Por Lucídio José de Oliveira, MDM
É mais do que sabido que a realidade e a fantasia, em Gabriel García Márquez, convivem tão juntas que não se sabe onde uma começa nem onde a outra termina.
Em “Viver para contar”, livro autobiográfico como prevê o título, o escritor colombiano narra um episódio romântico, apenas aparentemente banal, quando tendo tirado uma moça para dançar na primeira noite de três bailes esplêndidos numas férias na pequenina Sucre de sua mocidade, ouviu da jovem, na realidade uma menina ainda adolescente, uma resposta que ele considerou misteriosa a uma pergunta que lhe fizera indisfarçadamente com jeito de “cantada”: “Meu pai me disse que está para nascer o príncipe que vai se casar comigo'.
Não se dera ao trabalho de perguntar, até então, quem era a moça, filha de quem, nem com quem. Sequer o seu nome sabia. Achou-a simplesmente bonita, e sobretudo sigilosa, o que lhe dera ânimo suficiente para a proposta a sério para que com ele se casasse, logo na segunda música que estavam dançando juntos, bem antes de se conhecerem mais intimamente. A narração continua com o escritor, agora textualmente: “Dias depois, eu a vi atravessar o calçadão da praça debaixo do sol bravo do meio-dia, com um radiante vestido de organdi, levando pela mão um menino e uma menina de seis ou sete anos.” - São meus -, disse morrendo de rir, sem que ele nada tivesse lhe perguntado. E com tanta malícia, que o futuro escritor começou a suspeitar que sua proposta de casamento “não tinha sido levada pelo vento”. Da encantadora personagem não mais se ocupa García Márquez nas 114 páginas seguintes do livro. Quando então conta um novo episódio de dança, da mesma maneira gracioso, envolvendo a mesma moça, que ainda não fora apresentada aos leitores. Dela, ainda não lhe sabemos o nome, nem filha de quem é. Mas chega, por fim, o momento da apresentação: “Naqueles dias de boa sorte encontrei por acaso Mercedes Barcha, a filha do boticário de Sucre, a quem eu havia proposto casamento quando ela tinha treze anos de idade.” Desta vez, o episódio se passa em Barranquilla, ela finalmente aceitou o convite, o que pressupõe outros, para um baile no Hotel Prado, velho hábito dos colombianos, amantes da boa música e mais ainda da dança domingueira em costumeiras e animadas manhãs de sol. Na época, o escritor era apenas um jornalista em começo de carreira enquanto tentava cursar direito. Mercedes estudava em Medellín e só ia á Barranquilla para os encontros com a família, que para lá se mudara por força da situação política opressiva da Colômbia daqueles dias. García Márquez a descreve então como uma “moça divertida e amável comigo”, mas com “enorme talento de ilusionista”, o suficiente para “escapar de perguntas e respostas e não deixar nada esclarecido.” Aceitava ele a situação como uma esperteza da moça, “uma estratégia mais piedosa que a indiferença ou a pura rejeição”. E se conformava, vejam só a que ponto chega a paixão, com a amizade mantida com o seu pai, em ser visto e poder com ele se encontrar num bar em frente à sua casa, em frente à casa onde morava sua musa. E apesar da grande diferença de idade entre ambos, entre ele o pai da moça, a amizade com o velho chegou a ponto de a intimidade permitir o comentário deste, ali mesmo na mesa do bar, que confessou sentir-se vangloriado com a hipotética frase atribuída a ele pela filha por ocasião do primeiro baile, a de que “estava pra nascer o príncipe etc etc...”.
Na manhã aprazada do domingo, semana do Natal, o baile no Hotel Prado” em Barraquilha. Mercedes foi sozinha, surpreendendo o jornalista que pensava ela por lá só aparecer se fosse acompanhada do pai, como costumava ir para todos os lados. O escritor, porém, fez-se acompanhar de uma das irmãs que passava férias na cidade. Mercedes dançou o tempo todo com tamanha e tal naturalidade que Gabo terminou por concluir que renovar, naquele momento, qualquer proposta de casamento poderia parecer ridículo, senão indecoroso. De todo modo, impulsivo que era, não deixou passar em branco a oportunidade de ouro. Mas ela dançava muito bem as canções da moda, confessa o escritor, e aproveitava esse dom para driblar com argúcia as propostas com que era acossada (continua).

Gabriel é imortal... e isso não é realismo fantástico.
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