19 de abr. de 2014






Por Lucídio José de Oliveira, MDM

Aconteceu então o inesperado. Ao meio-dia em ponto, estavam em mais uma vez no meio de uma parte da dança. Ela espantou-se com a hora e o deixou plantado, sozinho, no meio do salão. Não aceitou inclusive que ele a acompanhasse até a porta para as despedidas de praxe. A irmã do escritor achou tudo tão estranho, ficou de tal modo perturbada que acabou por assumir a culpa pelo desfecho inesperado do encontro. García Márquez chegou a atribuir, na época, àquele mau momento uma das razões para a determinação repentina da irmã de entrar no convento das Salesianas de Medellín, onde ficou por mais de vinte anos, saindo apenas para viver seus derradeiros dias de solteira com seus pais. O escritor registra então, neste momento do livro, uma revelação surpreendente, ficando a dúvida se verdadeira ou fantasiosa: “Mercedes e eu, a partir daquele dia, acabamos inventando um código pessoal com o qual nos entendíamos sem dizer nada, e até sem nos encontrarmos.” Verdade ou pura fantasia, liberdade literária do mestre do realismo fantástico? A dúvida procede, pois logo no parágrafo seguinte a realidade se contradiz com a fantasia: “Tornei a ter notícias dela um mês depois, no dia 22 de janeiro do ano seguinte.” Mercedes passara no jornal onde ele trabalhava, o El Heraldo, deixando um recado seco: − Gabo: mataram Cayetano. − Para o escritor, e para ela também, só havia um Cayetano: Cayetano Gentile, o velho amigo da cidade de Sucre, “médico iminente, animador de bailes e namorador por profissão”. O mesmo que promovera o tal baile, começo dessa história misteriosa de amor. O mesmo que iria lhe servir de inspiração para a sua fantástica e mundialmente famosa “Crônica de uma Morte Anunciada”, novela somente publicada após a morte da mãe do escritor, que não desejava ver uma história triste e dramática, envolvendo pessoas conhecidas, tornada pública em forma de romance. O amigo comum de Mercedes e Gabo havia sido brutalmente assassinado por dois irmãos de uma professora ultrajada que se envolvera no circuito amoroso de Cayetano, um rapaz gentil, não apenas no nome, mas incorrigível namorador. Na novela, personalizado como Santiago Nasar, o desaventurado rapaz assassinado na porta de casa.

Mesmo tendo ainda pela frente mais de cem páginas para concluir suas memórias daquele tempo, o tempo que acaba quando de sua ida, ainda solteiro, á Europa como correspondente de jornal, García Márquez só retorna a Mercedes no final do seu livro de memórias. O jornalista-escritor está perto de completar 30 anos. A direção do jornal em que trabalha, agora em Bogotá, lhe faz o comunicado formal de que teria que viajar para Genebra a fim de cobrir, como enviado especial, a Conferência dos Quatro Grandes do pós-guerrra -Eisenhower, Bulgarin, Éden e Faure. Vencida a trabalheira que foi botar em dia a documentação para a viagem, a primeira para o exterior - Gabo, já homem feito, não tem ainda sequer a carteira de identidade... -o jornalista tomou um ônibus que o levaria á cidade costeira, onde, por fim, pegaria o avião rumo ao Velho Mundo. Mas vamos deixar a palavra com ele mesmo. É a hora única e desesperadora da despedida: “Horas depois, no táxi que me levava ao aeroporto de Barranquilla debaixo de céu ingrato mais transparente que qualquer outro céu do mundo, percebi que estava na avenida Vinte de Julho. Por um reflexo que há cinco anos fazia parte da minha vida, olhei para a casa de Mercedes Barcha. E lá estava ela, sentada no portal como uma estátua, esbelta e distante, e seguindo pontual a última moda daquele ano, com um vestido verde de rendas douradas, o cabelo cortado como asas de andorinha e a quietude intensa de quem espera alguém que não haverá de chegar. Não pude evitar, naquela quinta-feira de julho e numa hora tão madrugadora, a sensação de estremecimento que iria perdê-la para sempre, e por um instante pensei em parar o táxi para me despedir, mas preferi não desafiar uma vez mais um destino tão incerto e persistente como o meu”. Simplesmente desesperador...

“No avião em pleno voo − outra vez o escritor com a palavra −, eu continuava castigado pelas agulhadas do arrependimento. Naquela época havia o bom costume de deixar no encosto do assento dianteiro tudo que fosse necessário para escrever de forma galante. Eram algumas folhas de cartas com filetes dourados e envelopes no mesmo linho rosado, creme ou azul, e ás vezes perfumado. Em minhas poucas viagens anteriores eu havia usado aquelas folhas para escrever poemas de adeus que transformava em aviõezinhos de papel e depois jogava ao vento ao descer do avião. Escolhi o azul-celeste e escrevi minha primeira carta formal para Mercedes sentada no umbral de sua casa às sete da manhã, com o traje verde de noiva sem dono, o grifo é meu, e o cabelo de andorinha incerta, sem nem ao menos suspeitar para quem ela tinha se vestido ao amanhecer.”

Diz ainda García Márquez, fechando essa história de amor com um final feliz, que costumava escrever  para Mercedes recados de brincadeira, que improvisava ao léu, e recebia respostas verbais e sempre vagas quando a encontrava por acaso. Esse agora não pretendia ter mais do que cinco linhas para dar notícia oficial da sua viagem. No final, porém, acrescentou um PS que no instante de assinar, confessa, lhe cegou como um relâmpago ao meio-dia: “Se eu não receber resposta dentro de um mês, vou ficar na Europa para sempre”. E conta aos leitores: “Mal me permiti o tempo para pensar outra vez antes de pôr a carta, ás duas da manhã, no correio do aeroporto desolado de Montego Bay na rota da viagem, na parada técnica para abastecimento do avião na Jamaica. Já era sexta-feira. Na quinta da semana seguinte, quando entrei no hotel de Genebra, depois de outra jornada inútil de desacordos internacionais, encontrei a carta com a resposta.” Mercedes dera o sim! Com essas palavras, encerra Gabriel García Márquez a sua brilhante narrativa de “Viver para Contar”, primeiro volume de suas memórias. Um final feliz que não termina aí. Continua com o casamento e com anos e anos de vida em comum de Gabo e Mercedez.

Deve-se acrescentar que Gabriel García Márquez tinha informado à sua mãe, na hora da despedida em Cartagena, que ficaria apenas duas semanas ausente na Europa, quando na realidade tudo estava programado para retornar após quatro dias, tempo que iria durar a Conferência dos Quatro Grandes. Na realidade, ficou três anos, decerto boa parte desses longos dias corroído pela dúvida e afogado num “oceano de prantos”, como no velho bolero caribenho, versão brasileira daquele tempo. Mas do mesmo modo, às voltas com sua sobrevivência financeira, que saco vazio não se põe de pé, e ocupando o tempo entre outras coisas em dar uma redação final a “Cem Anos de Solidão” - até então existindo apenas alinhavado em sua cabeça e nos rabiscos de tiras e tiras de papel dos jornais desde quando trabalhava na Colômbia.



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