e eu, então secretário de Educação de Pernambuco, um técnico da secretaria de Educação de São Paulo, e uma assessora do MEC.

Como único representante do Nordeste e, a despeito da divergência política com os demais companheiros de viagem, todos extremados peemedebistas - á época o mais prestigiado partido de oposição - não tinha com eles qualquer problema de relacionamento, sendo, ao contrário, bastante respeitosa e até muito cordial a convivência que mantínhamos nos periódicos encontros do conselho nacional de secretários de Educação.
Apesar disso, eles demonstravam se sentirem incomodados de me ter como testemunha dessa (para eles) vergonhosa concessão feita ao “odioso imperialismo yankee”, de certa forma homenageado com a visita de tão ferrenhos críticos. Até porque seria muito difícil disfarçar a enorme satisfação de todos em havermos sido contemplados com a grande oportunidade de conhecermos, a custo zero, a organização educacional de um país com a dimensão política dos “States”.

O programa da visita foi bem abrangente. Percorremos o território norteamericano de costa a costa. Estivemos em Washington, Boston, Portland, São Francisco, Phoenix e Nova York, em proveitosa viagem de trinta dias.

Em Portland, deu-se um fato que muito me divertiu. É que, á época, uma das bandeiras dos sindicatos dos professores era a eleição do diretor de unidade de ensino pela própria comunidade escolar(2). E, até aquele ano – 1985 –, a única Secretaria de Educação a adotar esse sistema seletivo tinha sido a de Marina que, orgulhosa desse seu pioneirismo, em cada cidade americana visitada fazia questão de indagar qual era o processo de escolha dos dirigentes escolares. Tudo com o vaidoso propósito de demonstrar que, no seu estado, as práticas eletivas excediam as vigentes no próprio país modelo de Democracia. Aconteceu que, para sua surpresa, em Portland, essa “democracite” ia muito além do que ela pressupunha. Não só os diretores dos estabelecimentos de ensino, mas também os próprios secretários de Educação, eram eleitos pela população. É claro que não podíamos deixar passar essa oportunidade de gozarmos com a cara da nossa amiga cuja perplexidade com o inesperado resultado da sua pesquisa era bem visível.

- E aí Marina, viu como você está atrasada? Trate logo de implantar, lá na sua terra, esse sistema e comece desde já a preparar a sua campanha eleitoral.

Inconformada por haver sido superada no que supunha ser o máximo da atitude democrática, e, diante disso, preocupada com a legitimidade da sua própria nomeação para o cargo, Marina começou a reagir contra a novidade.

- E se o secretário eleito for de partido diferente daquele do Governador como é que fica a administração educacional ?

- São riscos da Democracia, minha cara Marina – replicamos nós, sem contermos o riso ante a indisfarçável decepção da nossa amiga por haver sido defenestrada do pódio dessa ridícula competição por ela imaginada.
Verdadeiro choque tive eu ao testemunhar como são irresistíveis, mesmo para esquerdistas mais radicais, as seduções do consumismo. Para que se tenha ideia do tamanho do meu espanto, devo esclarecer que, no início da viagem, desde a nossa chegada em Washington, era risível a preocupação de Marina em não se deixar fotografar junto a monumentos expressivos da história norteamericana, como se a documentação da sua presença no reduto do “inimigo” pudesse comprometer a sua imagem ideológica perante os seus correligionários.

Pois bem, estávamos em Nova York, na véspera do nosso retorno ao Brasil e era Natal. As ruas da “Big Apple”, decoradas com muitas luzes e muitas cores, fervilhavam de gente na habitual azáfama do comércio natalino, estimulado pelas ricas e criativas vitrines dos maiores e mais famosos magazines. Todos nós dispúnhamos ainda de um bom saldo da generosa ajuda de custo recebida do governo americano para prover a nossa manutenção, durante a missão cultural para a qual havíamos sido convidados.

Com muitos dólares sobrando na bolsa, as atraentes ofertas das fantásticas lojas novaiorquinas tornaram-se, para a agora deslumbrada companheira Marina, uma tentação forte demais. Suficiente para quebrar os seus pruridos ideológicos e superar os seus escrúpulos políticos. Compreensivo com as fraquezas humanas, achei até natural e justificável essa brusca mudança de atitude da nossa amiga, subitamente subjugada aos encantos da “american way of life”...

Só que ela não precisava ter se entregue, com tamanha sofreguidão, aos burgueses prazeres das compras. Tão ansiosamente consumista como se o Capitalismo fosse acabar no dia seguinte...

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(1) embora todos os fatos aqui mencionados sejam rigorosamente verdadeiros resolvi, por uma questão ética, esconder, sob um nome fictício, a identidade da minha colega, secretária de educação.

(2) interessante se faz registrar que a primeira eleição para diretor de escola, em Pernambuco, se deu durante a minha gestão, ainda que à margem da lei, para atender a uma situação especial da Escola Técnica Estadual Prof. Agamenon Magalhães. Fato histórico.


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