A passagem dos cinquenta anos do Golpe de Estado no Brasil, mais os resultados dos trabalhos da Comissão da Verdade, têm ensejado novas revelações sobre os tais anos de chumbo. A morte do coronel reformado Paulo Malhães, torturador cruel e assassino confesso, até agora mal explicada, pode indicar que ainda existam muitos horrores a serem desvendados.
Eu tinha 19 anos incompletos quando apearam João Goulart do poder e confesso que não entendia bem todo aquele rebuliço. A ameaça comunista que se alardeava não era visível a não ser para certas camadas sociais que, com interesses a defender, confundiam-se diante da falsa propaganda golpista.
A rigor, jamais houve real perigo de uma comunização do Brasil. Pregavam-se, isto sim, avanços sociais, alguns deles hoje alcançados. O propalado perigo vermelho foi o pretexto utilizado durante muito tempo pela extrema direita para, através das Forças Armadas, tomar o poder e frear o desenvolvimento da democracia em nosso país.
A ameaça era tão fictícia que as reações dos que acreditavam ou fingiam acreditar iam desde a sandice à covardia. Muitos foram os episódios que evidenciaram o oportunismo dessas pessoas que aproveitaram o momento para promover suas vinganças, até então impossíveis
Em Tupã montaram guarda na caixa d’água da cidade (os vermelhos poderiam nos envenenar), no entorno do Tiro de Guerra (podiam roubar fuzis e munições) e puseram civis de uma comissão especialmente criada para vigiar as casas dos prováveis “agentes das forças soviéticas” (?!!).
Contudo, esses vigiados eram cidadãos comuns, professores, jornalistas, engenheiros, médicos, comerciantes, trabalhadores que, vítimas dessa sanha ignara, enfrentaram prisões, perseguições na carreira profissional, sofrimentos e humilhações. Ao final, foram absolvidos por falta de provas e seus caluniadores jamais pagaram pelos atos de leviandade.
Em tempos assim, os pobres de espírito – ricos, doutorados ou religiosos, mas, pobres de espírito – voltam-se contra a cultura, contra os livros, o teatro, o cinema, até contra a música e a poesia. Queimam tudo em praça pública como queimavam as hordas nazistas na Europa dos anos 30. Em Tupã não foi diferente. Apesar de não terem feito fogueiras, apontaram seus dedos duros e pusilânimes para as costas dos que pensavam com independência e altivez. Para prender inofensivos conterrâneos, suas tropas invadiam residências às 6 horas da manhã, sem ordem judicial e com a truculência própria dos que têm medo.
Entre os fatos que seriam hilários não fossem revoltantes, há um, recentemente publicado por um jornal da região, que vitimou dois ilustres concidadãos: o Engenheiro Civil Lucilo Jordão de Oliveira e o Médico Kalouf Choueke. Tendo alugado uma casa na praia em março de 1964, de repente viram-se cercados, à noite, por soldados e um delegado. Estes procuravam por homens armados que, sob o comando de “perigosos guerrilheiros” de Tupã, iriam reforçar certa brigada de portuários organizada para desbaratar uma das marchas por Deus e pela Liberdade. Envergonhados, os policiais constataram que a “temível coluna” delatada pelos informantes tupãenses, compunha-se de dois doutores, suas esposas e crianças que, na oportunidade, choravam assustadas.
No final da década de 70, vereador, convocaram-me a depor num IPM (Inquérito Policial Militar) contra o ex-prefeito Idenolphi Semeghini. Compareci e fui ouvido por um oficial do exército que, apesar de educado, era insistente e fazia a mesma pergunta de várias formas, à cata de eventuais contradições. Indagou-me duas ou três vezes se de fato o denunciado tinha temperamento exaltado e incitava as pessoas contra os poderes constituídos. Obviamente neguei, até porque, subversivo ou agitador, o Professor Idenolphi nunca fora. Configurava-se mais uma vingança de ocasião, a exemplo de tantas outras praticadas na época.
* Do Blog COCTIDIANO: CRÔNICAS, CAUSOS E PALPITES http://zuguim.blog.uol.com.br/

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