Por ROBERTO VIEIRA
Era uma noite de maio,
uma destas noites de maio no hemisfério sul,
onde o céu estrelado se mistura com a ilusão de eternidade.
Era um tempo em que nos proibiam de falar e cantar.
Um tempo de fealdade.
Um tempo de inverdades confessas em que o povo acordava do sono de si mesmo,
como se num imenso bocejo paleozoico,
desses bocejos que se tem desprezo.
Ela chegou querendo cantar a liberdade,
aquela liberdade distante,
liberdade do canto e do amor,
liberdade que para nós era uma calça velha desbotada e sem cor,
liberdade que ninguém mais conhecia,
liberdade ainda que tardia.
Era uma noite de maio,
uma destas noites de maio no hemisfério sul,
onde o céu estrelado se mistura com a ilusão de eternidade.
Era um tempo em que nos proibiam de falar e cantar.
Pois nessa noite ao chegar em casa,
descobri que nos proibiam também de cantar,
como haviam proibido a Gil e Caetano;
cantar só era permitido aos cânticos olivas,
eu te amo meu Brasil e noventa milhões em ação.
Cantar só pra Copa da Espanha.
Tranquei-me em meu quarto pequeno,
ao lado do Teatro do Parque,
peguei um LP da estante e botei na vitrola Philips...
desafiei a censura durante dias no meu mundo,
no meu tempo singular.
Todas as mulheres do mundo para mim eram Joan.
Apesar de nunca ter descoberto para onde foram todas as flores desse mundo...

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