23 de abr. de 2014




* Crônica extraída do livro publicado em 2009

Por Roberto Vieira

21 de maio de 1916. Três da tarde.
Uma pequena multidão toma conta do campo do British Club na Ponte d'Uchoa.
O primeiro Clássico dos Clássicos da história do Campeonato Pernambucano.
Na verdade, o primeiro clássico em nossos estaduais.
Mas cadê o juiz?
Mr. Foster era um cavalheiro extremamente pontual, mas naquele domingo ele não deu as caras.
Procura daqui, procura dali. Finalmente um consenso. Bota o Rômulo de Souza pra apitar.
O Náutico estréia nos estaduais com Agostinho Prado; Sitonho e Zémaia; Petribu, Arruda e Bibi; Edu Lemos, Adhemar, Manoel Lopes, Máximo Pontual e Amaro Cavalcanti.
O Sport alinha Lula; Borges e Smith; Brandão, Robinson e Town; Smethurst, Spencer, Briant, Reynolds e Hawkey.
Também é o batismo do rubro negro na história dos pernambucanos.
O Sport na época era formado em sua maioria por estrangeiros.
O elenco alvirrubro era totalmente nacional.
Até aquele momento, Náutico e Sport haviam jogado quinze vezes desde o primeiro amistoso em 25 de julho de 1909.
Equilíbrio absoluto. Quatro vitórias do Timbu. Quatro vitórias do Leão. Três empates.
O Sport bate o centro com o veloz Briant.
Os relógios marcam pontualmente três horas e cinquenta e cinco minutos.
O primeiro escanteio é rubro negro.
Mas de repente Arruda, o capitão alvirrubro, domina a pelota e lança Amaro. 1 x 0!
O primeiro gol do Timbu em campeonatos pernambucanos.
Num sinal dos tempos, uma salva de palmas irrompe na multidão.
O Sport era o favorito.
Porém numa escapada o 'mignon outsider' Adhemar manda uma bomba contra a meta defendida por Lula. 2 x 0.
Ninguém acredita no marcador. Principalmente porque Adhemar também havia atuado na preliminar.
Alma de maratonista. Adhemar seria o herói da peleja.
Clássico dos Clássicos sem polêmica é coisa rara. Não ia ser diferente daquela vez.
As regras eram diferentes.
O Náutico tem um goal-kick a seu favor.
Uma espécie de tiro de meta. Sitonho levanta a bola para o arqueiro Agostinho.
Numa fração de segundos, Briant aompanhando o lance de perto, rouba a bola no ar e marca o tento do Leão.
O juiz Rômulo de Souza corre pro meio de campo apesar dos protestos alvirrubros. 2 x 1.
Cabe lembrar que, segundo os jornais da época, pela regra número 7 era proibido a qualquer jogador adversário permanecer a menos de dez jardas do tal goal-kick.
Como os tempos eram outros, a bola voltou a rolar civilizadamente.
Pouco antes do final do primeiro tempo Adhemar recebe a bola e arranca em um belissimo rush anotando mais um tento. 3 x 1!
A torcida aplaude delirantemente o conjunto de Rosa e Silva.
Na volta do intervalo, Lopes perde um gol feito.
A vitória parece garantida. Mas Amaro sente cãimbras e faz número em campo.
Petribu já não corre como antes sentindo uma contusão. O Sport pressiona, o Náutico resiste.
Quando o jogo parece se encaminhar para o seu final, Máximo bate um corner e Adhemar completa com categoria. 4 x 1!
Em 1916 o mundo estava em guerra.
Mas nos campos de futebol a rivalidade se encerrava com o apito final.
Alvirrubros e rubro negros se saudaram com gritos de hurrah, apertaram-se as mãos e caminharam tranquilos para casa.
O Náutico perdeu a final do grupo B para o Sport por 3 x 1 no dia 17 de dezembro de 1916.
O Sport sagrou-se campeão pernambucano vencendo o Santa Cruz, campeão do grupo A, por 4 x 1 sete dias depois.
Como se vê, o regulamento da época não gostava de clássicos.
Como o de 2008.
O Náutico só iria jogar oficialmente contra o Santa Cruz no dia 26 de maio de 1918. Um empate em 1 x 1.

Mas aí já é uma outra história.


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