12 de out. de 2013






Por ROBERTO VIEIRA

Foram sete quilômetros até chegar ao pequeno estádio em Jurema. O sol castigava o corpo com fome de José. O pai tinha ficado em casa com o irmão, promessa de surra se voltasse sem uns trocados do jogo. E pra ganhar os trocados, José tinha de ser ele e mais dez.
Preliminar. O time dos meninos de Jurema pega a seleção de Bonito. A torcida já bota as cadeiras na linha lateral e o prefeito se aboleta na pequena tribuna de honra. Jurema era famosa por Rinaldo e diziam que havia um novo Rinaldo por aquelas bandas. Um tal de Zezinho.
A seleção de Bonito era bem alimentada. Cada moleque de Bonito dava dois de Jurema. Futebol fosse rúgbi e não tinha graça. Mas futebol é jogo da esperteza e da sorte. O grandalhão vai de sola e o pequeno escapa sorrindo.
José recebe a camisa número 10. Teve vontade de pedir uma banana pra almoçar, calou. Quem sabe depois da partida? Lembrou da promessa de surra do pai. Lembrou do irmão pequeno com febre estirado na cama de capim. Lembrou de tanta coisa que a primeira bola passou por ele e a seleção de Bonito marcou o primeiro gol.
Vaias. Era melhor deixar de lembrar e aprender a esquecer. José é xingado até a última geração pela torcida e pelo prefeito. Devia ter pedido aquela banana. Recebe a primeira pancada e a segunda.  O juiz está no bolso. A terceira cutucada pega no joelho franzino e José fica estirado no chão. Alguém grita que o pirralho está cheio de não me toques depois de ser comparado ao Rinaldo. 
O mundo gira naquele 12 de outubro de 1980. José parece uma miragem filha do sol. José mata a bola no peito e chuta forte na direção da meta defendida por Nicanor, filho do vereador Nicanor Papa-Defunto.
A bola toca a trave e sai pela linha de fundo. O jogo é duro e a imagem do cinto do pai fica cada vez mais forte na mente de José. Ele não se importa com as chibatadas, mas queria levar alguma coisa pro irmão pequeno poder comer.
Bonito vence. José quer chorar e não consegue. Aquela banana agora é impossível. O técnico recebe ordem do prefeito, manda o moleque pros quintos dos infernos. Jurema não é lugar de mascarado como ele. Um inútil preto e metido a besta. Se ainda fosse branco.
José recebe um safanão e é atirado na cidade vazia. Nem sombra de ninguém. O caminho de volta pra casa é longo e solitário. Nada de dinheiro, nem bananas. Nada para aplacar a ira do pai. Se ao menos a mãe fosse viva. José pensa em fugir, desaparecer pela estrada sem fim. É uma criança imprestável. Não sabe ler, nem escrever e a única coisa que podia salvá-lo era o futebol.
Porém, José toma o caminho de casa. Se não voltar, o que será de seu irmão pequeno nas mãos de seu pai? Quem sabe? Dizem que aquele dia é o dia das crianças. Ele pode se ajoelhar. O pai pode ter pena uma vez na vida.
Silêncio. O pai dorme embriagado. José tem uma chance. Pega o irmão no colo, agarra um resto de pão dormido e corre. Corre como se todos os beques do mundo quisessem lhe pegar. Corre para a liberdade e para longe do cinto do pai. Corre, José, para onde?

Na semana seguinte, na revanche, Jurema ganhou de Bonito por 3x1.


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